quarta-feira, 1 de julho de 2015

Conto do reencontro

 Eu desci a rua correndo, o vento chicoteou meu rosto. Devia ter ouvido minha mãe, mas deixei a blusa de frio em casa. O desalinho dos paralelepípedos tomaram minha atenção e eu pensei no quanto eles simulavam minha vida tão exausta de retidão. 
 Lembrei de já ter dito a alguém que sempre quis emoção. Talvez tenha passado muito tempo com os livros e os confundi com a realidade. Romantizar. Costumava ser este o meu hobby. "Quero as faíscas", eu disse. E tenho certeza que o alguém riu. É possível que esse alguém fosse eu mesma. Nunca tive muitas pessoas com quem conversar de fato. Hoje eu sei que a minha sensatez me acorrenta à realidade, e já não ouço tanto o que os meus sonhos queriam. 
 A retidão. Sempre a retidão. A vida adulta prudente. Sem interferências, imprevisões. 
 Quando cheguei na esquina, já não sabia onde estava, passei o caminho me convencendo a parar de sonhar. Mas você já previa, eu devia saber. Estava escrito na sua testa, assim que o avistei. Foi sempre só uma questão de esbarrar olhares para que você soubesse. 
 Sorri sem querer. Esfreguei os olhos, procurando a certeza de que estava mesmo ali. Abri a porta da alma com o mesmo sorriso. Não que precisasse disso, você escancararia as portas do meu coração de qualquer jeito. Só precisava de tempo. 
  - Você está linda como sempre - e eu sorri. Ainda que você tivesse dito "fecharam todas as fábricas de chocolate do mundo" eu sorriria. 
  - Obrigada - gaguejei sem ter certeza de que havia conseguido dizer. 
 - Como foi de aniversário? 
 - Você ainda lembra? 
 - Bom, não mudou o dia, não é? 
 Mais risos. Se tremedeira fosse um mar fundo, eu me afogaria. 
 - Bom, como se pode ir. Você bem sabe que depois dos vinte e cinco já não se ganha festa surpresa ou presentes - E senti aquilo que fui aos quinze morrer em definitivo. De uma só vez. 
 - Ainda pensando em escrever livros? 
 - Resposta afirmativa se você considerar diários uma leitura em potencial. 
 - Certo - um sorriso torto. Covinhas. Ah, essas covinhas... - Acho que o amadurecimento muda mesmo os planos das pessoas. 
  - Acho que sim. 
  E houve entre nós o que de inédito eu nunca quis provar: o silêncio mais duro de todos que já presenciei. 
 - Essa é a sua casa? - arrisquei. 
 - Se quer saber se moro aqui agora, então sim. É o que deu pra pagar. 
 - Não parece uma casa grande o bastante para cinco filhos. 
 Um sorriso. Outra vez. Então eu ainda consigo tirar isso de você.
 - Quer entrar? 
 Eu queria. Mas a sensatez retornou ao meu corpo. Tive de usá-la. 
 - Acho que não. Preciso chegar a tempo do próximo trem. 
 Cenho franzido. O tempo não transformou isso também. 
 - Almoço em família? 
 - Aniversário de um sobrinho. 
 - Certo. 
 - Foi bom te ver - consegui dizer. O praxe da despedida contra o medo de falar demais. Guerra vencida, "adulteridade". Tente outra vez. 
 - Foi bom te ver também. Te cuida.
 Assenti. E me pus a caminhar. Uma perna, depois a outra. Uma de cada vez. 
 Olhei para trás. Já fui embora outras vezes. Já vi o mesmo projeto de sorriso triste. 
 Projeto de sorriso. 
 Como posso saber? Como ter certeza que é triste? Há quinze anos atrás eu conseguiria dizer. Eu acreditava que te lia pelos olhos. 
 A sensatez. 
 Não há fantasias. Somente há espaço para o que é real. 
 - Ainda penso em você - gritei. 
Um grito no vácuo. Mas as palavras não saíram. 
 - Eu ainda imagino como teria sido. Eu olho casais quase impossivelmente sintonizados como nós costumávamos ser e quero ter o que quase fomos. E o que pretendíamos ser. Eu volto a sonhar quando fantasio conversas nossas. Eu te esperei - E as palavras se esparramam pelo ar. Elas viram chuva, inundam a rua, fazem o céu estremecer. 
 - Eu fui ao museu do Louvre e fiquei dez minutos fitando a Monalisa esperando que quando voltasse a mim, você estivesse do lado, rindo da coincidência. Eu desejei que você estivesse lá e me chamasse pra tomar um vinho e falar das coisas que não pudemos dizer. 
 Ah, lágrimas... Tantas lágrimas... 
 - Eu continuei escrevendo o que sentia quando já não podia mais te dizer. 
 E queimam meu rosto, distorcem minha pele. Dói. Senhor, como dói. 
 Eu vi as palavras se transformarem num gigante. Eu as vi tomarem forma e sair de mim. De onde eu já não lembrava que estavam. Elas saíram daqui e caminharam ao seu encontro. Não queriam mais morar em mim, eu bem sei. Já não há espaço para elas. Elas caminharam, eu sei que caminharam. Elas fizeram chover. Elas caíram como a chuva em cima de nós dois. Mas não te encontraram. Ah não. 
 Minhas memórias não são minhas, constatei. Não posso fazer o que quiser com elas. 
 Não era bem você, afinal. Era só mais uma viagem atrativa pela janela do ônibus, um devaneio da alma vagueando pelo infinito. 
 Talvez as palavras ainda estejam aqui, então. Talvez o estremecer do céu seja por outro tipo de chuva. 
 A sensatez. 
 Sempre a sensatez. 

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