segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Declaração de amor


      Clarice,
Eu vi sua entrevista há muito concedida e entendi que você não gosta que lhe olhem através do rótulo de escritora.
 A princípio, foi assim que te amei. Amei-te porque o livro de literatura disse que tu eras capaz de procurar e desvendar a própria identidade. Como eu queria ser capaz de encontrar a minha!

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Fangirl - Resenha

 Toda e qualquer maneira de começar esta resenha será injusta. Quando um livro é muito bom, ele causa esse feito. Êxtase. Não sei por onde começar, nem o que dizer. São tantos balõezinhos de opiniões se manifestando agitadamente dentro da minha cabeça...
 Bom, é fato que este livro se tornou um divisor de águas na minha vida. E vocês vão entender porquê.
 Cath é uma maluca desesperada por histórias que nem eu: além de se envolver completamente, em todas as dimensões possíveis, com uma série de livros, ela dedica sua vida a escrever uma fanfic deles. Para ela, a história de Simon Snow e Baz é mais do que ficção - é uma extensão da sua alma transcrita em palavras.
 Ela tem uma irmã gêmea, Wren,com quem divide o amor pela história de Simon Snow, mas quando elas vão pra faculdade a irmã decide que precisa criar a sua própria vida além dos limites da amizade com Cath, e esta se vê sozinha num campus ainda desconhecido com uma colega de quarto que também desconhece.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Compartilhando links - dicas sobre escrita

  O Capitu Frustrada é, além de uma tentativa de expressão e compreensão - de mim mesma e minha sobre o mundo -, uma forma de me treinar e "domar" minha inspiração, a fim de que eu ganhe experiência e esta me torne capaz de escrever livros. 
  Nunca me encaixei completamente no mundo. Não cresci sabendo o que queria me tornar quando crescesse. Sempre tive amor pela literatura, porque fui muito estimulada quando criança, além da empatia que acabou rolando em mim e as palavras ao longo dos anos.
  Apesar disso me tornar única e peculiar, também me levou a várias crises existenciais: não saber o que sou, o que quero ser, porque quero ser e como me tornar tal. 
  A escrita caiu de paraquedas na minha história. Foi um susto e também um presente.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O caminho do impossível

 Eu sempre quis saber se a arte imita a vida porque sempre duvidei a minha capacidade de lidar com a não existência daqueles amores arrebatadoramente intensos (e inspiradores e naturalmente transformadores e avassaladores e inevitáveis e indescritíveis) e, por isso,  indefiníveis fora da literatura ou dos cinemas. 
 Mas acho que essa dúvida retrata muito mais uma humanidade do que um medo: temos necessidade do que não temos. Aquela história de que o capim do vizinho é sempre mais verde, de que nunca ficamos completamente satisfeitos com o que já possuímos.  
 Como tudo na vida tem dois lados, eis o segundo: é necessário ter necessidade de mais. Porque se a gente não viver em busca de alguma coisa maior, a gente se deprime, para no tempo. Sem viver pra buscar um sonho, um ideal, deixamos de fazer história. É bom querer mais, sonhar mais, ter sempre um horizonte ainda mais distante e ainda mais bonito... 
 A questão é que a impossibilidade também é um combustível.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Machado de Assis - Um gênio brasileiro

