segunda-feira, 27 de junho de 2016

O amor tem a cor mais quente


 Jeans rasgados são metáforas que a gente usa pra ilustrar os desastres na alma. Foi o que eu pensei quando encontrei Lauren dentro da sua calça destroyed e sua cara de tédio, mas é claro que não compartilhei a teoria. Parecer maluca é algo que meu cabelo faz por mim involuntariamente, deixei pra depois os rastros com a certeza. 
  Seu olhar foi gentil mesmo que todo o restante não fosse. Seu  nome e sua turma me entregaram o alívio: ela também escolhera jornalismo. Pelo menos a insatisfação nos levaria à pobreza juntas. Ou eu deveria ter dito paixão? 
  O fato é que o começo da história não cobre nem mesmo a ponta do iceberg. Eu ainda não sabia, mas era o próprio Titanic, navegando rumo à colisão. A cumplicidade, simpatia, empatia e todo o mais que viria depois não podia ser previsto e nem mesmo imaginado. Lau era a amiga que encontrei para ser o presente que outrora a vida me roubou. Para que eu pudesse crer que a amizade existe, que sobrevive e acontece também nas diferenças. Que a amizade existe e sobrevive sobretudo nas diferenças.
  Eu via nela algo de familiar, embora ela fosse toda ela mesma, singular e incomparavelmente. A empatia gritante foi Deus abençoando o recomeço que eu precisava para voltar para a vida e ser inteira. 
  Com o tempo, fui confirmando suspeitas que a aparência entregava. Os rasgos no jeans denunciaram certo: Lau já sofria os efeitos colaterais de viver no mundo em que vivemos. 
  Nossa aproximação foi inevitável, embora eu devesse ter previsto que o amor sempre é. A gente conversava sobre a vida, as músicas, as cores, a dor e a delícia de ser quem se é. 
  Foi assim que confirmei as teorias que o tempo ia minhocando na minha cabeça. Entre mortos e feridos, salvaram-se todos: embora ela tenha feito de novo a expressão dolorida do jeans rasgado, disse do que tinha medo, pra se fazer ouvir por aquilo que nem mesmo ela queria escutar:
  - Eu gosto de meninas, ela disse. 
   Obviamente depois de atenuar os fatos como se fosse possível ser feliz vivendo em eufemismo. 
  - Os meninos daqui são estranhos e feios - comentei entre um ou dois biscoitos de chocolate.
  - Você devia reparar nas meninas - ela respondeu. 
  Engasguei. 
  Rimos. 
  O ser humano tem uma mania idiota de negar as realidades que os nossos preconceitos condenam. 
  Ela não queria contar, eu descobri depois. Não queria ser a ex amiga que eu afastei por medo de virar a "crush". Não queria ser julgada, desprezada, preconceitualizada. E esse medo nos olhos dela me doeram mais que a minha vida inteira carregando uma droga de uma opinião convencionada que nem era minha. Esse era um bom motivo pra sentir medo e vergonha. Os dela não. 
  Algumas semanas depois eu não resisti a assistir Azul É A Cor Mais Quente. Estava por fora do peso da história e a profundidade no tema, mas em algum momento Emma e seu cabelo azul passaram a morar dentro de mim quase tão espontaneamente quanto Lauren e sua auto estima gritante.
  Emma e Adèle eram tão únicas no modo de serem uma só que em certa altura eu já nem me lembrava o que significa "protagonista", e logo também me esqueci o que cargas d'água deveria ser uma relação considerada "normal", assim intitulada por mim e meu preconceito, além de todos os argumentos morais que eu deixei que fizessem parte de mim.
  O mais bizarro do filme se provou não o que eu achei que seria: o grau de absurdidade em uma relação anormal pros padrões morais da sociedade que habito, mas a maneira como fiquei indignada com o final que as desuniu.
  Lauren me avisara:
  - Gente que nem você não vê esse tipo de filme. Gente como eu vê esse tipo de filme.
  Pelo menos eu não era a única idiota na história. E graças a Deus pela minha mente recém descoberta como subversiva, porque foi assim que enxerguei o amor antes do preconceito. E foi assim que eu subi mais um degrau na escada para aquilo que quero ser quando crescer.
