sábado, 7 de fevereiro de 2015

Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante

 Minha inspiração some. Ela deve ir pra Marte, não sei. Mas ela foge. E me deixa absolutamente desesperada por textos novos, sem muito sucesso para a resolução do caso. Mas acho que dessa vez ela estava especialmente decidida a reaparecer para um momento de ilustre brilhantina. E funcionou.
 Hoje, escrevendo no meu diário – sim, eu tenho um – me lembrei do amigo Charlie. O Charlie de As vantagens de Ser Invisível. Estava pensando no mercado escasso de pessoas raras, cuja competitividade não é nada comparada à raridade de existência das pessoas especificadas por mim como raras, e lembrei do Charlie. O Charlie que acreditou que a gente deve aceitar o amor que acha que merece. O Charlie que não acredita que é capaz de, por assim dizer, merecer uma dessas pessoas raras. Pobre Charlie.
 Já que eu não consigo fazer um texto sem usar referências a livros, que eu abuse delas então... Faz aproximadamente duas semanas desde que dediquei dois dias inteiros à Lola e o Garoto da Casa o Lado. Mas o que me faz trazer a moça Lola até aqui é muito mais do que uma crítica à sua história. É uma adesão ao seu modo de vida.
 Eu geralmente começo a avaliar um livro pelo nível de "legalzês" dos hábitos que caracterizam os personagens. E o grau da moça Lola era tão alto que me apaixonei por ela. Não no sentido carnal da coisa, mas no sentido idealizado da coisa. Quis ser que nem ela. Quis fazer minhas próprias roupas e cada dia vestir um figurino - sim, um figurino - diferente. Quis ter um fichário com ideias para roupas. Quis ter várias perucas e armações de óculos diferentes. Quis, além de toda e qualquer coisa, impor os meus padrões sobre os padrões impostos pela sociedade.
 Que libertador poder querer isso. Sentir isso. Ir buscar isso.
 Há algum tempo, que não é pouco, eu venho pensando sobre os meus padrões e os padrões que já me foram impostos antes mesmo de eu construir os meus. Muito me incomoda, principalmente por ser algo que não consigo mudar, o fato de que me preocupo razoavelmente com o que as pessoas pensariam de mim caso eu me encaixe no grupo fora do padrão, e isso me assusta.
 Mas acho que, sobre todas as coisas, o que me assusta de verdade é saber que nem todo mundo tenta lutar contra isso. As pessoas no Oriente Médio matam quem não acredita no que elas acreditam sem questionar, porque aceitam a verdade absoluta que desde sempre foi imposta sobre elas. Os brasileiros se contentam em reclamar no facebook contra a roubalheira e corrupção dentro da política vigente mas não fazem nada para, de fato, alterar o padrão; “todo político é corrupto, e quem não se corrompe, não pode ser político”. Eu, você e pelo menos mais 3 milhões de pessoas sabemos que devíamos passar menos tempo na internet, mas não passamos, porque “todo mundo fica”. A gente se acomoda.
 A Lola não.
 Ela não ligava se iam zoar o figurino novo dela. Ela não ligava se todas as meninas do baile de formatura teriam um vestido moderno e ela, um de Maria Antonieta. Ela não ligava se uma menina menor de idade “não deveria” namorar um cara de vinte e tantos. Ela não tinha vergonha de ser quem era, de se vestir como bem entendesse, de fazer o que ela queria.
 O Charlie se acomodava. Ele deixava que a sua vida fosse solitária e invisível. Ele não ia buscar nenhum tipo de reconhecimento ou amizade. Ele ia junto com o fluxo. Ele namorava sem querer, sem gostar, sem paixão. Sem soltar faísca.
 Eu quero mais do que as coisas que eu acho que mereço. Porque “eu sou do tamanho do que vejo, e não do tamanho da minha altura”. Porque eu me recuso a me condicionar às minhas misérias. Porque a política brasileira não é boa nem justa nem honesta, e é preciso que alguém faça alguma coisa para que ela seja assim um dia. Porque é desperdício de vida e de energia fazer alguma coisa que não te impulsiona a ser maior. Maior como ser humano, como gente que sente e que cansa, como gente que sabe que um dia vai morrer e, ignorando o fato da próxima frase ser um clichê, por isso, devia tentar ser feliz todos os dias.
 Porque eu mereço mais. E não vou me acomodar.
 Acho que todo mundo devia se sentir dono de si e reconhecer seu poder de escolha. E, para ilustrar de uma forma menos eu o texto que vocês acabaram de ler, aqui vai um texto do qual eu lembrei quando a idéia para esta publicação surgiu:

Uma garota me disse:
“Namoro há 7 anos, ele já me fez sofrer muito
Terminamos, voltamos, sempre perdoando.
Minha autoestima está no pé.
Por causa das mentiras e traições,
me sinto tão desvalorizada.
Ique,
que amor é esse?”.

Uma vez,
uma namorada terminou comigo.
Perguntei:
“O amor acabou?”
Ela respondeu:
“Não”.
Eu:
“Então, por que terminar?”.
Ela:
“Porque esse amor
não quero”.
Perguntei:
“Qual amor você quer?”.
Ela:
“Quero me jogar de um precipício,
sem saber se lá embaixo vai ter alguém para me segurar.”
Porra, isso é hora de poema?
Quem está terminando,
você ou a Clarice Lispector?
Na hora, fiquei puto.
Eu disse:
“Você poderia ficar perto da janela?”.
Ela:
“Pra quê?”
Eu:
“Quero te jogar daqui”.
Hoje, finalmente,
entendo o que ela quis dizer.
Existem amores que fazem sofrer.
Existem amores corruptos.
Existem amores que agridem
verbalmente, fisicamente,
que não conversam,
que não passam pelas quatro estações,
que ficam sempre no inverno.
Existe amores sem fidelidade,
acomodados e
que ficam pela metade.
E existem amores
que se respeitam,
fazem rir, cantar, dançar,
que nos fazem ser mais corajoso do que nunca.
Existem amores que as pessoas se entregam.
Existem amores
que pega seu mundo
e vira do avesso.
Existem amores
em que dois se tornam um.
Então,
basta escolher.

Qual amor você quer?

2 comentários:

  1. Muito bom o texto Gabi!! Adorei, beijos!

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  2. falei que ia passar aqui... Estava meio sem tempo, mas comecei a ler e tive que terminar! haha Outra hora te falo pq.

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