terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Uma história bonita de filme

 Vou dizer pra vocês: eu morro de vontade de matar de vez o meu medo de que as histórias bonitas de filme sejam só histórias bonitas de filme.
 Sei que existe um alguém que uma vez afirmou que a “arte imita a vida”, mas hoje em dia é tão mais fácil ver a história bonita só no filme, que o meu medo persiste.
 Em suma, há muito tempo também que eu desejo escrever coisas me baseando numa história real, digo, contar o que já aconteceu. Tipo a história daquela moça que apareceu no Fantástico outro dia, e havia perdido a memória, então o marido precisou reconquistá-la, tendo em vista o desconhecido que ele se tornou para ela. Há um tempo eu escrevi uma poesia e um conto baseados em histórias reais, e agora apresento-vos outra. 
 Ainda assim, para que esse desejo fosse realizado eu também precisava de inspiração, e não sei se é bom ou ruim, mas a minha só aparece em momentos extremos: ou extrema alegria, ou extrema tristeza, ou extremo estresse, ou extrema paz... Hoje ela fez as honras, e fui presenteada com o link de uma música linda compartilhada por um amigo no facebook, que ressuscitou a bendita para mim, e me levou ao extremo amor.
 Apenas adianto-lhes que: da história sobre a qual falarei, não sei o nome, nem o fim. Não sei se já terminou ou se terminará; apenas sei que existiu, e isto, por enquanto, é suficiente.
 Havia duas almas, duas pobres almas.
 Ricas almas.
 Escolhidas parar amarem uma a outra. Infinitamente. Encantadoramente. Sofregamente.
 Bastou que se olhassem.
 E ele enxergou sua alma. Ela, nem tanto. Mas se sentia esquisita em saber que nunca antes alguém lhe olhara daquela maneira.
 E então a noite foi longa, e se tornou moradia para as lembranças tortuosas daqueles olhares compridos; para dúvida excruciante de pensar na veracidade daquilo, era possível enxergar o coração alguém em seus olhos? Havia realmente uma maneira de fazer com que o sorriso e olhar de alguém que nunca antes se viu se tornassem a angústia e o anseio de um reencontro?
 Concluíram que sim.  E ele aconteceu.
 Não nas condições pretendidas, aliás, a surpresa era tanta que nem mesmo podiam acreditar, e preferiram ignorar. Ela preferiu. Ele se dispôs a questionar, e torturar-se mais.
 Se reencontraram, mas por pouco tempo.  A distancia os separara cedo outra vez, e eles apenas deixavam que suas almas sentissem a presença um do outro do outro lado do céu. Ela olhava de lá, ele olhava de cá. O mesmo céu. As mesmas perguntas, o mesmo desejo de poderem fitar aos olhos um do outro e procurarem as respostas, um remédio pra sanar a aflição de não entender o que acontecia.
 E Deus os ajudou. Manteve suas dúvidas e indagações acesas por tempo suficiente para que pudessem saná-las. De uma maneira bem menos satisfatória do que desejavam de fato, mas conversaram. E embora o reencontro não tivesse trazido as tais respostas, atenuava o anseio de saber mais um do outro. De conhecer sua rotina, suas preferências, seus gostos, seus medos...
 Assim, pensaram que talvez o conhecimento que o tempo lhes guardava, fosse capaz de lhes trazer esclarecimento.
 Mas embora o tempo passasse, e a intimidade se pusesse em seu meio, apenas o que surgia eram mais dúvidas, e nenhum olhar pra entregar as razões que só seus corações conheciam.
 Os dias se arrastavam, as horas não passavam, a espera pelo reencontro seguia fazendo dos dias sua morada fixa, era presença explícita, e impiedosamente arraigava-se em suas mentes, roubando-lhes a atenção de todas as outras coisas, para que apenas se perguntassem que diabos era aquilo que estavam sentindo.
 Com o tempo, a intimidade se tornava presença. Conversavam, riam, trocavam músicas, sonhos, compartilhavam devaneios, e um dia, ao enxergar a sintonia de que eram cúmplices, assustaram-se. Mas não o suficiente para conter o ímpeto de finalmente usar sua coragem para dizer um ao outro o que se passava em sua intimidade, revelar os pensamentos, repetição e inversão de cenas que todas as noites reprisavam para si próprios, as suposições, as indagações que faziam a si mesmos como se, no lugar do outro, pudessem prever e saber o que de fato se dava.
E não haveria presente maior que a reciprocidade.
Desde este dia instalou-se ali um irremediável castelo da imaginação que a própria realidade lhes permitira construir. Pensavam e repensavam no que tinham dito um ao outro, e no que iriam dizer quando se vissem de novo. As conversas ganharam assiduidade, e quando estas não aconteciam, mal lhe cabiam a ansiedade e curiosidade para a próxima. Quando sozinhos, andavam na rua imaginando-se na presença um do outro. Quando acompanhados, memorizavam as partes mais engraçadas da conversa para contarem quando o próximo encontro viesse.
E assim os dias passavam. Os meses. A distancia não impedia nem sequer amenizava o desejo de que pudessem conversar assim pessoalmente. Olhos nos olhos, ansiedade eletrizante, hiperventilação, sorrisos quando as palavras acabassem...
Até que se encontraram. De novo.
Não sabiam se riam ou se abraçavam, se conversavam ou se continuavam a conversar com os olhos... ele queria pegar sua mão, ela queria que ele a abraçasse... em suas mentes, quase podiam ouvir a trilha sonora, o céu azul escuro parecia mais perto, e as estrelas certamente, certamente, estavam brilhando mais naquela noite. E se beijaram. Entregando, um para o outro, de uma vez para todas, seus corações. 

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