segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Declaração de amor


      Clarice,
Eu vi sua entrevista há muito concedida e entendi que você não gosta que lhe olhem através do rótulo de escritora.
 A princípio, foi assim que te amei. Amei-te porque o livro de literatura disse que tu eras capaz de procurar e desvendar a própria identidade. Como eu queria ser capaz de encontrar a minha!

 No entanto, li-te pela primeira vez não por este motivo. Eu achava super legal você saber se desvendar e coisa e tal, mas quando ainda era uma menina não tão encantada pela literatura minha professora de português determinou que Laços de Família seria o livro da prova, e a experiência foi desastrosa.
 Desenvolvi um trauma, é verdade. Tive medo de que tivesse de esbarrar novamente com a sua esquizofrenia, como denominei na época, ou, bem mais contundente, a minha falta de maturidade para interpretação, e decidi que não queria mais saber de você.
 Curiosamente, porém, baixei seu livro em PDF quando a atual professora de redação compartilhou um link dizendo qualquer coisa sobre "livros que toda mulher deveria ler", e lá estava, em primeiro lugar, Perto do Coração Selvagem.
 Era um nome forte, definitivamente. Meu coração palpitou. É isto que vou fazer da vida, eu soube: ler e desvendar a mente esquizofrênica dessa mulher.
 Me apaixonei.
 Caí de quatro.
 Foi irremediável, vertiginoso, sem contorno.
 Incapaz de descrever eu mesma minhas impressões, busquei resenhas e análises e qualquer pessoa que me pudesse dizer o que aquela genialidade tinha operado nas respectivas vidas de quem conseguiu descrever o que eu não consegui.
 Qual não foi minha surpresa quando descobri que suas obras são, em muito, autobiográficas!
 Quase chorei, e falo sério.
 Jesus, tantos trechos sublinhados em identificação não foram vãos! Aquilo não podia ser somente ficção, eu me disse enquanto lia. E não era. E não é.
 Procurei ler outro livro, devorei como a uma barra de chocolates. Nervosamente, ansiosamente, sem conseguir parar. Substituindo a leitura, como a barra de chocolate, por comida substancial, por banho, por interação com o resto do mundo.
 Nem respirei após o último ponto e estava decidido: queria ler uma biografia capaz de me dar pelo menos duas ou três respostas sobre a personalidade que tão profunda e inexplicavelmente se desenrola e desvenda e se torna mais e mais misteriosa a cada lauda de cada livro.
 Clarice, sua biografia me humanizou.
Eu, que só queria entender porque eras uma escritora tão aclamada, finalmente entendi que o rótulo nada mais era que um convite.
 O rótulo.
 Ah, Clarice, por favor, peço que não se incomode tanto com o rótulo.
Você foi capaz de demonstrar que era o que era, e não o que dizem que você foi.
Amei-te, Clarice, com todo o meu coração, porque teu rótulo me encontrou. E depois, por privilégio, tive a chance de conhecer-te e amar-te pela mulher que fostes, pelo ser humano que és. Porque nunca vai deixar de ser.
 Seu rótulo de escritora, minha querida, minha amada Clarice, foi apenas o que me atraiu, graças a Deus, ao que estava dentro.
Por muito tempo admirei-te e quis escrever como você. Ainda quero. Como dizem por aí sobre o nirvana, eu sei, se eu pudesse evoluir ao ponto máximo de um escritor, encontraria você do meu lado.
 Mas eu sei também, com o coração bem mais leve, que somos tão parecidas, amada minha!
 Eu queria saber de que maneira chegastes ao ponto de escrever tão bonito e ainda assim "sem por enfeites". E eu encontrei.
 Num dia, estava muito triste e pus-me a ler a história da sua vida. Eu sei, há bem menos glamour que muita idealização sugere, e é justamente a verdade e humanidade que encontrei, embora não alegremente, em sua depressão, que eu me vi. Eu vi seus olhos brilhando como os meus diante da solidão de escrever. Eu vi seu coração derramado como o meu em cada exagero de sentimentos que tão comumente nos atingem. Clarice, eu vi nossa força tratada como fraqueza por quem não é capaz de nos compreender!
 Você não tentava escrever bonito. Você escrevia o que estava dentro, e isso, por si só, já é todo o enfeite que há.
 Então eu soube: eu sou como você, "Tudo me atinge - vejo demais, ouço demais, tudo exige demais de mim" (não foi assim que você disse?) e então entendi porque, hilariamente, eu já sabia que teu "nível de escrita" seria o meu nirvana: sua sensibilidade, nós duas sabemos, te ajudou a desvendar a si própria, a encontrar-se, a compreender-se, a desconstruir cada turbilhão de sentimentos e pô-los, um por um, num parágrafo harmônico. Eu, pobre de mim, não consigo decidir se sou Joana ou se sou Lídia, nem me arriscava pensar (até ler sua biografia) que podia ser as duas. Mas quando evoluir, eu bem sei, também hei de me encontrar.
 Hermética.
 Que ousadia! Que absurdo!
 Você, de todos os autores que já li, é quem mais se abriu e derramou-se em sua literatura. Estás transparente, límpida, estirada em teus escritos, e quem souber usar olhos dos coração, disso tenho certeza, lhe entenderá!
 Ah, Clarice, amada amada amada Clarice!
Se eu tiver uma filha, ela terá seu nome. Terá seus livros. E, rogo a Deus, o nosso dom.

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