segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Vários macacos no mesmo galho

 Desde pequenos somos condicionados à competição. A influência capitalista sobre nós vai muito além de um modelo econômico. A economia interfere no social sim, mas esse não é o fator determinante do quesito cabo de guerra. Este se trata também do que somos na essência, quando não ignoramos o fato de “termos vindo do macaco”. Somos animais. Mas não todos macacos. Alguns são girafas, grandes e um tanto inúteis; outros são elefantes, esmagam qualquer um com o peso de suas ambições; outros ainda são éguas, que empurram seus filhotinhos até que eles consigam ficar de pé por si próprios, entre tantos outros.
 Somos uma população dentro de uma floresta capitalista. Todos reunidos em torno das mesmas plantas, do mesmo solo, disputando seus frutos por uma questão biológica e “infugível” de sobrevivência.
 Há quem diga que as maiores e mais belas árvores são as do dinheiro, o combustível sanguinário pelo qual as pessoas pisam umas nas outras sem o menor pudor. Outros, um pouco mais sensatos, encontram encantamento na árvore do trabalho, por afirmar que é ele quem “enobrece o homem”, o que não deixa de ser uma desculpa para trancar-se numa reclusão de tarefas lucrativas, e enfim alcançar a velha e boa árvore monetária. Mas há ainda aqueles mais criteriosos, que ao esbarrar-se com os frutos do amor e da amizade, se descobrem. E partir daí, percebem tudo o que o dinheiro pode oferecer não é nada perto do bem estar da alma, que só um amor e uma amizade verdadeira pode dar.
 Talvez não seja como as pessoas gostam de dizer com aquela historinha de estarmos condenados ao progresso. Vivendo e aprendendo. Vivendo e evoluindo. Sempre crescendo. O limite é o céu.  Atualmente, penso que, na verdade, nossa história tem mais a ver com a metáfora da roda gigante: algumas vezes por cima, e outras por baixo. De vez em quando crescemos, mas na metade do tempo voltamos a ser o que éramos: meros animais na busca pelo estabelecimento seguro. Seja no quesito sobreviver, ou no quesito social, quiçá no profissional e assim por diante.
 O mundo de hoje está subordinado à busca por mais. Só o que não entenderam ainda é que nem sempre o “mais” significa efetivamente evolução.
 Ao longo do Ensino Médio, nossas cabeças são atordoadas todos os dias com a proposta de um resultado no vestibular que, em teoria, só depende de você. Várias vezes esquecemo-nos dos fatores climáticos que perturbam a frutificação na floresta; dos predadores que são mais rápidos e mais dispostos que você para determinada tarefa (ou estudo); dos limites de cada um no que diz respeito a continuar na incansável busca pelo sucesso, sem que as frustrações nos abalem, sem que a distração nos atrapalhe, sem que a fadiga nos vença.
 Esquecemo-nos de que, de vez em sempre, massacramos sonhos alheios em nome dos nossos na procura por mais. Ser classificado pelo vestibular significa excluir outro. Chegar primeiro na árvore mais frutífera significa roubar alimento do outro. E nessas situações, às vezes as nossas preocupações sejam um sinal do nosso lado bondoso querendo ser mais forte, e impedir tantas atrocidades em busca do sucesso tão cobiçado. Ser um animal grande e forte, significa ser predador de outro. E no fim, não percebemos que somos todos iguais, apenas procurando um pouco de comida, a felicidade, proteção...
Em alguns momentos, acreditamos piamente que para isso não há remédio. “É a vida”, eu consigo ouvir alguém dizer. “A vida não é justa”, outra pessoa diria.
 Apesar de ateu, o Existencialismo muito me agrada por ter uma vertente filosófica que afirma, sobretudo, a liberdade e responsabilidade de cada um sobre todas as suas escolhas e atitudes. Sou livre para decidir por mim mesma, optar sobre o que fazer ou não. Sendo a consequência boa ou ruim, eu escolhi o que fazer, a responsabilidade é minha, e eu devo arcar com a mesma. Não há uma ação do destino ou de Deus (o que explica o ateísmo anteriormente citado) que influencie no que acontece. Tudo o que acontece são resultados de escolhas humanas, somos o que fazemos, o que decidimos, a maneira como reagimos. E devemos aceitar nossa responsabilidade sobre tal.
 Essa filosofia me leva a pensar na nossa vida competitiva. Seja ela impulsionada pela nossa essência animal ou a presença do capitalismo, a responsabilidade é nossa. O que nos diferencia dos outros animais, e faz muitos se gabarem, é o fato de pensarmos. Temos escolha sobre ser cruel ou não, agir como elefantes passando por cima dos outros com o peso das nossas preferências baseadas no que nos é mais conveniente ou não, massacrar nossos próprios sonhos ou sonhos dos outros ou não, fazer como as éguas que empurram os filhotinhos para que consigam ficar de pé ou não.

 Sim, o mundo é cruel. E a vida não é justa. Mas a responsabilidade é nossa também. Aliás, a responsabilidade é toda e somente nossa.