quarta-feira, 27 de abril de 2016

Espelho

   
 (...) minha alma acorrentada na ansiedade, ao ter milhões de palavras querendo sair sem encontrar um caminho. Atropelo-me nessa imensidão e me deixo voar pelo espaço dos pensamentos, que brotam tão docemente... E continuo a tentar escrever do mesmo jeito, mesmo quando a vida continua insalubre, descontinuada e só.
     Eu me sentei num banco de rodoviária para me dispor a esperar também meu caminho para casa. E desejei ir embora quando encontrei os espelhos da miséria traduzidos na essência do que sou, mesmo sem querer ser.
    Um homem cambaleante, de roupas rasgadas, a pele encardida, que trôpego sarandava pelo hall (como se estivesse procurando alguma coisa que não sabe o que é); e fala sozinho consigo mesmo aquele caos arrastado que é a dor de sentir e não ser compreendido e esperar que alguém possa somente saber que o falar já lhe basta, porque expulsa o que sente, mesmo que tão somente para si, tão puramente em vão. Se não era também o que eu mesma fazia, as aulas de interpretação de texto também foram vãs.
    Lembrei então da moça embriagada e arrastada, que também encontrei alguns dias antes, entre o vão da realidade e do sonho, num desses murmúrios do inconsciente a me revelar, pela consciência distorcida, aquilo que tenho medo de admitir que sei.
    Ela vinha quase que ao mesmo modo, murmurando consigo mesma, sobre aquilo que lhe doía e que ninguém seria capaz de entender.
    Encontro-me na incompreensão do que vejo e  me afogo nesse mar.
    A moça desceu, assim, olhando para baixo esperando que ninguém percebesse que olhava só para si. O queixo colado ao peito, as mãos rentes ao corpo, colocava um pé depois o outro, nem sempre conseguia, é verdade, mas nem sequer parava para respirar. Carregava consigo, a olhos vistos, o peso da cruz. Curvada e sozinha, seguia a ladeira como que na sua via sacra, a caminho da redenção.
 - Não, eu não sou assim - repetia.
    Como que embalando sua própria criança a chorar.
    Foi assim que acordei.
   E seguindo, ia emergindo pelos olhos aquela dor inteira. Um soluço contido, entrepartido, que ela parecia tentar controlar. As lágrimas desciam no ritmo da ladeira, o estalido do coração a crepitar...
Ela tropeçava, e destropeçava. Procurava em que se segurar...
    Vinha um que dizia:
- Ô, dona moça, por que é que bebe de ficar assim?!
- Pois não foi disso que eu ensandeci - ela ia vociferando. Rasgava o peito junto com o pé que ralava no asfalto enquanto o tropeçar ia indo... E eu quieta pensando de onde é que essa moça tira as palavras acertadas?
    E ralhava o outro:
- Olha que cai, e eu é que não seguro!
   E a moça inda ia. E discutia; mas não discutia. Parece que as vozes que falavam o faziam dentro da sua cabeça. E ela só respondia pra si mesma, mesmo que todo mundo pudesse escutar.
- Que é que cê ta falando? Eu já caí faz é ano!... E é você que não para de reclamar!
E eu seguia aguardando que estivesse brincando. E a qualquer momento fosse me explicar...
   Ela inda dizia onde é que doía e o que estava a esperar. Queria que fossem todos eles pro inferno, porque nem por menos lhe entenderiam. Ela falava é da vida, das sombras em que pisava, do escuro que a arrastava mais e mais para a miséria de ser boa e sentir o mal. Nem mesmo enquanto sorria aquela dor se apartava dela, que agora estava serena, mesmo que tivesse verdadeiramente chorado.
    Ela falava da vida. Daquilo que sentia e daquilo que passara toda a sua sobriedade a ignorar. Ela falava das mágoas, das tristezas e traumas, dos conflitos da alma, do que não sabia sarar.
Ela tropeçava, e tropeçava em si mesma, não era pela cerveja ou o que tivesse bebido. Ela era um espelho. Conflituoso, vermelho. Mas sem aquele doce anseio que é o vermelho do céu quando o sol se vai...
    Eu me via nela. E já era ela. E juntas, eu-ela: um só.
    Ela caiu foi de aflição. Eu entendi. Aquela mulher insana.
    Ela era as próprias dores.
    Ela era a incerteza de amores.
    O infinito de rancores.
    E que dor aquela mulher suportara!...
  Ela era o que eu seria se eu não a tivesse encontrado. Se não tivesse reparado quando (mesmo barulhenta) me acordou da tormenta que era a vida inda lenta de viver pra lembrar.

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