  Todas as percepções e pensamentos, no entanto, se mantiveram na órbita do próprio pensamento, porque tudo o que eu sabia era que já amava demais a moça dos jeans rasgados para sequer pensar em emitir julgamentos que não me eram de direito. Mas o tempo tinha guardado, pra nós duas, mais surpresas do que mais uma vez, eu era capaz de supor.
  De antissocial que sou, passei a entrosada graças à mesma simpatia de Lauren. Em três semanas ela conversava com a faculdade inteira, e ia-me carregando junto pro mundo novo que desbravava.
  Não muito tempo depois disso, éramos amigas de Melissa. E ela parecia alguma coisa que eu não sabia o que era; a princípio, uma interrogação. Andava sempre de calças jeans e botas de cano curto. Os cabelos lisos e pretos caíam pelas costas, e tinha sempre um meme novo que nos fizesse rir...
  Eu olhava para ela como quem a investiga, sem saber de verdade o que pensar. Sentia que éramos super diferentes, um contraste em conhecimento e desconhecimento sobre a cultura pop. Um perfeito desastre em puxar assunto.
  A questão, no entanto, é que ela foi outro invólucro que desembrulhei com a ajuda do tempo: era a doçura e alegria, era a meninice que eu também tinha, mas refletida nos olhos daquela que escolhi primeiro. E eu que sempre aderi o conhecimento dos livros, estava descobrindo uma nova forma de aprender, sobretudo com os olhos, e contra todos os pressupostos da minha moral.
  As noites na faculdade passaram a ser brindadas com a relação afetuosa das duas. Eu demorei a entender o que de fato acontecia, mas era boa em reconhecer a expressão "destroyed", que acabou sendo a mesma que Lauren usou quando me veio dizer o que, no fundo, é claro que eu já sabia:
  - Acho que estou a fim da Melissa.
  Qualquer que fosse a reação dos meus pensamentos, o que eu mais achava engraçado sobre mim mesma é que o primeiro era sempre um só: desejar que elas fossem felizes. Mas como toda relação, tudo se desdobrava entre a alegria e o conflito. Os dias de alegria delas eram os meus também. Mas quando o conflito chegava, ele abalava a todos nós.
  Sobretudo num dia de festa, eu vi o amor habitando cada mini espaço com que os átomos preenchem todos os lugares. Qualquer coisa inquietante dentro de Melissa a fizera beber mais do que deveria, e em algum momento no seu além de todas as doses que deveria ter evitado, ela já não era mais ela, mas apenas um corpo amorfo, vagando entre o sono e a completa inconsciência.
  Foi a última vez que vi o olhar desolado da menina dos jeans rasgados. Ela era toda angústia. Era tremedeira e náusea. Era inquietação e medo. Ela era aquele amor inteiro traduzido numa completa ausência de ar nos pulmões. Era a primeira vez que eu via em muito tempo a própria metáfora do amor. Era a minha angústia a manter minhas mãos atadas. Éramos de novo nós duas, desbravando mares não desbravados.
  Ela, porque amava. E porque percebia que amava. E eu também, porque encontrei o amor aonde não achei que iria.
  - Eu odeio a Melissa - repetia. Queria mesmo era acreditar no que falava.
  - Isso aí não é ódio não - eu respondi quando ela parou para voltar a vomitar - mas se aquieta pelo amor de Deus.
  Elas foram embora tão logo a crise de ansiedade de Lauren passou.
  O que ficara, porém, foi o suficiente: meu próprio coração batendo fora do peito em preocupação e a velha empatia. Eu sentindo por elas o que elas sofriam por sentir. Eu querendo resolver os problemas do mundo.
  O suficiente pra perceber que o amor não tem formato, não tem tamanho, e mais que absurdo, que era cruel e desumano renegá-lo porque não cabia no meu preconceito.
  O suficiente para que eu descobrisse mais do que tinha feito até aqui: que é preciso olhar para os seres humanos pelo o que eles são, antes de olhar como o que queríamos que eles fossem. 

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