quarta-feira, 11 de maio de 2016

Meu mundo caiu

 Caro leitor admirador deste meu cérebro traiçoeiro, este é mais um daqueles textos que fiz em homenagem a você que tem apreço pelas ideias que não podem ser perdidas simplesmente porque surgiram num instante do tipo o ônibus está chegando no ponto não dá pra pegar o celular ou to quase pegando no sono não é hora de ligar o notebook, e, portanto, está sendo escrito às tantas da madrugada, inclusive porque além de tudo de qualquer coisa, uma leitora admiradora dessas ideias mui lindas e produtivamente sádicas sou eu mesma, e jamais me perdoaria pelas ideias desprezadas em razão dos momentos inoportunos em que surgiram.
  É assim que começo o tema mais inoportuno do momento, porque ele tem a ver com a minha “desvontade” de admitir coisas que é necessário admitir, e vocês precisam saber que admitir coisas que não queremos admitir é uma missão de gente grande, coisa que eu também não quero ser, e aí então nos afogamos no caos em que a presente locutora se encontra.
  Adoro introduções longas, então também devo dizer que odeio o fato de o meu irmão nunca entender as coisas. Quando digo que ele não entende as coisas não estou falando de situações que exigem um cérebro mais evoluído, coisa que ele comprovadamente não é capaz de ter; eu to falando da simples expressão “estou estudando, não dá pra conversar”, ou do ainda mais simples “pera aí” e já que a gente quer exemplificar com simplicidade, o clássico “entendi” também não lhe é bastante.
  Por todas estas questões eu afirmo-vos: odeio a imaturidade. Odeio o fato de estar estudando não fazer meu irmão entender que pessoas que estão estudando não podem conversar nem assistir vídeos porque, tchantchantchan... estão estudando. Podemos assim concluir que então eu gosto da maturidade, mas isso implicaria dizer que eu gosto da consciência de dever que ela me traz, e do absurdo grau de “adulteridade” com que ela me presenteia e pressiona e então, não, caríssimos leitores, lamento surpreender-vos, eu não gosto da maturidade.
    Eu a detesto.
    Com todas as minhas forças.
   Quanto mais maduros, mais claras algumas coisas ficam. Por exemplo, quando era bem pequena e não queria dormir porque meus amigos imaginários estavam do lado de fora da casa, estava frio, e minha mãe não queria fazer uma cama pra eles no meu quarto, e no dia seguinte eu acordava cansada por causa do drama na noite anterior e acabava não indo na aula, era muito compreensível. Mas quando você cresce e deixa de fazer um trabalho, seja porque estava fazendo outro trabalho, seja porque estava cansado, seja porque não quis, as consequências vêm sobre você, compreendam as outras pessoas ou não. E quanto mais maduro a gente é, mais a gente percebe o quanto a responsabilidade de fazer ou não fazer, bem como as consequências decorrentes dessa escolha é nossa, ficamos cientes então do quanto saber disso tudo pesa. Um peso ainda maior do que ter que parar de estudar pra explicar pro seu irmão que não dá pra ver o vídeo naquele momento.
  É por isso que um ou outro por aí se recusa a crescer, e faz questão de agir irresponsavelmente porque, afinal de contas, a “adulteridade” não pede licença, oras! Ela vai chegando de mansinho, e quando a gente vê, é trabalho, é prova, é artigo, é blog, é meta de leitura, é dia de tirar o pó, é dia de arrumar a estante, é dia de lavar o quintal, e quando foi mesmo que a gente pediu isso tudo?????
  No fim, a gente cresce sem perceber que está crescendo. E quando finalmente somos adultos, isso pesa, porque a sensatez dói. Porque ela nos traz o medo de não ser capaz de sermos aquele adulto responsável e bem sucedido que admirávamos até ontem mesmo, quando nos sentíamos menos adultos, no vagão daqueles que estão um patamar abaixo, voltado mesmo só pra admiração. Porque ela traz o medo de sermos aquele adulto responsável que a gente nem queria ser quando o coração falava mais alto quando pensávamos sobre o futuro.
   No fim, o nosso medo é que estejamos nos tornando algo que não queremos. É que estejamos nos tornando algo que queremos. É que a gente queira mais do que somos capazes de fazer, e por querer tanto abraçar o mundo, a gente se deixe levar pelo mesmo medo de não conseguir, pela própria sensatez de saber que não se pode abraçar o mundo, pela mesma maturidade que nos diz que sonhos, em muito, são só sonhos.
  Sim, amigos, meu mundo caiu.
  E meus olhos também.
  É tempo de guardar os devaneios e voltar a dormir, na esperança de que, amanhã, toda essa maturidade seja mentira. Que o mundo real seja uma mentira. Que a “adulteridade” seja uma mentira.
   E os meus medos também. 

5 comentários:

  1. O texto é muito maravilhoso e a foto é ótima também haah

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  2. Parabéns Gabi!
    Texto Sensacional

    Ronaldo Castro

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  3. Kkkkkkk amei...
    Tenho 32 e odeio a maturidade...

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