segunda-feira, 8 de junho de 2015

Nada como antes, no castelo de Abrantes

Quando comecei a escrever o texto "Vários Macacos no Mesmo Galho" a ideia era falar das coisas que parecem de um jeito e são de outro. Como a ideia de que "é só estudar pra passar no vestibular". Mas eu sempre tenho tanta coisa na cabeça que, ao transcrevê-las, o texto tomou outro rumo. E eu até gostei do que ele se transformou.
Mas há, na vida, uma certa repetição de fatos que fazem com que a gente congele diante da mesma situação mais de uma vez. É como ficar doente: você esbarra num vírus uma vez, então seu corpo tenta reconhecer o corpo estranho e desenvolve anticorpos a ele. Quando o vírus te encontra de novo, você não fica mais doente. Seu organismo já sabe se defender.
Eu confesso que admiraria mais a biologia se esse processo funcionasse também no aspecto emocional. Se você se decepcionasse com alguém uma vez por determinado motivo, e outra pessoa ou essa mesma fizesse aquilo de novo, seu cérebro não ia sucumbir ao sofrimento da decepção outra vez. Seria sensacional.
Infelizmente, os anticorpos só agem na questão física e apenas privam a sua saúde de um flashback. Em se tratando de sentimentos, podemos até reconhecer a situação, podemos prever o mal que ela vai causar, mas nunca conseguimos evitar o caos. Eu nunca consigo.
Em suma, minha maneira de criar anticorpos psicológicos, digo, minha maneira de me defender dos traumas é escrever. Pensei que poderia conviver com o não desenvolvimento da minha ideia inicial pro texto dos Macacos, mas não posso, porque eu não lidei com ela o suficiente pra epifania chegar e os anticorpos surgirem. Não formei uma opinião. Não lutei contra ela. Só a guardei no cantinho. No fundo do armário.
Hoje me deparei com ela outra vez. Parei pra pensar no quão doloroso é constatar que o amor às vezes não é suficiente. Lembrei de quando tinha 12 anos e me apaixonei inutilmente pela primeira vez, sentei de frente a mim mesma e fitei excruciantemente a constatação de que não é como os filmes fazem parecer, de que há muito mais coisas entre a aparência e a realidade do que sonha nossa vã vontade de crer no contrário. Você pode amar muito alguém, mas esse amor não é suficiente pra fazer vocês ficarem juntos.
Eu costumava assistir Grey's Anatomy nessa época. Geralmente, ficava esperando as narrações reflexivas em cada final de episódio. Certo dia a Grey disse: "é possível que duas pessoas se amarem não seja o suficiente?", e eu pensei "não. Não é possível". Eu sentei comigo mesma e comecei a conversar... Lembro de me ouvir dizer "se o Dimitri existisse de verdade e não fosse apenas um personagem de livro, se ele gostasse de mim como gosta da Rose na saga, então eu teria paz. Porque a gente ficaria junto no fim, não importa quantas dificuldades pudessem aparecer no meio do caminho".
Minha inocência me cegou. Eu vi só o que eu queria ver. Eu acreditei que aquela história de "a arte imita a vida" fosse verdade. Acreditei que os escritores colocam nas histórias o que de improvável porém absolutamente possível aconteceria na vida real...
Algumas constatações doem. Elas pesam dentro de você. De vez em quando ser adulto é isto: ter maturidade suficiente para discernir o que era fantasia de criança e o que é a vida é de verdade.
Acho que não quero ser adulta. Quero que minhas fantasias, ainda que tolas, sejam reais. Quero crer de novo que o amor é só o que precisamos pra ficar ao lado de alguém. Quero me poupar de ser adulta e me sentir absolutamente infeliz ao perceber como a vida é de verdade. Acho que entendi porquê a ignorância é uma benção.