   Machado de Assis é o autor da minha vida. Desde os primórdios do meu nono ano fundamental, quando analisamos A Cartomante em sala, eu soube: ele me daria a graça da inspiração e o sonho de ser apenas metade - e ainda assim isto me faria ser gloriosamente - do que foi como autor, pensador, gênio, "homem das letras e do funcionalismo público" e dono de uma perspicácia única.
  Foi por isso que decidi, mais ou menos entre o meado de 2013 e o início do blog em outubro do mesmo ano, quando o estudei de novo, mais profundamente dessa vez, que leria sua biografia tão logo quanto possível.
  Tardei.
  Mas se há algum mérito em cumprir metas mesmo que tardiamente, eis que finalmente cheguei ao fim de Machado de Assis - Um gênio brasileiro. E levando em consideração tudo o que devo ao Mestre, precisava deixar (especialmente aqui no blog) um registro de tal fato.
  Comecemos.
  A princípio, me iludi. Comecei a ler porque queria saber quem é o Machado provedor de tanta genialidade, o Machado que não é um homem público; quis entender porquê Carolina foi sua amada por longos 35 anos, porquê ele não teve filhos e conhecer o que há por trás de tanto realismo, o tal intitulado pessismo por alguns. E me frustrei: a maior parte do livro trata das suas obras, dos trabalhos que fazia como tradutor ou crítico (no início da carreira) e basicamente seu histórico profissional-literário. Há pouquíssimas informações pessoais.
  É claro que todo autor imbute parte de si em suas obras, e Daniel Piza é perspicaz nas longas e profundas análises literárias de que o livro é feito, por isso consegue discernir os trechos mais biográficos que ficcionais; essas análises mais profundas é o que nos deixa mais próximos do Machado durante o livro. Ainda assim, muitas dúvidas que me atiçaram a curiosidade pelo livro, permaneceram de pé ao seu fim.
  O autor justifica essa ausência com a verdade de que há pouquíssimos registros da vida pessoal de Machado, o que torna esse tipo de biografia impossível. Tal como foi. Mas confesso que sua justificativa não foi suficiente para me deixar feliz.
  É preciso ressaltar que as análises são feitas sobre a maior parte de suas obras, inclusive as peças e ensaios muito pouco aplaudidos no seu início de carreira.
  E sobre o início de carreira, retiramos uma infinita inspiração: Machado não tinha a genialidade transcrita em Dom Casmurro, nem o sucesso e reconhecimento de que tanto me orgulho. Ele travou uma batalha longa, com críticas pouco incentivadoras ao seu primeiro livro (Crisálidas) e um caminho com mais de 250 crônicas em um só ano. [#shameonme]
  Outro fato importante é que seu trabalho como servidor público por anos e anos quebra toda a corrente de críticas que classifica seu clássico sarcasmo Machadiano como alheio à consciência política e preocupação com problemas sociais, por assim dizer.
  Voltando ao livro, achei que as fotos selecionadas pelo autor seriam mais úteis se fossem melhor posicionadas, por vezes e vezes achei a foto pouco relacionada com o texto sem contar a quebra no ritmo de leitura que ela deixa.
  Em suma, o livro imprime a importância dos jornais e folhetins da época para a ascensão de Machado, e também seu ciclo de amizades, que me deixou com inveja, devo dizer, ao citar trocas de resenhas e cartas entre Machado e Alencar, Machado e José Veríssimo, entre tantos outros.
  Para um apaixonado pelo talento transcrito na literatura Machadiana, afirmo: a leitura vale a pena. As análises literárias nos levam de volta às aulas de literatura do ensino médio, além da viagem no tempo que é estar na época de Machado, entre a rua do Ouvidor e o Cosme Velho, entre clubes literários e shows de ópera... Mas para quem está a procura de respostas sobre a identidade do Machado que era apenas um mulato, epilético, servidor público, casado e sem filhos, meu conselho: guardem suas perguntas para quando chegarem a eternidade, e puderem encontrá-lo vocês mesmos.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Às vezes

  A minha alma tem vontade própria. Ela para de frente a situações do passado como se estivesse diante da vitrine de uma loja. Fita, recria, desmonta, opina, discute, remonta, desaprova, recrimina, às vezes berra um "MORRA!", e então continua andando até a próxima cena como se a vida fosse um shopping. Várias vitrines a perder de vista.
  Eu já tentei avisá-la que o comando é meu, não que ela escute. Já aconselhei: vê se para de se demorar tanto na mesma cena, olha que o trem passa e você perde o bilhete!. Mas ela não quer saber. Já não pensa e nem quer pensar que até no shopping a vitrine se transforma toda semana. Que o tempo se encarrega de trazer novas modas. Ela quer ficar vivendo o tema praia ignorando que o inverno já chegou. Não entende que as coisas mudam mesmo quando a gente não.
  E quer saber? Eu sou um pouco muito como ela. Eu deito para dormir e fico dissecando as memórias do que fiz de errado ou de certo. Quando a memória é feliz, rebobino para me convencer de que é verdade. Quando se trata de erros, fico na esperança de que a realidade se altere junto com o discurso ideal que encontrei tardiamente.       Essas divagações acabam sendo uma oração porque no fim, o fato é que eu fico me apegando a cada detalhe milimétrico dos vestígios que as memórias deixam, e imploro ao tempo que ele não leve o que não me sinto pronta para perder, mesmo sabendo que ele ignorou o meu pedido tantas vezes.
  Mudanças. É nisso que se resume o drama todo. As novas situações e e protagonistas e transeuntes e sentimentos que o tempo traz. Eu nunca gostei muito delas porque me fizeram entender Pessoa de um jeito amargo... "Sentir tudo de todas as maneiras / ter todas as opiniões / ser sincero contradizendo-se a cada minuto / desagradar a si próprio pela plena liberalidade de espírito(...)"...
  Muitas vezes cogitei impossível perdoá-las. Eu me recordo das amizades que perdi e do quanto estou mudada demais para recuperá-las; eu me lembro da consciência dura - e até cruel - que a maturidade me concedeu e do quanto isso é incontornável agora; eu penso nos sonhos que deixei de sonhar porque as circunstâncias os tornaram absurdos ou incompatíveis com a realidade...
  Mudanças. Elas me levam a crer que, às vezes, a vida é a sucessão de coisas que não planejamos; a sequência impiedosa da vivência daquilo que não estávamos prontos para viver; a continuidade infinita daquilo que não queríamos que acontecesse. E o mais irônico é que a gente acaba gostando disso. Às vezes.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Para Onde Vai O Amor? - Resenha

  Carpinejar me deixou em crise. Uma crise tão colossal e avassaladora que nenhum outro livro jamais conseguiu desencadear em alguém, tenho certeza. 
  Lidei com sua depressão e sua intensidade. Com a profundidade de um homem. De um ser humano sensível, absolutamente passivo de dor e totalmente apaixonado pela ânsia de conseguir derramar-se em letras. Derramar em palavras toda a imensidão do seu interior. 
  Sua passionalidade me assustou. Por alguns instantes cheguei a cogitar inválida minha maneira de amar, uma vez que desconhecia tamanha devoção num amor, numa maneira de doar-se. 
  Sua maneira de ver o fim me consolou. Me encontrei vagando entre a identificação e a idealização - suas verdades confirmaram o que sempre pensei sobre um final de relacionamento. Embora ele tenha feito-me sentir isso com muito mais sentimento (sem a redundância aparente) e realidade sensitiva, se é que me entendem. 
  Esse homem nasceu para escrever. Ele foi feito para entornar ao mundo os efeitos do amor. Do amor que dura, do amor que se transforma, do amor que tudo suporta, do amor que sente medo, do amor que acaba... 
  Carpinejar é a personificação do que a literatura deve ser: a profundidade do sentir humano traduzida em textos.
  Uma vez ou outra, julguei-o mal amado. Incompreendido. Sem amor próprio. E talvez ele seja mesmo. Mas sua verdade é uma só - ele entende sobre a sabedoria que as façanhas do amor nos trazem. E apenas aquele que ama ou amou com afinco será capaz de enxergar a grandeza que há por trás dos textos aparentemente portadores de fossa, que exalam compreensão sobre si mesmo e incompreensão declarada sobre o mistério infinito e eterno do que é amar.

  

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Conto do reencontro

 Eu desci a rua correndo, o vento chicoteou meu rosto. Devia ter ouvido minha mãe, mas deixei a blusa de frio em casa. O desalinho dos paralelepípedos tomaram minha atenção e eu pensei no quanto eles simulavam minha vida tão exausta de retidão. 
 Lembrei de já ter dito a alguém que sempre quis emoção. Talvez tenha passado muito tempo com os livros e os confundi com a realidade. Romantizar. Costumava ser este o meu hobby. "Quero as faíscas", eu disse. E tenho certeza que o alguém riu. É possível que esse alguém fosse eu mesma. Nunca tive muitas pessoas com quem conversar de fato. Hoje eu sei que a minha sensatez me acorrenta à realidade, e já não ouço tanto o que os meus sonhos queriam. 
 A retidão. Sempre a retidão. A vida adulta prudente. Sem interferências, imprevisões. 
 Quando cheguei na esquina, já não sabia onde estava, passei o caminho me convencendo a parar de sonhar. Mas você já previa, eu devia saber. Estava escrito na sua testa, assim que o avistei. Foi sempre só uma questão de esbarrar olhares para que você soubesse. 
 Sorri sem querer. Esfreguei os olhos, procurando a certeza de que estava mesmo ali. Abri a porta da alma com o mesmo sorriso. Não que precisasse disso, você escancararia as portas do meu coração de qualquer jeito. Só precisava de tempo. 
  - Você está linda como sempre - e eu sorri. Ainda que você tivesse dito "fecharam todas as fábricas de chocolate do mundo" eu sorriria. 
  - Obrigada - gaguejei sem ter certeza de que havia conseguido dizer. 
 - Como foi de aniversário? 
 - Você ainda lembra? 
 - Bom, não mudou o dia, não é? 
 Mais risos. Se tremedeira fosse um mar fundo, eu me afogaria. 
 - Bom, como se pode ir. Você bem sabe que depois dos vinte e cinco já não se ganha festa surpresa ou presentes - E senti aquilo que fui aos quinze morrer em definitivo. De uma só vez. 
 - Ainda pensando em escrever livros? 
 - Resposta afirmativa se você considerar diários uma leitura em potencial. 
 - Certo - um sorriso torto. Covinhas. Ah, essas covinhas... - Acho que o amadurecimento muda mesmo os planos das pessoas. 
  - Acho que sim. 
  E houve entre nós o que de inédito eu nunca quis provar: o silêncio mais duro de todos que já presenciei. 
 - Essa é a sua casa? - arrisquei. 
 - Se quer saber se moro aqui agora, então sim. É o que deu pra pagar. 
 - Não parece uma casa grande o bastante para cinco filhos. 
 Um sorriso. Outra vez. Então eu ainda consigo tirar isso de você.
 - Quer entrar? 
 Eu queria. Mas a sensatez retornou ao meu corpo. Tive de usá-la. 
 - Acho que não. Preciso chegar a tempo do próximo trem. 
 Cenho franzido. O tempo não transformou isso também. 
 - Almoço em família? 
 - Aniversário de um sobrinho. 
 - Certo. 
 - Foi bom te ver - consegui dizer. O praxe da despedida contra o medo de falar demais. Guerra vencida, "adulteridade". Tente outra vez. 
 - Foi bom te ver também. Te cuida.
 Assenti. E me pus a caminhar. Uma perna, depois a outra. Uma de cada vez. 
 Olhei para trás. Já fui embora outras vezes. Já vi o mesmo projeto de sorriso triste. 
 Projeto de sorriso. 
 Como posso saber? Como ter certeza que é triste? Há quinze anos atrás eu conseguiria dizer. Eu acreditava que te lia pelos olhos. 
 A sensatez. 
 Não há fantasias. Somente há espaço para o que é real. 
 - Ainda penso em você - gritei. 
Um grito no vácuo. Mas as palavras não saíram. 
 - Eu ainda imagino como teria sido. Eu olho casais quase impossivelmente sintonizados como nós costumávamos ser e quero ter o que quase fomos. E o que pretendíamos ser. Eu volto a sonhar quando fantasio conversas nossas. Eu te esperei - E as palavras se esparramam pelo ar. Elas viram chuva, inundam a rua, fazem o céu estremecer. 
 - Eu fui ao museu do Louvre e fiquei dez minutos fitando a Monalisa esperando que quando voltasse a mim, você estivesse do lado, rindo da coincidência. Eu desejei que você estivesse lá e me chamasse pra tomar um vinho e falar das coisas que não pudemos dizer. 
 Ah, lágrimas... Tantas lágrimas... 
 - Eu continuei escrevendo o que sentia quando já não podia mais te dizer. 
 E queimam meu rosto, distorcem minha pele. Dói. Senhor, como dói. 
 Eu vi as palavras se transformarem num gigante. Eu as vi tomarem forma e sair de mim. De onde eu já não lembrava que estavam. Elas saíram daqui e caminharam ao seu encontro. Não queriam mais morar em mim, eu bem sei. Já não há espaço para elas. Elas caminharam, eu sei que caminharam. Elas fizeram chover. Elas caíram como a chuva em cima de nós dois. Mas não te encontraram. Ah não. 
 Minhas memórias não são minhas, constatei. Não posso fazer o que quiser com elas. 
 Não era bem você, afinal. Era só mais uma viagem atrativa pela janela do ônibus, um devaneio da alma vagueando pelo infinito. 
 Talvez as palavras ainda estejam aqui, então. Talvez o estremecer do céu seja por outro tipo de chuva. 
 A sensatez. 
 Sempre a sensatez. 

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Nada como antes, no castelo de Abrantes

Quando comecei a escrever o texto "Vários Macacos no Mesmo Galho" a ideia era falar das coisas que parecem de um jeito e são de outro. Como a ideia de que "é só estudar pra passar no vestibular". Mas eu sempre tenho tanta coisa na cabeça que, ao transcrevê-las, o texto tomou outro rumo. E eu até gostei do que ele se transformou.
Mas há, na vida, uma certa repetição de fatos que fazem com que a gente congele diante da mesma situação mais de uma vez. É como ficar doente: você esbarra num vírus uma vez, então seu corpo tenta reconhecer o corpo estranho e desenvolve anticorpos a ele. Quando o vírus te encontra de novo, você não fica mais doente. Seu organismo já sabe se defender.
Eu confesso que admiraria mais a biologia se esse processo funcionasse também no aspecto emocional. Se você se decepcionasse com alguém uma vez por determinado motivo, e outra pessoa ou essa mesma fizesse aquilo de novo, seu cérebro não ia sucumbir ao sofrimento da decepção outra vez. Seria sensacional.
Infelizmente, os anticorpos só agem na questão física e apenas privam a sua saúde de um flashback. Em se tratando de sentimentos, podemos até reconhecer a situação, podemos prever o mal que ela vai causar, mas nunca conseguimos evitar o caos. Eu nunca consigo.
Em suma, minha maneira de criar anticorpos psicológicos, digo, minha maneira de me defender dos traumas é escrever. Pensei que poderia conviver com o não desenvolvimento da minha ideia inicial pro texto dos Macacos, mas não posso, porque eu não lidei com ela o suficiente pra epifania chegar e os anticorpos surgirem. Não formei uma opinião. Não lutei contra ela. Só a guardei no cantinho. No fundo do armário.
Hoje me deparei com ela outra vez. Parei pra pensar no quão doloroso é constatar que o amor às vezes não é suficiente. Lembrei de quando tinha 12 anos e me apaixonei inutilmente pela primeira vez, sentei de frente a mim mesma e fitei excruciantemente a constatação de que não é como os filmes fazem parecer, de que há muito mais coisas entre a aparência e a realidade do que sonha nossa vã vontade de crer no contrário. Você pode amar muito alguém, mas esse amor não é suficiente pra fazer vocês ficarem juntos.
Eu costumava assistir Grey's Anatomy nessa época. Geralmente, ficava esperando as narrações reflexivas em cada final de episódio. Certo dia a Grey disse: "é possível que duas pessoas se amarem não seja o suficiente?", e eu pensei "não. Não é possível". Eu sentei comigo mesma e comecei a conversar... Lembro de me ouvir dizer "se o Dimitri existisse de verdade e não fosse apenas um personagem de livro, se ele gostasse de mim como gosta da Rose na saga, então eu teria paz. Porque a gente ficaria junto no fim, não importa quantas dificuldades pudessem aparecer no meio do caminho".
Minha inocência me cegou. Eu vi só o que eu queria ver. Eu acreditei que aquela história de "a arte imita a vida" fosse verdade. Acreditei que os escritores colocam nas histórias o que de improvável porém absolutamente possível aconteceria na vida real...
Algumas constatações doem. Elas pesam dentro de você. De vez em quando ser adulto é isto: ter maturidade suficiente para discernir o que era fantasia de criança e o que é a vida é de verdade.
Acho que não quero ser adulta. Quero que minhas fantasias, ainda que tolas, sejam reais. Quero crer de novo que o amor é só o que precisamos pra ficar ao lado de alguém. Quero me poupar de ser adulta e me sentir absolutamente infeliz ao perceber como a vida é de verdade. Acho que entendi porquê a ignorância é uma benção.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante

 Minha inspiração some. Ela deve ir pra Marte, não sei. Mas ela foge. E me deixa absolutamente desesperada por textos novos, sem muito sucesso para a resolução do caso. Mas acho que dessa vez ela estava especialmente decidida a reaparecer para um momento de ilustre brilhantina. E funcionou.
 Hoje, escrevendo no meu diário – sim, eu tenho um – me lembrei do amigo Charlie. O Charlie de As vantagens de Ser Invisível. Estava pensando no mercado escasso de pessoas raras, cuja competitividade não é nada comparada à raridade de existência das pessoas especificadas por mim como raras, e lembrei do Charlie. O Charlie que acreditou que a gente deve aceitar o amor que acha que merece. O Charlie que não acredita que é capaz de, por assim dizer, merecer uma dessas pessoas raras. Pobre Charlie.
 Já que eu não consigo fazer um texto sem usar referências a livros, que eu abuse delas então... Faz aproximadamente duas semanas desde que dediquei dois dias inteiros à Lola e o Garoto da Casa o Lado. Mas o que me faz trazer a moça Lola até aqui é muito mais do que uma crítica à sua história. É uma adesão ao seu modo de vida.
 Eu geralmente começo a avaliar um livro pelo nível de "legalzês" dos hábitos que caracterizam os personagens. E o grau da moça Lola era tão alto que me apaixonei por ela. Não no sentido carnal da coisa, mas no sentido idealizado da coisa. Quis ser que nem ela. Quis fazer minhas próprias roupas e cada dia vestir um figurino - sim, um figurino - diferente. Quis ter um fichário com ideias para roupas. Quis ter várias perucas e armações de óculos diferentes. Quis, além de toda e qualquer coisa, impor os meus padrões sobre os padrões impostos pela sociedade.
 Que libertador poder querer isso. Sentir isso. Ir buscar isso.
 Há algum tempo, que não é pouco, eu venho pensando sobre os meus padrões e os padrões que já me foram impostos antes mesmo de eu construir os meus. Muito me incomoda, principalmente por ser algo que não consigo mudar, o fato de que me preocupo razoavelmente com o que as pessoas pensariam de mim caso eu me encaixe no grupo fora do padrão, e isso me assusta.
 Mas acho que, sobre todas as coisas, o que me assusta de verdade é saber que nem todo mundo tenta lutar contra isso. As pessoas no Oriente Médio matam quem não acredita no que elas acreditam sem questionar, porque aceitam a verdade absoluta que desde sempre foi imposta sobre elas. Os brasileiros se contentam em reclamar no facebook contra a roubalheira e corrupção dentro da política vigente mas não fazem nada para, de fato, alterar o padrão; “todo político é corrupto, e quem não se corrompe, não pode ser político”. Eu, você e pelo menos mais 3 milhões de pessoas sabemos que devíamos passar menos tempo na internet, mas não passamos, porque “todo mundo fica”. A gente se acomoda.
 A Lola não.
 Ela não ligava se iam zoar o figurino novo dela. Ela não ligava se todas as meninas do baile de formatura teriam um vestido moderno e ela, um de Maria Antonieta. Ela não ligava se uma menina menor de idade “não deveria” namorar um cara de vinte e tantos. Ela não tinha vergonha de ser quem era, de se vestir como bem entendesse, de fazer o que ela queria.
 O Charlie se acomodava. Ele deixava que a sua vida fosse solitária e invisível. Ele não ia buscar nenhum tipo de reconhecimento ou amizade. Ele ia junto com o fluxo. Ele namorava sem querer, sem gostar, sem paixão. Sem soltar faísca.
 Eu quero mais do que as coisas que eu acho que mereço. Porque “eu sou do tamanho do que vejo, e não do tamanho da minha altura”. Porque eu me recuso a me condicionar às minhas misérias. Porque a política brasileira não é boa nem justa nem honesta, e é preciso que alguém faça alguma coisa para que ela seja assim um dia. Porque é desperdício de vida e de energia fazer alguma coisa que não te impulsiona a ser maior. Maior como ser humano, como gente que sente e que cansa, como gente que sabe que um dia vai morrer e, ignorando o fato da próxima frase ser um clichê, por isso, devia tentar ser feliz todos os dias.
 Porque eu mereço mais. E não vou me acomodar.
 Acho que todo mundo devia se sentir dono de si e reconhecer seu poder de escolha. E, para ilustrar de uma forma menos eu o texto que vocês acabaram de ler, aqui vai um texto do qual eu lembrei quando a idéia para esta publicação surgiu:

Uma garota me disse:
“Namoro há 7 anos, ele já me fez sofrer muito
Terminamos, voltamos, sempre perdoando.
Minha autoestima está no pé.
Por causa das mentiras e traições,
me sinto tão desvalorizada.
Ique,
que amor é esse?”.

Uma vez,
uma namorada terminou comigo.
Perguntei:
“O amor acabou?”
Ela respondeu:
“Não”.
Eu:
“Então, por que terminar?”.
Ela:
“Porque esse amor
não quero”.
Perguntei:
“Qual amor você quer?”.
Ela:
“Quero me jogar de um precipício,
sem saber se lá embaixo vai ter alguém para me segurar.”
Porra, isso é hora de poema?
Quem está terminando,
você ou a Clarice Lispector?
Na hora, fiquei puto.
Eu disse:
“Você poderia ficar perto da janela?”.
Ela:
“Pra quê?”
Eu:
“Quero te jogar daqui”.
Hoje, finalmente,
entendo o que ela quis dizer.
Existem amores que fazem sofrer.
Existem amores corruptos.
Existem amores que agridem
verbalmente, fisicamente,
que não conversam,
que não passam pelas quatro estações,
que ficam sempre no inverno.
Existe amores sem fidelidade,
acomodados e
que ficam pela metade.
E existem amores
que se respeitam,
fazem rir, cantar, dançar,
que nos fazem ser mais corajoso do que nunca.
Existem amores que as pessoas se entregam.
Existem amores
que pega seu mundo
e vira do avesso.
Existem amores
em que dois se tornam um.
Então,
basta escolher.

Qual amor você quer?

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Eleanor&Park - Resenha

 Análises criteriosas apontam (quase) 30 dias desde que esse pobre blog foi abandonado às moscas e à solidão. Ainda bem que eu sempre volto.
 Hoje quem me trouxe aqui foi o item 3 da minha meta de leitura nas férias: Eleanor & Park. 

Confesso que de tanto ver a imagem dos dois estampada em cada página literária que eu sigo (e acreditem, são muitas), fiquei muito, mas muito curiosa mesmo, e saí por aí, nas livrarias da Cidade Maravilhosa procurano por eles. Acontece que estava muito caro e eu até desisti. Mas a foto da capa do bonitinho não deixou de aparecer então acabei não resistindo ao impulso de ceder à promoção do submarino.
 Pois bem. Foram 3 longos dias. 
 No início, um choque. A história começou bem diferente do que eu tinha imaginado: um romance no tempo dos meus pais, com uma personagem principal absolutamente fora dos padrões de beleza estabelecidos pela sociedade, um ônibus escolar completamente absorto no mundinho de filme adolescente americano e uma história de vida mui peculiar que ameaça dar as caras. 
 Seguidamente, o enredo particular de cada personagem vai se revelando nas brechas entre encontros no ônibus e empréstimos de gibis. Eleanor é a primeira filha dos 5 de Sabrina. Seus pais são separados e ela acabou de voltar para casa da mãe, que divide-na com o padrasto, um cara muito muito bipolar, que é praticamente o bicho papão, anteriormente expulsou a moça de casa (o que explica a volta) e só faz gritar e/ou colocar medo nas criancinhas. Park, um adolescente de classe média, é vidrado em rock e sempre lê gibis. A princípio, apresenta um preconceito quanto a Eleonor, por causa das roupas surradas e masculinas da moça (uma vez que sua família mal tinha dinheiro para a comida), mas acaba por revelar sua boa índole. 
 Basicamente, a história trata da queda dos preconceitos de Park e do processo de aceitação de Eleonor para com ela mesma. Ele descobre que ela é muito mais do que as roupas largas e fora de moda, e ela percebe que é linda e amável (no sentido literal), mesmo com toda a dificuldade que passa. 
 Não posso dizer que gostei do final. Mas também não posso dizer que odiei. 
 No instante em que terminei o livro fiquei esperando o resto da história, num processo de negação, tentando dizer pra mim mesma que tava faltando uma parte. Um pouco depois eu senti raiva. Mas agora eu to pensando em Uma Aflição Imperial, de A Culpa é das Estrelas, e como a Hazel, imaginando que ele termina assim porque a autora (usuária assídua da maldade para com os leitores) quis conferir verossimilhança à obra. Porque a vida e as histórias que a gente escreve na vida terminam e começam quando ela bem entende e tal e coisa e coisa e tal. Mas nah. 
 Pra ser sincera, me decepcionei um pouco com o livro. Criei uma imagem para ele na minha cabeça antes de tê-lo nas mãos. Esperei um romance daqueles que a gente não consegue largar, e que em cada capítulo acontece uma coisa diferente e te faz querer dormir com o livro, comer o livro, abraçar o livro, tomar banho com o livro, pra ver se ele se incorpora a vida real mas não foi assim. 
 No entanto, contraditoriamente e à sua maneira, o estilo do livro de prendeu. Não de um jeito desesperador, mas de um jeito que me fez torcer para que as coisas dessem certo na história. As narrações que intercalavam o ponto de vista de um e do outro, o fato deles se apaixonarem gradativamente, a maneira como a Rainbow faz a Eleonor ser a mocinha amável mesmo que ela não seja dona do corpo perfeito e não tenha muitos amigos... De algum jeito, o livro se tornou especial pra mim. Foi uma leitura que valeu a pena não por ser aquele clichê esperado em todo romance: um mocinho e uma mocinha que passam um milhão de dificuldades para ficarem juntos. Foi uma leitura que valeu a pena porque têm personagens com uma história de vida que faz a gente repensar a nossa; porque tem um casal que se apaixona através da leitura; porque parece tão de verdade que te cativa a ponto de você se sentir confidente daqueles dois. E é por isso que ele mereceu essa publicação. 


