sexta-feira, 24 de junho de 2016

Mini ensaio sobre a solidão escrito pelo cansaço


  Começa a escrever uma história nova porque a vida real é sempre tão cansativa! E se enjoa do que já havia escrito, sem conseguir terminá-los... e sente a cólera do que quer escrever sem saber, naufraga em todas as palavras borbulhantes que não encontraram seu caminho, e segue esperando que encontre um final para o que ainda não sabe bem como começou, ou o que escreve sem saber onde quer chegar.
  A dor de viver na certeza da rotina, descontinuando a inspiração utópica dos livros, a saudade do que lia embalada no balanço da rede, entre os raios mornos do sol de outono, entre o ar puro do quintal da frente, na casa da rua de paralelepípedos, sendo o que pode ser, muito menos do que precisa, muito mais do que tem ânimo...
  Segue ouvindo as mesmas músicas, nauseando-se sob o manto das melodias de sempre que já não cobrem os sentimentos novos, envolvida no seu próprio mundo de pensamentos que não se encaixam no que já existe, paralelizando mundos e universos dela mesma, no ostracismo que é viver longe da realidade, na sua própria mente, nos seus próprios sonhos, no seu próprio imaginar-sem-saber...
  Vai indo, e ela vai, e lembra do dia em que deitou na grama para não fazer outra coisa, e pôs seus óculos surrados de sol, e olhou para o azul do céu pensando como seria chegar lá em cima sem que fosse preciso morrer, e quis andar de balão, pra flutuar além dos devaneios, pra tentar tocar o azul, que além de tudo, era a cor que menos gostava...
  Instantes depois estava posta num carro, como se fosse um cachorro, o rosto exposto ao vento, como se a brisa que vinha ao encontro da pele pudessem levar embora as angústias da alma tanto quanto se ressecavam os olhos, que queriam chorar, embora preferisse acreditar que aquele mesmo choro que não foi vivido estivesse sendo levado pelo mesmo vento, ao longe e ao sul, para onde as geleiras o congelariam, para sempre.
  O para sempre.
  Para cada estrela, contava um não-durar. Mesmo que brilhassem a infinitos de distância, o brilho das estrelas não duravam para sempre e ela sabia, tão agridocemente quanto os abraços de que sentia falta, que era tão longa também a lista daquilo que se oporia ao sempre, num infinito, em revés.
  Já não fazia sentido.
 Aquilo que não vivia. As coisas que não via. O que não podia sentir com as mãos. O que sua realidade amarga não lhe podia dar.
  A solidão vinha doce, e esbarrava na parede de gelo em que se isolavam seus sonhos. Imaturos, mas sinceros, eram ainda seus pensamentos. Caminhavam... Ah, caminhavam... Para muito além do que essas palavras me permitem escrever.
  A moça era doce. Eram doces seus sonhos. Eram doces seus nãos. Eram doces seus sofrimentos. Era doce no tão. E vivia em "tão", de intensa que era. E sentia, e sentia, e sentia...

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