quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Pequena dissertação inconformada sobre o tudo

  Está bem, nem tudo são palavras.
  “Nem tudo são palavras”, ela disse.
  Nem tudo são palavras.
  Não que eu estivesse tão assim, desesperada, tinha alguém tentando me convencer que nem “tudo” são palavras.
  Tudo.
  Tudo é um conjunto muito homogêneo, ou talvez nem tanto, dos sentimentos que não sei de onde vieram e nem o que fazer com, mas cuja presença posso sentir dentro de mim todos os dias, o tempo inteiro. O tudo é a mistura farta de incompreensão sobre si mesmo, sobre a vida, sobre as pessoas, sobre sonhos e planos e futuros. O tudo é a combinação de todos os fatores aflitivos que existirem no âmbito “pensamental” de uma criatura. O tudo é uma aglomeração de livros não lidos, filmes não vistos, conhecimentos não adquiridos, projetos não realizados.
  Tudo é uma maneira muito ampla de sugerir que há fatores de risco sendo engessados dentro de mim. Tudo é a mescla do que sinto com o que uma parte de mim me proíbe de sentir. O tudo tem a ver com as fotos que não revelei, as cartas que não escrevi, uma “to do list” cheia dos “incompletos” marcados.
  O tudo é a maneira mais excruciante de existir. É viver em queda livre. Num abismo sentimental. O tempo todo. O tempo todo. 
 Tudo pode ser um composto de desejo e frustração, de responsabilidades e músculos doloridos, de noites mal dormidas, falta de dinheiro, perda de tempo, quadros amoldurados.
   São as reflexões que não quero fazer, mas continuo fazendo, de qualquer forma...
  O tudo é um mundo inteiro, um universo completo, uma galáxia paralela, um planeta peculiar e singular, exterior, inóspito, hostil, insensível, impiedoso, rude, fugaz, efêmero, desconcertante.
  É uma mente pensante e inconveniente, pouco preocupada com as angústias que causa. É o despejar e cuspir de palavras em desconexão aparente, mas de necessidade palpável, de sensibilidade inesgotável, de um sofrimento que não devia ser permitido sentir.
  Tudo é uma história complexa, vertentes e ruelas e curvas sinuosas no caminho de um amor que, no fim, nem sequer tem fim. O tudo é aquilo que acaba sem que os findemos dentro de nós. É a mente procurando por justificativas que não existem, propósitos não sabidos, respostas que não quer e o tempo que gasta pensando em motivos pra parar de pensar.
  O tudo é uma anexação infinita de qualquer coisa inoportuna que estiver existindo por aí.
  Mas não são palavras.
  É, eu sei. Tudo bem, tá bom. No fim, era verdade.
  Não não, o tudo é uma imensidão, blábláblá, mas não: nem tudo são palavras. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário