terça-feira, 14 de julho de 2015

Às vezes

  A minha alma tem vontade própria. Ela para de frente a situações do passado como se estivesse diante da vitrine de uma loja. Fita, recria, desmonta, opina, discute, remonta, desaprova, recrimina, às vezes berra um "MORRA!", e então continua andando até a próxima cena como se a vida fosse um shopping. Várias vitrines a perder de vista.
  Eu já tentei avisá-la que o comando é meu, não que ela escute. Já aconselhei: vê se para de se demorar tanto na mesma cena, olha que o trem passa e você perde o bilhete!. Mas ela não quer saber. Já não pensa e nem quer pensar que até no shopping a vitrine se transforma toda semana. Que o tempo se encarrega de trazer novas modas. Ela quer ficar vivendo o tema praia ignorando que o inverno já chegou. Não entende que as coisas mudam mesmo quando a gente não.
  E quer saber? Eu sou um pouco muito como ela. Eu deito para dormir e fico dissecando as memórias do que fiz de errado ou de certo. Quando a memória é feliz, rebobino para me convencer de que é verdade. Quando se trata de erros, fico na esperança de que a realidade se altere junto com o discurso ideal que encontrei tardiamente.       Essas divagações acabam sendo uma oração porque no fim, o fato é que eu fico me apegando a cada detalhe milimétrico dos vestígios que as memórias deixam, e imploro ao tempo que ele não leve o que não me sinto pronta para perder, mesmo sabendo que ele ignorou o meu pedido tantas vezes.
  Mudanças. É nisso que se resume o drama todo. As novas situações e e protagonistas e transeuntes e sentimentos que o tempo traz. Eu nunca gostei muito delas porque me fizeram entender Pessoa de um jeito amargo... "Sentir tudo de todas as maneiras / ter todas as opiniões / ser sincero contradizendo-se a cada minuto / desagradar a si próprio pela plena liberalidade de espírito(...)"...
  Muitas vezes cogitei impossível perdoá-las. Eu me recordo das amizades que perdi e do quanto estou mudada demais para recuperá-las; eu me lembro da consciência dura - e até cruel - que a maturidade me concedeu e do quanto isso é incontornável agora; eu penso nos sonhos que deixei de sonhar porque as circunstâncias os tornaram absurdos ou incompatíveis com a realidade...
  Mudanças. Elas me levam a crer que, às vezes, a vida é a sucessão de coisas que não planejamos; a sequência impiedosa da vivência daquilo que não estávamos prontos para viver; a continuidade infinita daquilo que não queríamos que acontecesse. E o mais irônico é que a gente acaba gostando disso. Às vezes.

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