quarta-feira, 27 de julho de 2016

Ói o trem...


  Uma vez ou outra , no meio da madrugada eu escuto a buzina de um trem fazer tremer os vidros das janelas do meu quarto. Ando tão assombrada... deve ser de imaginar que enquanto o motor do mesmo trem é esquentado e segue continuando a por o bendito em movimento, ele azucrina, quase cantando a vida que vai sendo vivida enquanto não estou lá.
 É meio ensurdecedor, sabe? Esse barulho que o trem faz, tenho pra mim que xingando quem caminha sobre os trilhos enquanto sabe que ele vem – sujeitinho egocentrista esse – e rindo da cara de quem porventura estivesse dormindo, como suponho que eu deveria estar... O anúncio da vida que acontece em outro lugar e que passou por mim com seu farfalhar de fumaças e trilhos e buzinas e lenhas, com carga ou sem, - talvez indo busca-la - estendendo-se sobre a minha vida com seus inúmeros vagões, mesmo que somente para depois continuar seguindo, a medida que ainda não muito bem me dei conta da sua chegada, e pra gente seguir vivendo de um jeito ou de outro aqui no mesmo lugar, lembrando que o trem é bem como gente que passa pela vida da gente, mas não faz muita questão de lembrar da cidade que cedeu os trilhos para suas rodas sempre muito bem articuladas ao rodar, deve ser...
  Dolorida eu penso que bem agora enquanto encaro metáforas e analogias se escrevendo por si só, tão pertencentes a mim e à sua existência quanto ao próprio mundo de que se valem para existir, algum outro alguém está vendo outra coisa que não é o que vejo, e que eu nem imagino o que é, mas que em qualquer hora dessas talvez eu fique sabendo parte do que era (não é assim que a  gente faz? “como foi sua noite, meu bem querer?” “pois eu descobri analogias de vida e tortura emocional entre teorias linguísticas fundamentais, mas muito provavelmente enquanto o senhor se dispunha a dormir, sem ouvir nenhum trem buzinando, eu posso supor”) e então numa outra hora talvez eu também me sinta capaz de julgar, e dizer que está tudo errado, e como vocês podem pensar em dormir quando o mundo inteiro está acordado bem diante do meu nariz, e enquanto a verdade se escreve letra por letra em palavras que eu nem reconheço nessa minha mente curiosa?!... e não é isso que o ser humano faz? Cuspir o que acha onde não sabe se cabe, só por supor e supor e supor...
  Eu não sei não... sigo pensando que bem agora têm maquinistas de trem trabalhando, tem gente zanzando, tem eu aqui escrevendo veleidades, e mais e mais e mais... a vida não é igual pra todo mundo, eu noto. Cada um vai vivendo de um jeito e tem o seu próprio mapa mundi atrás da escrivaninha... cada caneta que vejo é uma cor diferente que uso para riscar da cabeça as lembranças do jeito que a vida foi para mim e que queria esquecer...
  Pois vai sendo assim... segue o trem... tremem-se vidros de janelas... segue a vida vivendo... e eu não sei. 

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