terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A arte do encontro


Já escrevi contos baseados em releituras distorcidas de músicas. Já me inspirei com biografias. Já escrevi até mesmo sobre conversas entre pessoas bêbadas que testemunhei sóbria. Eu guardava uma música pro grande amor da minha vida.
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  Eu paro e respiro e já sei. 
  Sou aquele alguém que escreveu sempre com a alma de quem vive, mas sabe que vai morrer. E é essa a grande magia - ansiar tanto por sentir todas as coisas, e sentir tanto todas as coisas, que é necessário registrá-las, mesmo que desconexamente, antes que essa vida se esgote.
  Mas há ainda e sempre pensamentos que guardo comigo, que sinto pertinho de mim, que me são tão caros e íntimos quanto meus próprios sonhos. Eles guardam uma parte de mim, e talvez por isso sejam reservados ao ponto de passarem uma vida tentando ser expulsos de algum jeito que não sei (ou talvez não queira) expulsar e sempre retornam à minha mente, aos meus argumentos, aos meus sonhos de madrugada...
  Estive procurando variações e origem da palavra lar. Tenho essa palavra dentro de mim. Guardo ela comigo. Não como se guarda os livros da escola na mochila. Mas como se guarda um momento bom no baú das lembranças; como se guarda a palavra de cada momento que você já viveu.
  Depois do texto sobre as palavras eu pensei muito sobre escolher de fato uma palavra. Já disse que amo que bizarro seja a bola da vez mas a verdade é que minha alma tem um palavra também, e essa palavra é lar.
  Parece estranho e sem sentido, mas as coisas que a gente sente não precisam fazer sentido. Segundo o dicionário, "lar" não tem exatamente uma variação, ela vem de "lareira", porque antigamente era perto da lareira que as famílias se reuniam e então surgiu a ideia de que lar tem algo necessariamente a ver com família.
  A verdade, no entanto, é que ando cansada de rótulos. Por muito tempo me rotulei, rotulei pessoas e situações e me deixei ser rotulada também, e isso, mesmo que não de um jeito tão agradável, me ensinou muito sobre liberdade. Descobri que prefiro a liberdade aos rótulos.
  Foi entre este e aquele pensamento que retraduzi a palavra lar, e pensei nela de um jeito diferente dos que encontrei.
  Eu já encontrei meu lar num livro, num abraço, num olhar que durou mais do que olhares comuns durariam... Eu já encontrei meu lar quando redecorei meu quarto e sentei pela primeira vez na minha escrivaninha. Eu encontrei meu lar quando enchi a mesma escrivaninha de canetas coloridas e diários de todos os tamanhos e formatos e comecei a escrever neles parte dessas palavras que vivem em mim.
  Isso tudo, no entanto, nunca me fez pensar no que eu gloriosamente percebi hoje: meu lar é onde meu coração estiver.
  Antes de tudo e qualquer coisa, esta publicação é o clamor esperançoso e quase dolorido de alguém que encontrou verdadeiramente o seu lar depois de muito guerrear com si mesma, depois de muito fugir do que era e do que queria - e hoje eu me encontrei no jornalismo.
  É bizarro que a palavra bizarro venha a dar as caras nessa publicação também, mas eu bem que avisei qual era a palavra do momento, então vocês terão de aguentá-la enquanto essa fase durar. E o fato, outra vez, é que num dado instante, me encontrei na sala, lendo as frases escritas com um cinza sutil na divisória do meu caderno, fazendo questão de convencer a mim mesma que não estava ali. A questão bizarra é que no momento seguinte olhei pra barba grisalha do professor enquanto ele recitava a palavra "jornalista" com tanta naturalidade e maestria que eu me choquei (com o perdão da redundância) bizarramente com o encontro.
  Ainda que estando no segundo dia de quatro longos anos ainda apenas estudando para me formar em jornalista, como nunca antes na vida, eu soube que estava no lugar certo. 
  O professor falava sobre a coisa mais tosca do mundo quando eu percebi que, independente de qualquer coisa, eu estava ali porque a fuga acabou e tudo o que eu tinha era o caminho que vai me levar a escrever muito mais. E então eu vi, ardente como nenhuma pimenta do mundo. Surpresa tanto quanto é possível ficar. Meu coração. Derramado e desnudo. Vivo. Batendo. Saltando. Brilhante, como nenhuma luz brilharia. Jamais. 
  Logo eu, que criei resistência ao ponto de fugir de mim mesma. Logo eu, que preferi ler os indicadores de uma divisória de caderno à me deixar levar pelo lugar em que estava e o que ele pedia de mim. Logo eu que fugi até o último minuto, ao ponto de nem perceber mais que já tinha parado de fugir. Eu que já quis desistir umas sessenta milhões de vezes. Eu. Que estava ali tentando fugir outra vez.
  Eu sou o que eu sinto. Meu lar é onde as palavras moram. Eu que até bem pouco tempo estava procurando uma definição pra palavra lar, de repente encontrei. Como em epifania. Como se tivesse reprimindo minha alma há muitos anos e a tivesse finalmente libertado - o Jornalismo, eu bem sei. Ah, o Jornalismo. A escrita. Minha vocação é o meu lar. 

2 comentários:

  1. "A arte do encontro" ...encontrar-se, descobrir-se ... simplesmente fantástico o texto.
    Contudo, o que me chamou a atenção não foi o título, nem ao menos os versos iniciais, mas sim a conclusão, iniciada por uma frase filosófica, quase profética: "EU SOU O QUE EU SINTO".

    Sentir como a definição do ser. FANTÁSTICO!
    Não sei se foi essa a sua intenção quando escreveu o texto, mas em mim, essa foi a emoção causada.

    Adorei, simplesmente fantástico.

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    1. Foi exatamente essa a intenção. Minha felicidade é ter sido compreendida, hahaha. Obrigada pelo comentário! <3

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