quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Tinha uma confusão no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma confusão...

 Há algum tempo decidi que queria ler Clarice Lispector. Não o fiz. Aliás, já perdi as contas sobre as coisas que a gente quer e não vai realizar. Pretender é, de fato, uma pretensão. E sobre isso, penso deveria haver um nome pra tristeza que se concretiza quando percebemos, com certo pesar, que a maior parte dos nossos planos hão de ficar somente nas nossas cabeças (Talvez esse nome já exista. E seja frustração. Mas eu estou verdadeiramente cansada dessa palavra; então, por favor, inventem outra).
 Ignorando tamanho desalento, quis ler Clarice Lispector porque em todos os artigos que eu já li sobre ela diziam que as suas confabulações tem o hábito de procurar incansavelmente o seu próprio eu. E sobre isso, meu livro de literatura diz: "Clarice Lispector, a busca incansável pela identidade"...
E será que tem coisa mais legal que isso?
 Digo, quem somos nós? E o que nos torna o que somos? Qual é a parte de mim que eu desejo mudar, e se eu a mudasse, eu seria a mesma? Aliás, será que em algum momento nós realmente encontramos o que somos em essência? Será que a gente sabe exatamente quem a gente é, e o que fazer com essa informação?
 Minha teoria é: a gente nunca sabe completamente quem somos de verdade. Eu, particularmente, detesto aulas de filosofia, mas essa semana parei pra pensar que, de fato, como já ouvi meu professor afirmar, há momentos na vida em que a gente se perde do que é. Momentos em que a gente se olha no espelho e fica se perguntando o que deve pensar a respeito de nós mesmos, o ser estranho a nossa frente. Momentos em que a gente não sabe para onde ir, mas também não quer voltar. Momentos em que o não saber é tudo o que há.
 Aliás, isso me lembra uma frase que eu li no tumblr outro dia desses...



 Perder-se do que somos e cogitar a possibilidade de ser alguém diferente é um tema que muito me assombra. Quando, por exemplo, perdemos alguma coisa de estima, buscamos, quase a todo custo, fazer com que esta perda não se concretize.
    E, sobre isso, penso que precisamos aceitar que toda escolha implica perda, e, às vezes, as coisas que a gente faz pra perda não se concretizar provoca danos ao que realmente gostaríamos de ser. Provocamos um daqueles momentos em que nos perdemos de nós mesmos. Nossas atitudes contrapostas aos nossos sentimentos, ou talvez, predispostas ao sentimento de confusão, conflito, de estar perdido. Isso, em conjunto, nos afasta do clichê "quem gostaríamos de ser quando crescer". 
 Quase repulsivamente, para por a teoria na prática, decidi usar a Miley Cyrus como exemplo.
 Primeiríssima diva e “ídala” da minha história como telespectadora do Disney Channel, após algumas doses de... “libertação”, rebaixou-se a segunda maior decepção da minha vida. (A primeira foi a entrevista-vexame da Sandy pra playboy, só por uma questão cronológica.)
 Tudo isso, meus caros, foi causado por uma insegurança colossal. Um dos maiores conflitos internos que podem vir a se tornar motivos para uma futura crise de identidade.
 Não tardo em explicar-me: quando os fãs de Hannah Montana decidiram trocá-la por algo menos pré-adolescente, surgiu na Miley o medo de perder, junto com a primeira e talvez segunda geração de fãs, o sucesso e prestígio que a sustentaram até então. Deste modo, surgiu também a necessidade de livrar-se do estereótipo de boa moça que a série lhe rendeu, e “adultificar-se” junto com os antigos telespectadores. E foi assim que ela escolheu também perder o carinho e admiração daqueles que, como eu, preferem pessoas que se dão ao respeito à meras prostitutas do sucesso.
 Digo, em nome da “não perda” de alguns fãs, ela optou por atitudes e comportamento não condizentes com tudo que ela sempre foi. (Encontraram a crise de identidade aí? Pois bem.) Em busca de uma solução para o conflito interno que ela travava consigo mesma, a Miley tornou-se alguém que causa repulsa no lugar da admiração que sempre provocou. E digo mais, se ela não perdeu tantos fãs, talvez tenha perdido os mais especiais, uma vez que é claro que qualquer pessoa com o mínimo de princípios rejeita sua atual conduta.
 No caminho em busca da Miley que agrada uma massa (sem o mínimo de integridade, devo dizer), ela se perdeu do que a sua essência sempre foi, e eu sei que já disse isso, mas aqui estabeleço relação com o fato de tantos de nós fazermos a mesma coisa às vezes. 
 Sempre penso no que ela deve sentir realmente quando se olha no espelho. Será que seus modos não são, na verdade, uma fuga para os conflitos que sua confusão emocional causou à sua essência? Será que, na verdade, ela não está confusa sobre quem é e sobre o que quer ser, e sobre não ter aprendido a lidar com a perda do fenômeno Hannah Montana? Será que, na verdade, ela não está procurando sua verdadeira personalidade? 
 O julgamento não cabe a mim, embora ele já tenha sido feito. Muito me incomoda o ato de julgar, e , por isso, peço a compreensão de vocês para com o último parágrafo: esse é o modo como vejo as coisas. Não quer dizer que foi assim necessariamente. Embora eu acredite sinceramente que foi.
 Uma vez me disseram que está tudo bem se perder no caminho. Los Hermanos cantariam "é bom as vezes se perder sem ter porquê, sem ter razão. É um dom saber envaidecer, por si, saber mudar de tom". Acho que o caminho é esse. Tá tudo bem não gostar mais de quem a gente é e querer ser diferente. A gente só não pode mudar a essência, esta é uma só e, eu creio, ela precisa ser boa. 

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