quarta-feira, 26 de abril de 2017

Nada com nada

  Às vezes o verbo flui. E ele não precisa ser nada além do que é pra dizer exatamente o que pretende dizer. Existem frases que se constroem sozinhas. Acho que, por precisarem existir, elas se fazem existentes. Vêm, se fazem a si, dizem o que querem, e eu só escrevo. 
  Quero falar daquilo que é. Porque, às vezes, assim como o verbo, eu só tomo a consciência de que sou. Como me tornei, eu não sei explicar. Foi só o vento que soprou. Emergi. Vim à tona, na superfície do mundo, porque precisava ser. O que havia dentro de mim e estava guardado, ficou cansado de se sentar no escuro do que há por dentro, sem platéia, e quis ser visto, ser feito, existir, acontecer. Ele quis ser. E eis que sou. 
  Eis que aconteço. E minha alma vive e transborda e exerce, nesse mundo cá fora, sua essência aqui de dentro, outrora tão solta, tão desconfigurada.
  É uma aula de português enorme! Eu sou o léxico vivendo solta no mundo, e o meu vocabulário é o que me permito exprimir. Explicito o que sei, mas é que sou tanto, há partes que ficam perdidas. 
  Não é que a gente muda, é que a gente aflora. A gente, num dia, aparece pra vida como novas palavras aparecem no que a gente escreve depois de abrir o dicionário. Elas sempre existiram, entende? As palavras. Mas não dentro do meu glossário de consciência - doídas, sentidas, percebidas, vividas, emergidas. 
  Talvez, o que preciso dizer é que o explicitar não é condição pra ser. Mas não preciso dizer, meus amigos. Não preciso, não preciso, não preciso. Quando vocês simplesmente forem, saberão o que foi que eu disse. 

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