quinta-feira, 21 de julho de 2016

Hermetismo poético

  
   Sempre perco as poesias que não tive como escrever, justamente pela hostilidade do momento em que floresceram na minha mente. Guardei-as como pude, internalizei, esqueci... mas devo ter sonhado. A gente sempre sonha. Aqueles sonhos incompreensíveis, ou sonhos que queremos acreditar que assim o são, às vezes porque revelam os encontros das nossas almas com outras almas, encontro dos nossos pensamentos com donos de outros pensamentos, mesmo a tantos e tantos metros de distância... é tudo poesia, sabe? E é isso que me consola.
Imaginar escrever um livro, é poesia. Essa coisa de escolher a música pelo sentimento. A dor ou o prazer que nasce quando a gente se imagina sendo a pintura que o outro fita, o desconcerto que certos momentos vêm trazer, é tudo poesia. As perguntas sem resposta, quando a gente imagina como seria o mundo se ele não fosse como é, quando a gente olha pra uma estrada e se admira porque ela nos leva aonde diz que levaria, e porque um conjunto de homens foi capaz de fazê-la capaz disso, entende? Herméticas são as não-respostas, mesmo quando sabemos que várias delas moram no silêncio, eu fico me perguntando o que é que vem desse silêncio incompreensível. Além da tortura, eu digo. Esse silêncio que machuca, que parece espinho, que cutuca as entranhas, que quer que eu dê as respostas. São devaneios, meu bem. São sempre devaneios. É aquela sala-biblioteca de tapete fofo e paredes aconchegantes, por segurarem livros, eu digo. É o mapa mundi que encaro na parede atrás da escrivaninha, são as viagens que nunca vou fazer. A poesia se escreve, se envereda, serpenteia. Vai sendo o que é, como pode ser, e nem sempre a gente percebe. Mas eu percebo. Eu sempre percebo. Ela acende luzes e alarmes dentro de mim, faz doer na cabeça a consciência do que não foi dito por medo de parecer idiota, quando eu quis ignorar a poesia que há em dizer o que imaginei dizer enquanto não dormia, porque me esqueci que finalmente falar diálogos imaginados também é poesia, tá me entendendo? Livrar-me, depois de tanto, do peso de não poder escrever o que senti quando as palavras pularam de dentro de mim para a realidade a que pertenciam... é que eu penso muito. E peço muita licença. (à razão, devo dizer, à juíza que sou, segurando o bastão da moral, martelando deveres e não deveres...) para onde que vai o divagar todo? Não sei, não sei... A gente ajoelha no milho do remorso quando percebe que a jarra rachou, me entende? Quando enxergamos que não há mais o que fazer, porque vidro rachado é vidro rachado, mesmo que você colar, ele jamais será o mesmo. Faço questão de esquecer da poesia de comprar um jarro novo... me apego aos estilhaços e cacos. Me sento no chão, olho ao redor... é como um quebra cabeças, vê? Um quebra cabeças imenso das cenas que em teoria lógica não se encaixam, mas que fazem parte do todo que sou eu. Eu me sento no meio, olho para todos os lados do chão. Nunca fui boa com quebra cabeças... sinto que nunca vou ser. E ainda tem isso... tem os segundos em que me entrego às certezas traiçoeiras daquilo que não vai funcionar... alguém me salva! Me salva por favor... de toda essa epifania... saber de mais faz doer de mais, e saber que eu sei mas não querer ver faz pesar mais ainda! É da poesia que eu vivo. É do medo de perder a paixão. É do estraçalhar de corações que a inspiração vem.  Mas do meu não, por favor não... o poeta é dolorido, eu bem sei. Foram-se Floberlas, Clarices, Pessoas, Carlos... mas meu coração ainda dói. No medo de não ser o que eles foram, porque há tanta poesia! Poesia que o mundo não enxerga, poesia que Deus me deu a missão de mostrar... 

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