sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Perspectivas

  "As pessoas podem ser criativas - e mesmo geniais - em momentos de intenso sofrimento."
  E com essa frase Freud deu-me a licença e o aval para fazer das minhas tristezas não mais um mero instrumento de infelicidade cíclica, mas reafirmação sobre a minha consciência de que as desgraças sempre me fizeram enxergar tão sinceramente - e por isso tão dolorosamente - coisas que meu estado de paz interior jamais permitiu.
  Eu estava pensando no desconforto de pegar o caderno de outro alguém pra copiar a matéria. No quanto a vista é diferente caminhando pela rua, e vendo os outros caminharem com os olhos postos da janela de um carro que vai passando, veloz. Vi ruelas estendendo-se, com suas escadas que mais parecem não ter fim, e, no alto dos morros, a luz dos postes bem perto do céu, quase como que se fossem o sol, refletindo a claridade sobre aqueles que se isolam, e quem sabe lhes dando o calor que lá embaixo as pessoas não dão. 
  Por trás dos outdoores na cidade, eu vi, estavam escondidas fachadas de casas antigas, desenhadas como as igrejas do mesmo tempo, sancas ornamentadas e um ou outro azulejo com a imagem de um santo, bem no centro da sua entrada.
  Pensei em quantos cartazes tento colar em minhas expressões para esconder as desventuras antigas, que de velhas, já não admiro.
   Parece que existe, no fundo, uma certa hierarquia de problematização. A gente já não quer sofrer pelos antigos porque os novos chegaram, e sabemos com exatidão quais são aqueles que não importa quanto tempo passem, jamais serão sanados - são partes de nós. Lembrei dos não desfechos de Woody Allen, de personagens e telespectadores eternamente atormentados pelo "e se". E acabei desviando o rumo desses pensamentos quando notei que a parte de mim que mais amo é sempre aquela que mais me faz sofrer, e ri com ironia por ter percebido isso ao criticar genialidades.
  A passionalidade é emburrecedora. Esquecer-se do que é sensato em nome do que sentimos.         Constatar que o conhecimento sobre as causas de um infortúnio não são suficientes para amenizar a dor de senti-los.
  Eu disse a um amigo:
  - Uma de minhas filhas há de se chamar Capitu.
  - Mas Capitu, Gabi? - ele contestou - Ela há também de destruir corações.
  É tudo sempre passional, vê?
  É impulsivo e sensitivo, e nem isso impede que as várias linhas do tempo continuem se entendendo ao longo da trajetória de uma só vida, sendo cada uma a sua própria história, e sem impedir que o ser seja um indivíduo só, traçando seu próprio caminho, independente das outras vidas com quem cruza e que o alcança...
  A contradição de uma concepção que ora me faz a própria Jane Eyre fazendo o que pode com a vida que tem, que não é a que quer, mas é a que por ora lhe cabe. E bem... Bem, no outro segundo amaldiçoá-la por ser tão como eu e arrebatada por sentimentos dominadores, que vai embora pelo mundo, sem sequer ter para onde ir. E num instante depois... Meu Deus, num instante depois, querer eu mesma largar tudo e ir com ela. Nem que mendiguemos juntas. Mesmo que a vida possa se esvair pelos meus poros largos, meu corpo fatigado e minha razão desprotegida.
  É o ódio pela identificação, eu sei, mas não aceito a dor que a consciência me traz. É admirá-la pelas minhas qualidades que são igualmente dela, e detestá-la por tamanha força e independência abarcar os meus defeitos também.
Seria sensato aceitar que o erro não só faz o caminho como também o é. Ser condescendente e tolerante com as tais linhas do tempo que não acabaram porque eu saí delas, mas que continuam, insubordinadas às minhas escolhas e adesões à sua existência. Que não deixam de existir. E que acontecem. E vivem. E são. Apesar de mim.
  Há os desejos ocultos de um ego que é ego, que quer tudo para si. Há partes da vida que me são recortadas pelo simples fato de não as estar escrevendo. Há uma insistência solene em revogar aceitações, para que isso anule o real, não vê?
  Há o gosto insalubre de uma mente que entende que o sofrimento é bonito quando se faz escada. E que é agridoce porque lembra que as causas não amenizam os efeitos!
  Há Woody Allen, povoando o meu infinito de suposições e quereres e temeres e ahhhh...
  Eu me sento na sala vazia de cinema com o que chamaram de balde médio de pipoca. Sinto meus dedos em contato com o queijo gelado - e pasmem, até doce! - e as pipocas amanteigadas, e os coloco na boca como que para sentir o gosto daquilo que vivo. Minha pele não tarda. ela é uma papila gustativa-sensitiva cinematizando percepções, sensações e o que vejo. Quando a música toca, eu sei, é bem longe do que dizem ser real que estou. A mente vira a própria imaginação, é água corrente descendo o rio e regando as pedras, com sua beleza peculiar em poder jorrar. Sou a gota que escorre, não o alguém de fora do mar. De gota que sou, fluo. Deixo-me ser a beleza que existe naquilo que me encanta, e que a arte cure o que não somos capazes de curar sozinhos. 

Um comentário:

  1. A arte é algo que sensibiliza o artista. Digo isso no sentido de dar sensibilidade, tornar aquele que produz arte um indivíduo mais sensível a própria arte em si.
    Contudo, é importante ressaltar que essa sensibilidade geralmente se desperta apenas em uma vertente artística. Isso seria o mais comum. Ver um escritor ter um olhar mais aguçado para a literatura. Um cineasta, para um enquadramento de um filme. Um músico, para as dissonâncias sutis de um acorde "escondido". Mas há aqueles que ultrapassam essa margem. Tangenciam o caminho dos sentimentos e desenvolvem uma capacidade cognitiva de transitar por todos os cenários e serem sensíveis a todos eles.
    Esse texto revelou-me justamente esta perspectiva. A mim ficou claro essa sensibilidade aguçada. Essa capacidade de ser uma escritora "transeunte" das categorias artísticas. Senti que o texto levou-me a refletir não só o quão benéfico é o sofrimento para a evolução humanística do ser (apesar de darmos a ele sempre uma conotação pejorativa) mas também o quão importante é para um escritor, ou qualquer artista, desenvolver essa percepção, essa sensibilidade em saber compreender e interpretar as mensagens e as conclusões ocultas na entrelinhas. Com propriedade eu digo: "És uma artista completa".
    Não só pela capacidade de envolver o leitor com seus textos, levando-os a uma reflexão sobre a vida, mas também pelo talento nato de ser sensível aos pequenos detalhes. Sejam eles uma cena de filme, um enquadramento de uma paisagem urbana ou uma simples música de fundo.

    Meus parabéns. Adorei o texto.

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