quarta-feira, 12 de abril de 2017

Encontros

  Eu tenho uma paixão pelo underground. Pelo o que poderia ter sido dito mas não foi, pelo o que poderia ter sido feito, mas não foi, pelo o que poderia ter acontecido, mas não aconteceu, pelo o que eu causei depois que fui embora, pelo o que eu não vejo, pelo o que fica escondido de mim... É quase uma obsessão. É um vício irreparável de imaginar o "e se". Eu crio realidades alternativas completas em torno das possibilidades que gostaria de conhecer. Eu já me perguntei o efeito que causei com o bom dia cheio de dentes que dei para uma senhorinha num consultório. É que o bom dia que ela me retribuiu me fez feliz, desejei ter levado o mesmo de volta pra ela.
  É por isso que, me desculpem, mas eu não sei lidar com filmes sem finais. Eu vivo imaginando a história depois da história, entende? E quando o final não deixa uma conclusão explícita, eu passo o resto da minha vida remoendo possibilidades.
  É engraçado ser essa criaturinha desejosa de escrever, e ter, já cativa, a minha história ideal não escrita, porque, por mais que eu a idealize - e acreditem, eu a idealizo o tempo inteiro!, e não escrevê-la, porque não encontrei um meio original de fazê-lo. Acontece que nada do que a gente pensa é só nosso. Existe sempre mais alguém que já pensou o que a gente está pensando; que teve uma ideia parecida, que acredita nas mesmas coisas; que achou algo revolucionário porque não o conhecia, mas acabou por descobrir que meio milhão de pessoas já usavam a manobra, e ela não era tão maravilhosa assim... 
  Hoje eu assisti um filme que era minha ideia não concretizada concretizada. Ele [o filme] é o mundo me respondendo que a gente não precisa ser diferente o tempo todo, porque a diferença que às vezes a gente busca, nem sequer existe!
  Hoje eu assisti um filme, e olhava pra ele pensando "Deus! Alguém sente o que eu sinto! Alguém pensa o que eu penso sobre isso! ALGUÉM ME ENTENDE!", e é assim que a empatia se torna acolhedora, sabe? É assim que ser humano fica menos dolorido, porque a gente divide uma mesma vida, num mesmo plano. A gente faz caminhos diferentes, é claro! A gente faz escolhas diferentes. Mas no fim, a gente é capaz de encontrar no outro coisas que temos em nós, e isso é prova de que não estamos tão sozinhos. Isso é a prova de que somos capazes de um pouco de misericórdia e compaixão. 
  Acho que há alguns meses, se eu visse esse filme, eu choraria três dias e três oceanos inteiros. Eu lamentaria pra sempre minha falta de criatividade e personalidade, e minha incapacidade de fazer o que eu achava que era tão diferente, porque, de tanto que demorei, alguém chegou primeiro que eu. Mas hoje, porém, eu precisava era ser entendida. E quem escreveu esse roteiro me entende. 

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