quarta-feira, 26 de abril de 2017

Nada com nada

  Às vezes o verbo flui. E ele não precisa ser nada além do que é pra dizer exatamente o que pretende dizer. Existem frases que se constroem sozinhas. Acho que, por precisarem existir, elas se fazem existentes. Vêm, se fazem a si, dizem o que querem, e eu só escrevo. 
  Quero falar daquilo que é. Porque, às vezes, assim como o verbo, eu só tomo a consciência de que sou. Como me tornei, eu não sei explicar. Foi só o vento que soprou. Emergi. Vim à tona, na superfície do mundo, porque precisava ser. O que havia dentro de mim e estava guardado, ficou cansado de se sentar no escuro do que há por dentro, sem platéia, e quis ser visto, ser feito, existir, acontecer. Ele quis ser. E eis que sou. 

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Encontros

  Eu tenho uma paixão pelo underground. Pelo o que poderia ter sido dito mas não foi, pelo o que poderia ter sido feito, mas não foi, pelo o que poderia ter acontecido, mas não aconteceu, pelo o que eu causei depois que fui embora, pelo o que eu não vejo, pelo o que fica escondido de mim... É quase uma obsessão. É um vício irreparável de imaginar o "e se". Eu crio realidades alternativas completas em torno das possibilidades que gostaria de conhecer. Eu já me perguntei o efeito que causei com o bom dia cheio de dentes que dei para uma senhorinha num consultório. É que o bom dia que ela me retribuiu me fez feliz, desejei ter levado o mesmo de volta pra ela.