quinta-feira, 14 de julho de 2016

Teorizando o lixo emocional

  Desguarnecida, em um tédio devorador, foi então que a escuridão do quarto me pareceu alguma coisa, no meio do silêncio da noite, enquanto as paredes ruíam e todos ao meu redor descansavam tranquilos...
  Me dispus a pensar sobre o lixo emocional.
  Digo, lixo.
  Emocional.
 Afinal de contas, o que é que a gente faz daquilo que nos sobra - sentimentalmente falando? Como lidar com o remanescente sentimental que não nos serve mais sob a ótica da razão, ou mesmo sob as condições impostas pelas circunstâncias?
  Em que raios de conjuntura a gente encaixa um amor já não nos cabe, uma saudade inconveniente ou o rancor que já não é o que realmente queremos sentir por alguém que nos feriu o ego?
  Eu digo, o que é que a gente faz com sentimentos que já não queremos? A gente coloca no lixo? A gente soterra ao fundo e por trás daquela cicatriz mais profunda que nos preenche a alma? Ou a gente deveria... reciclar?
  Pelo amor de Deus, alguém vem aqui e me diz, aonde é que eu despejo minhas angústias sobre passados imutáveis? Meus medos sobre futuros que não posso prever? Onde é o aterro em que posso afundar, para sempre, mágoas que meu coração já consagrou sem perdão?
  Me diz o que fazer com essa impertinência... com esse meu coração que é o próprio país do inoportuno despropósito... eu, abrigando lixo.
  ...
   Abri o armário.
  Minha mãe dissera “ajeita tuas coisas, arruma teu quarto, guarda todos aqueles papeis jogados, reinventa um jeito de caber tudo que é teu no guarda roupa”.
   E eu fui. Porque era inocente.
  Olhei calmamente para cada bijuteria fora das caixas. Fitei os brincos sem atarraxa. Coloquei na bolsa de maquiagem os batons soltos na segunda prateleira. Dobrei os vestidos, as meias... mudei a posição dos perfumes, dos hidratantes, dos pentes... Olhei para a escrivaninha...
  Estava tudo ali, eu pensei. Os lápis, as canetas, os livros, os blocos de anotações, os papéis soltos... ah, os papeis soltos... tanto já me amaldiçoei por não conseguir manter um padrão... já fizera o mesmo inúmeras vezes: comprei quase trinta cadernetas diferentes, esperando que, multiplicando-as, teria alguma à mão sempre que alguma ideia aleatória me viesse à mente; anotaria nelas, eu decidi. Anotaria as ideias numa caderneta. En-ca-der-na-dos. Meus rabiscos, todos juntos... e eis que cadernetas e mais cadernetas se acumularam na gaveta quase tão inevitavelmente quanto todos os papeis rabiscados do lado de fora. Nunca tive paciência para abrir o livrete e fazer meu desespero verbal caber nas páginas pequenas que me encaravam pedindo organização e cuidado... eu rabiscava era tudo que aparecesse na cabeça no primeiro papel que eu visse. Cada um deles, todos traçados, nunca pelas canetas coloridas que comprara para fazê-lo. Sempre com algum lápis mais barato que também encontrara primeiro...
  Eu os olhei.
  Cada um dos incontáveis papeis que me encaravam despretensiosamente na escrivaninha.
  Juraria que holofotes acenderam... Estava eu ali, vendo meus gritos incrustrados assimetricamente nas palavras em que não cabiam, em que nunca caberiam, tentando ser escape... Eu estava assistindo uma grande peça...
  Meu lixo emocional. Meu lixo emocional inteiro.
  Folhas amassadas, rasuradas, vez ou outra datadas, e sempre com uma sobrecarga muito maior do que se pode supor.
  - Tira todos aqueles papeis da escrivaninha – mamãe berrava lá no fundo.
  E eu os levaria para onde?
  Aonde caberiam tantos gritos? – ponderei.
  As paredes do meu quarto já conversavam entre si sobre os absurdos trabalhosamente triturados por mim, através da tinta da caneta, horas a fio diante dos rascunhos...
  Tiro-os dali e ponho aonde?
  Como se retira o sentimento de alma sentimentadora, oras?
 Como ficam os amores, os medos, as poesias, as inspirações, os desapegos, as descobertas, os desejos, os sonhos, os instantes irregistráveis ali registrados se eu os guardasse, eu queria saber...
  A gente tem mania de achar que pensamentos são aproveitáveis. “Se a cabeça não pensa, o corpo é que paga”. E o quando a alma é que sente, a gente fica devendo quanto? E quem paga o quê?
  Eu deixava pra pensar enquanto estudava. Não foi menor o número de horas que passara ao lado dos mesmos papeis resumindo teorias da linguística, eu lembrei... já aquilo que se costuma ponderar sobre o amor, sobre o sonhar, sobre o querer... aquilo não cabia no pensar. Eu não podia organizar, mãe. Eu não podia.
  Olhei de novo para o guarda-roupas... tudo tão arrumadinho!
  Pelo espelho, encarei o mural todo ajeitado. Ali sim, minhas ideias. Meta de leitura, frase inspiracional, calendário de provas... objetivos, deveres, pensamentos, pensamentos, pensamentos...
  Então olhei para os papeis da escrivaninha...  
  Eu não posso jogar fora, mãe. Era a minha mania de guardar lixo.

2 comentários:

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    1. AI VC MERECE UM DAQUELES NOSSOS ABRAÇOS!!!!!!! TE AMO TAMBÉMMMM!!!!

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