quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Xô anacronismo!

  A gente muda. 
  Pitty e o seu teto de vidro moraram na minha cabeça por muito tempo, enquanto ambos foram donos de uma maravilhosa trilha sonora de uma maravilhosa temporada de Malhação. Como é de se esperar, cantor que tem uma música boa leva a gente a procurar suas outras músicas, na esperança de que também sejam boas, e a Pitty, que nunca decepciona a galera no quesito qualidade, ganhou meu coração desde então.
 Logo em 2005, um ano depois de 'teto de vidro' ganhar as rádios e os corações pré e pós adolescentes através da novela, chegou às lojas o intitulado 'Anacrônico', novo álbum da nossa musa que trazia consigo a minha canção preferida pros momentos mais doloridos da vida - 'Na sua estante'. Eu, que muito pouco me ligava em lançamentos de álbuns bem como as análises das letras, só fui perceber a grandeza do título semana passada, quando estava estudando as 'bases da cultura ocidental'.
  Pra você que, como eu, não tá entendendo nada ainda, paciência. 
  Não faz muito tempo, passei uns dias na casa da minha vó, comendo pão doce com nescau e muito amargurada sobre a escassez de vida num ambiente hostil ao wifi. Fato que sentia que precisava entrar no skoob pra agenciar trocas literárias, comunicar-me com o mundo exterior através do twitter, matar as saudades da minha mãe via whats app... Pois bem. Quando criança, já passei muito tempo nessa mesma casa sem wifi. Eu desenhava, coloria desenhos já prontos, enrolava lençol pelo corpo desde já ditando a nova moda dos vestidos de festa e, obviamente, fazia tudo isso muito feliz sem nem mesmo pensar, por um só segundo, que precisava de internet. 
  Agora vejam vocês qual não foi a surpresa no coração desta cabocla quando percebeu o abismo que havia entre, segundo a técnica do arredondamento, 10 anos de vida! É bizarro que um dia eu tenha vivido tanto tempo dentro de um mesmo apartamento, tantas vezes sem um livro por perto, e não tenha sentido falta daquilo que hoje tanto me faz pensar em saudades (ou seria vício?). 
  A questão é que esse detalhe bobo me fez pensar no quanto a gente muda aquela mudança que vai além da adesão ao wifi. Me fez pensar que há 10 anos eu não era como sou apesar de ser a mesma. 
  Eu tenho um histórico muito sério e muito comprometido com minhas convicções e religião. Um histórico muito sério e comprometido com minha lealdade aos meus princípios, com o que acho certo e errado, com os discursos da minha mãe. Mas eu não sou a mesma que era há 10 anos do mesmo modo que não sou a mesma que era há 1 ano. Eu não sou a mesma Gabriela de 3 meses atrás!!!!!! Mas as pessoas insistem em me julgar hoje pelo o que já fui um dia. 
  A quem interessar possa, e a esta publicação certamente interessa, anacrônico é o ato de dar a uma época ou a um personagem características que são de outra época ou outro personagem. 
  A Pitty é sensacional porque ela já sabia disso quando eu tava vendo Malhação demais pra perceber. Ela chamou de anacrônica nossa incapacidade de perceber que as pessoas mudam, "bem como seu dia-a-dia mudou, mudaram os horários, hábitos, lugares, inclusive as pessoas ao redor (...)". O anacronismo tá bem aqui, palpável e sensível, pra você que espera que uma mesma pessoa aja do mesmo jeito pra sempre. Pra você que acha que uma pessoa abriga o mesmo comportamento e preocupações aos 13 e aos 18, aos 18 e aos 30, aos 30 e aos 50, e daí por diante. 
  Minha crítica ao anacronismo vai pra você que acha que ninguém pode mudar de opinião, de atitude, de vontade. Pra você que ainda acredita que as atitudes de qualquer um tem de ser convenientes com a moral e os bons costumes se conveniente também for a você e sua dor de cotovelo. 
  Desanacronizem-se. 
  Em nome da paz. E da minha paciência. 

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