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Uma história bonita de filme

 Vou dizer pra vocês: eu morro de vontade de matar de vez o meu medo de que as histórias bonitas de filme sejam só histórias bonitas de filme.
 Sei que existe um alguém que uma vez afirmou que a “arte imita a vida”, mas hoje em dia é tão mais fácil ver a história bonita só no filme, que o meu medo persiste.
 Em suma, há muito tempo também que eu desejo escrever coisas me baseando numa história real, digo, contar o que já aconteceu. Tipo a história daquela moça que apareceu no Fantástico outro dia, e havia perdido a memória, então o marido precisou reconquistá-la, tendo em vista o desconhecido que ele se tornou para ela. Há um tempo eu escrevi uma poesia e um conto baseados em histórias reais, e agora apresento-vos outra. 
 Ainda assim, para que esse desejo fosse realizado eu também precisava de inspiração, e não sei se é bom ou ruim, mas a minha só aparece em momentos extremos: ou extrema alegria, ou extrema tristeza, ou extremo estresse, ou extrema paz... Hoje ela fez as honras, e fui presenteada com o link de uma música linda compartilhada por um amigo no facebook, que ressuscitou a bendita para mim, e me levou ao extremo amor.
 Apenas adianto-lhes que: da história sobre a qual falarei, não sei o nome, nem o fim. Não sei se já terminou ou se terminará; apenas sei que existiu, e isto, por enquanto, é suficiente.
 Havia duas almas, duas pobres almas.
 Ricas almas.
 Escolhidas parar amarem uma a outra. Infinitamente. Encantadoramente. Sofregamente.
 Bastou que se olhassem.
 E ele enxergou sua alma. Ela, nem tanto. Mas se sentia esquisita em saber que nunca antes alguém lhe olhara daquela maneira.
 E então a noite foi longa, e se tornou moradia para as lembranças tortuosas daqueles olhares compridos; para dúvida excruciante de pensar na veracidade daquilo, era possível enxergar o coração alguém em seus olhos? Havia realmente uma maneira de fazer com que o sorriso e olhar de alguém que nunca antes se viu se tornassem a angústia e o anseio de um reencontro?
 Concluíram que sim.  E ele aconteceu.
 Não nas condições pretendidas, aliás, a surpresa era tanta que nem mesmo podiam acreditar, e preferiram ignorar. Ela preferiu. Ele se dispôs a questionar, e torturar-se mais.
 Se reencontraram, mas por pouco tempo.  A distancia os separara cedo outra vez, e eles apenas deixavam que suas almas sentissem a presença um do outro do outro lado do céu. Ela olhava de lá, ele olhava de cá. O mesmo céu. As mesmas perguntas, o mesmo desejo de poderem fitar aos olhos um do outro e procurarem as respostas, um remédio pra sanar a aflição de não entender o que acontecia.
 E Deus os ajudou. Manteve suas dúvidas e indagações acesas por tempo suficiente para que pudessem saná-las. De uma maneira bem menos satisfatória do que desejavam de fato, mas conversaram. E embora o reencontro não tivesse trazido as tais respostas, atenuava o anseio de saber mais um do outro. De conhecer sua rotina, suas preferências, seus gostos, seus medos...
 Assim, pensaram que talvez o conhecimento que o tempo lhes guardava, fosse capaz de lhes trazer esclarecimento.
 Mas embora o tempo passasse, e a intimidade se pusesse em seu meio, apenas o que surgia eram mais dúvidas, e nenhum olhar pra entregar as razões que só seus corações conheciam.
 Os dias se arrastavam, as horas não passavam, a espera pelo reencontro seguia fazendo dos dias sua morada fixa, era presença explícita, e impiedosamente arraigava-se em suas mentes, roubando-lhes a atenção de todas as outras coisas, para que apenas se perguntassem que diabos era aquilo que estavam sentindo.
 Com o tempo, a intimidade se tornava presença. Conversavam, riam, trocavam músicas, sonhos, compartilhavam devaneios, e um dia, ao enxergar a sintonia de que eram cúmplices, assustaram-se. Mas não o suficiente para conter o ímpeto de finalmente usar sua coragem para dizer um ao outro o que se passava em sua intimidade, revelar os pensamentos, repetição e inversão de cenas que todas as noites reprisavam para si próprios, as suposições, as indagações que faziam a si mesmos como se, no lugar do outro, pudessem prever e saber o que de fato se dava.
E não haveria presente maior que a reciprocidade.
Desde este dia instalou-se ali um irremediável castelo da imaginação que a própria realidade lhes permitira construir. Pensavam e repensavam no que tinham dito um ao outro, e no que iriam dizer quando se vissem de novo. As conversas ganharam assiduidade, e quando estas não aconteciam, mal lhe cabiam a ansiedade e curiosidade para a próxima. Quando sozinhos, andavam na rua imaginando-se na presença um do outro. Quando acompanhados, memorizavam as partes mais engraçadas da conversa para contarem quando o próximo encontro viesse.
E assim os dias passavam. Os meses. A distancia não impedia nem sequer amenizava o desejo de que pudessem conversar assim pessoalmente. Olhos nos olhos, ansiedade eletrizante, hiperventilação, sorrisos quando as palavras acabassem...
Até que se encontraram. De novo.
Não sabiam se riam ou se abraçavam, se conversavam ou se continuavam a conversar com os olhos... ele queria pegar sua mão, ela queria que ele a abraçasse... em suas mentes, quase podiam ouvir a trilha sonora, o céu azul escuro parecia mais perto, e as estrelas certamente, certamente, estavam brilhando mais naquela noite. E se beijaram. Entregando, um para o outro, de uma vez para todas, seus corações. 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Devaneio de reveillón

