segunda-feira, 13 de março de 2017

Pulsações

  A paixão por Frida Kahlo me pegou. Tentei escapar, não consegui. 
  A última parte foi só pelo trocadilho, eu tentei escapar coisa nenhuma! Fui logo me entregando aos expressionismos e biografismos dessa mulher com quem partilho a data de aniversário. 
Foi uma descoberta feliz, e uma inspiração renovadora. Percebi que quero entender de arte. Faz parte de mim essa coisa de querer aprender um pouco mais de tudo, sempre, mas com arte é diferente.      Aprender a ler o que o outro me diz pelas cores, as formas, as letras, as dores, faz a gente mais humano. 
 Foi assim que me joguei por horas a fio num abismo arrebatador de teoria Impressionista (e Expressionista). Eu quero a luz do sol brilhando sobre todas as coisas que são minhas e tudo aquilo que vejo. Mas também quero um e outro sonho (talvez um infinito deles) pairando sobre as escolhas que eu fizer.
  Eu acabei escrevendo assim: 

  Mãe, eu quero ser impressionista. 
  - Impressionista?
  - Sim, impressionista. 
  Ela perguntaria o que isso quer dizer, mas, não quero tanto explicar. Eu queria dar a ela, em vez disso, a minha "escrição" de várias coisas sob diversas óticas. Eu queria me mostrar, a ela e ao mundo, às 6h e às 18h. Ao contar das 10h e depois das 22h. Eu queria que o mundo me visse tão docemente tranquila e alegre, quanto no olho do furacão. Queria a ebulição exalando dos meus poros, ocupando os espaços ao meu redor com tudo o que minha essência expulsa, e depois, que me vissem absorvendo a luz do dia, um dengo amigo, um mimimi que me fizesse borbulhar mais uma vez, e de novo, e recomeçar o ciclo. 
  Mãe, eu quero ser impressionista. 
  Quero reparar nos detalhes mínimos das coisas que a gente vê depressa demais. Eu quero sentar-me na beira da varanda e observar as pessoas passando, quero saber dizer quando elas sorriem e como sorriem, e qual é a cor dos seus olhos nessa hora. Quero conhecer o brilho de tudo que é mais claro numa parte da vida, e qual é a cor mais bonita do escuro dentro dela mesma. Ah, mãe, e se eu disser que quero morar na utopia de um quadro harmônico do Monet??! 
  Mãe, eu quero ser impressionista! Ah sim, por favor, por favor, mãe! Me dá o contraste da vida em um jeito de enfeitar as pinturas que minha alma precisa fazer!
  Eu quero que o mundo veja o ponto de vista de cada coisa sob a vista de cada ponto. Quero que o negro diga sendo negro, que a mulher diga sendo mulher; quero ouvir a lamúria dos mal-acabados e fatigados pela vida do alto do monte em que vivem, isolados com seus sofrimentos. Depois quero essa gente toda sendo dita por mim mesma. De mim pro mundo. Primeiro olhando pra eles com otimismo, e depois sentindo com eles as dores de serem eles, porque você sabe, né, mãe, só a gente consegue entender e mensurar o peso de ser a gente mesmo. 
  Eu quero ser impressionista e dar ao mundo doses cavalares de tolerância e divergência de opiniões. 
 Eu quero o infinito do contragosto e do contraponto sendo tratado como pluralidade respeitada e justa! 
  Ah, eu quero! Eu quero, eu quero.
  Depois deixe que eu pinte o sonho. É que a gente já lida demais com tudo o que de fato existe. Eu sou da Clarice, quero "uma verdade inventada"!
  Eu quero distorcer o que eu vejo se o meu coração estiver distorcido em dor também. Já pensou, mãe, todas as minhas inquietações e pensamentos borbulhantes colorindo pro mundo as cores da empatia e da compreensão. A gente menos sozinho no mundo.
  Minutos e minutos de êxtase otimista pulsante e eu descanso.
  Mas só por enquanto, existe uma vida inteira pra ainda eu descobrir e fazer. 

Um comentário:

  1. Só o real cansa.
    Quanta beleza perder-se pelo imaginado; um não dar conta de si mesmo, estar desatento.
    Você com Frida, eu com Tarkovski.
    Com que doçura eles nos provocam, nos arremessam para um desconhecido em nós!...

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