domingo, 23 de outubro de 2016

Represas

  A ausência é uma presença enorme e há saudades que aproximam. As músicas que narram finais em geral querem voltar ao início. Eu me entedio com as partes felizes das histórias e vivo na ânsia do drama que nunca tem fim. A vida é paradoxal, e cada vez que me entendio com meus próprios dramas pra ficar esperando pela parte feliz da minha história, comprovo a teoria. 
  Atravessa-me a ficção, quase diariamente, como um punhal de espinhos. Mas o que dói de verdade é ver a arte me fazendo crer que de fato a sentimos como nós mesmos, e não pela mera compreensão. Saber que existe, ter sentido na pele, ativar as lembranças quando toca uma música, eu vejo a arte assim: universalização daquilo que é humano. Se sou alguém, isso é o suficiente pra ter sentido aquilo que outro alguém escreveu, e me transpor pela poesia ao estado de alma onde habitam nossas histórias. A isso sim eu chamo isso de empatia. A gente se reconhece nas tragédias dos outros. Eu me reconheço.
  Estive encaminhando o esgoto da minha vida para uma via qualquer de represa regenerativa. Tive sonhos aleatórios com fantasmas assustadores. Ao fim de tudo, pensei: o que é o medo? E por que fantasmas são piores que nós mesmos, em descrença absoluta? Por que a covardia parece convenientemente inexistente quando resolvo não querer sentir? É injusto querer começar de novo, antes dos problemas? Não seria coragem só desistir daquilo que já não tem propósito? 
  Eu não sei, vi num jornal que a chuva deixou algumas cidades em estado de atenção. Tenho estado tão docemente inundada no temporal dos meus próprios pensamentos, que já não parece muito qualquer-coisa ver a mente girando e girando e tornando ao mesmo lugar, vez por vez. 
  Não fiz meu dever de casa, mas sei que da dor do crescimento não me tenho separado um só segundo, e agora, eu já sei: os grandes amores não acabam no fim. Foi assim com a Clarice, é assim com Woody Allen, mesmo quando as histórias terminam, elas estão vivas em mim. Não há minutagem ou desfecho no enredo que não me faça pensar que aqueles personagens continuam. Não há tela preta que escureça também os questionamentos com que cada história me marca...
  O desejo de que o tempo continue e que pare e que acelere e que desacelere e que mude e que seja exatamente como é habita cada célula e cada nervo e cada pensamento e cada desejo e cada pedaço de pedaços de mim. Oh, sim, é que me estilhacei. Deus sabe que me tenho colado, à maneira que posso.
  O fato é que no mar da efemeridade, o sem motivo é que mais me assusta. Vivo à procura dos porquês. Eu sinto os fantasmas. O tempo inteiro. 
  Sentei e silenciei o mundo ao meu redor para lembrar do verso de alguém que chamou a vida de "arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida". Foi bem imediatamente depois da epifania que Amarante me cantou no ouvido "encontrar é reconhecer", mas era "andar", eu acabei confundindo. De qualquer forma, eu rezo para reconhecer as chances quando elas chegarem. Eu peço para que os reencontros sejam doces, se eles existirem. Eu peço uma clemência a Não Sei Quem que está por aí, a controlar a vida, que o que for para ser simplesmente seja, com a sabedoria de ser o que são no mundo e com a resignação de terem nascido pra isso. Eu logo pensei, de novo e sempre, no que já tenho encontrado... Eu vi os paradoxos. Todos eles. Eu vi as histórias que reforçaram e tiraram minha crença no que me cabe ser nesse mundo. Eu vi uns abraços e uns sorrisos e doces e estações de tratamento para esgotos... agora sim, ao fim, o que sei é que sim, "I saw sparks."

Nenhum comentário:

Postar um comentário