Alguma coisa na anatomia das nuvens me encanta. Sei lá, talvez a capacidade que elas têm de formar desenhos, ou quem sabe a facilidade que elas têm de se desdobrar num formato novo sem que a gente veja a mudança acontecendo; talvez o fato de eu nunca ter conseguido distinguir algodão da matéria da qual de fato elas são feitas... Mas, se tem uma coisa que sempre me incomodou nas nuvens, é a maneira como elas não parecem ter muito controle sobre o seu próprio formato. 
Sempre detestei falta de controle. Não poder fazer a chuva parar de cair quando dava pra ir a piscina; não poder fazer os meus pais não irem a uma festa que eu não queria ir; não parar de comer chocolate quando eu sei que devia... 
Quando o fim de ano chega, as promessas de ano novo me encontram. Me deparo com a lista que fiz ano passado, com todos os objetivos dos quais me esqueci, ou aqueles que não pude cumprir. Quase com desespero, olho para os novos (que na verdade são os antigos que nunca saíram da lista) e penso "poxa, será que dá pra vocês se realizarem dessa vez?", e a resposta vem rindo da minha cara, quase debochando, numa voz baixa e costumeira "não depende só de você". 
E é justamente a falta de controle sobre a minha lista de objetivos que me deixa deprimida na virada do ano. 
Detesto a mania que as pessoas têm de dizer que para ter basta querer. É mentira. A vida e a realização de sonhos e desejos depende da conspiração de um conjunto de coisas muito maior do que somos capazes de manter o controle sobre. Nossos sonhos tem uma razão de ser, mas nem sempre uma razão para acontecer, e é preciso aceitar isso pra gente nao sofrer mais. Mas eu nunca aceito. 
Sempre viro o ano querendo fazer diferente e chegar nos próximos meses com disposição suficiente pra remar contra a maré e chegar no topo da montanha, mas nunca rola, e isso me frustra. 
Hoje mesmo eu estava pensando em tudo que quero pra esse ano, quando percebi que fiz a mesma coisa ano passado e vi minhas esperanças se esvaindo com o vento e blablabla, e pá, frustração outra vez. 
Fim e início de ano é tempo pra olhar pra trás, repensar todas as coisas, sentir aquela melancoliazinha por tudo que não se realizou e ficar se sentindo pra baixo. Mas também é tempo de, passada a melancolia, imediatamente olhar pra frente, e ceder à comercialização da esperança, para então coneçar o ciclo todo de novo. 
 Então não vou fazer uma wishilist dessa vez. Só vou pedir a Deus que me conceda o dom da resignação, e ao universo, que conspire ao meu favor. 
No entanto, caríssimos leitores, meu presente de ano novo pra vocês vem em grande estilo, assinado pelo tio (e amado) Drummond. Mas que fique claro que encontrar este escrito foi um presente para mim também. 
Very happy new year! 

“Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
 foi um indivíduo genial. 
Industrializou a esperança
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
..
Doze meses dão para qualquer ser humano
se cansar e entregar os pontos. 
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez
com outro número e outra vontade de acreditar
que daqui pra adiante vai ser diferente…
.
… para você,
 desejo o sonho realizado.
O amor esperado.
 A esperança renovada..
.
 Para você, 
desejo todas as cores desta vida.
Todas as alegrias que puder sorrir.
 Todas as músicas que puder emocionar.
.
 Para você neste novo ano,
 desejo que os amigos sejam mais cúmplices,
 que sua família esteja mais unida,
 que sua vida seja mais bem vivida.
.
Gostaria de lhe 
desejar tantas coisas
 mas nada seria suficiente…
Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos. 
Desejos grandes e que eles possam te mover a cada 
minuto, rumo a sua felicidade!"