quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Como os nossos pais

 Nossa semelhança com os nossos pais vai muito além da genética.
 Faz um tempo que eu comecei a observar que herdei o queixo da minha mãe e o desenho da boca do meu pai. Mas há mais tempo ainda eu decidi que queria ser diferente deles.
 Decidi que queria dar pros meus filhos uma criação diferente daquela que me deram, que eu queria ser a mãe que deixaria os filhos saírem para a balada com 13 anos, que não os obrigaria a lavar a louça quando fizessem pirraça, que daria todos os brinquedos que eles pedissem e, entre outras coisas, que eu jamais seria legal com o meu filho mais levado do mesmo modo que a minha mãe é legal com o meu irmão.
 Que ilusão.
 Dizem que a adolescência é difícil, mas a pré-adolescência é pior. A puberdade transforma o corpo, mas a pré-adolescência e o iniciozinho dela nos dá capacidades semelhantes aos poderes dos super vilões. Nos tornamos um bando de revoltados, sabe-tudo, e nosso super poder está somente e apenas relacionado com uma forma de... capacidade máxima de "irrefutação". "Eu que sei o que é certo, mãe. Agora senta lá".
  Quanta tolice!
  Quando penso que tudo o que somos e o que deixamos de ser é graças aos cuidados dos nossos pais, eu sinto orgulho. Sinto gratidão. Obrigada meu Deus, porque alguém zelou por mim quando eu quase virei um monstro. Quando eu quase desisti. Quando eu não sabia o que fazer. Obrigada meu Deus, porque me destes alguém que me ama tanto assim.
  No entanto, ainda fico indignada quando um choque de realidade me atinge e eu percebo que quero corrigir meu irmão e as crianças mal educadas que eu encontro por aí da mesma maneira que os meus pais me corrigem; quando percebo que tenho o mesmo senso de responsabilidade com a escola que a minha mãe sempre me ensinou; que eu sou tão coração mole quanto ela; que fico nervosinha exatamente do mesmo jeito que meu pai...
  A gente não pode dar o que não tem. E isso, curiosamente, eu aprendi numa homilia de uma Missa que assisti há muito tempo, quando estava lutando contra a minha pré-adolescência iniciando a catequese ehehehe.
  Nesse dia, ouvi o padre dizendo que detesta a mania do povo de dizer "ah, eu vou dar pro meu filho tudo aquilo que eu nunca tive". Mentira. A gente dá pros outros o que temos em nós.
 Se quando era criança você queria brinquedos que seus pais não puderam te dar, você sobreviveu, e todas as coisas que você ganhou ou deixou de ganhar na vida te fizeram aprender, amadurecer, crescer, e te tornaram o que é hoje.
  E todas as coisas que os seus pais tiraram de você te fizeram formar o seu caráter, e diferentemente do resto do mundo, a gente deveria agradecer por isso.
  Ontem, na sala de espera de um consultório médico, encontrei um monte de senhorinhas de cabelinhos brancos, com as mãos enrugadas, as pernas vacilantes, e todas elas puxaram assunto comigo. Eu conversei com elas, ouvi suas histórias, suas reclamações sobre a velhice, disse a elas que daria tudo certo, que elas não podiam desanimar, e essas coisas todas...
 Quando saí da consulta, passando pela sala de espera outra vez, me despedi de cada uma. Entre elas, a mais velhinha segurou as minhas mãos e disse "filha, que Deus te abençoe", com os olhinhos brilhando. Tudo por meia hora de conversa e atenção. Isso me valeu o dia.
 Uma vez, quando estava com raiva da minha mãe disse a ela que se ela ficasse velha daquele jeito, eu a colocaria num asilo. Mas ontem, quando a senhorinha segurou as minhas mãos e me agradeceu, eu percebi que jamais poderia fazer isso. Quem recebe amor, amor doará. E cada vez que meus pais me disseram não, eu estava recebendo uma porção dolorida e imensa dele.
 Percebi que estava fazendo, de novo, tudo o que a minha mãe faria. Sentar do lado de uma velhinha, conversar com ela, com a minha experiência quase nula diante da sua, aconselhá-la, e fiquei feliz por estar sendo útil. Acho que no fundo eu amo que a genética seja só o início de todas as semelhanças que herdei de mamãe.

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