sexta-feira, 12 de setembro de 2014

A única exceção - o conto (parte II)

Como o prometido, aqui está a segunda parte do conto.

 (...) Dois meses depois de sua decisão tomada, porém, numa manhã de sábado, enquanto ainda dormia, Laura ouviu alguém bater em sua janela. Entre a sonolência e o susto, levantou-se rapidamente a abriu, ainda zonza. 
 - Laura, você não sabe o que aconteceu. - dissera uma Clara desesperada e assustada. 
 - O que aconteceu? - respondeu Laura, lerda e confusa. 
 - O Danilo foi preso. 
 - Como é que é? 
 - É exatamente isso. Eu acordei cedo hoje para comprar os ingredientes do almoço para mamãe, fui ao mercado e à padaria, e quando estava voltando encontrei a dona Lúcia aos prantos, no portão do prédio dela, sendo consolada por duas moças que eu não sei bem quem são. Então fui até lá e ela disse que os policiais o levaram nesta madrugada. 
 E sob o efeito dessa notícia Laura chorou um dia inteiro. Dentro dela, há muito, havia o medo de que isto acontecesse, ela sabia que mais cedo ou mais tarde o circo seria fechado. Ela também sabia, no entanto, que a esperança é sempre a última a morrer; e se agarrava a ela como quem depende disto para sobreviver. 
 Conforme os dias passavam, ela rezava e torcia para que, fosse da maneira que fosse, ele ao menos aprendesse e decidisse fazer as coisas diferentes quando saísse de lá. Pensar assim era um presente dela para si mesma, seu consolo. 
 Algumas semanas depois, Laura ouviu um barulho naquela mesma janela e alguma coisa sobre a agonia que a estava tomando nos últimos dias a avisara que notícias de Danilo chegariam. Desta vez não era Clara, mas Lúcia. Esta, com uma expressão dolorida e piedosamente triste implorou a Laura que escrevesse cartas para o seu filho que padecia na solidão de uma cadeia. 
 E assim foi feito, embora tal novidade não tivesse agradado nem um pouco aos seus pais. Mas Laura os havia convencido de que se tratava de um motivo de força maior. Ao escrever para ele, ela estaria ajudando alguém, se compadecendo da sua realidade de dor; mas, no fundo, ela sabia que isto era também uma forma de ajudar a si mesma a amenizar parte da angústia que a dominava constantemente desde que Danilo foi preso. 
 As cartas eram trocadas toda semana. Os pais da moça não permitiram que ela fosse ao presídio entregá-las, então a mãe de seu amado ia buscar cada uma delas semanalmente, no que já tinha se transformado em um ritual. Entre parágrafos molhados e saudosos, Laura contava a Danilo como estava sendo sua vida fora aquele lugar. Descrevia os dias de sol, os jogos de futebol que passavam na televisão, as suas impressões sobre os últimos filmes que tinha assistido, e, ela sabia, descrever a vida lá fora para Danilo, era uma forma de devolver a dele. 
 Embora para ambos a prisão houvesse tornado-se uma eternidade, bastaram seis meses para que ele estivesse de volta, embora tão mais marcado pelo preconceito e pelos maus tratos que recebera, tão mais sofrido pela consequência de ter escolhido ser o que era, tão mais revoltado com toda e qualquer coisa. 
 Os novos dias fora da prisão deram a Danilo a chance de recomeçar, a possibilidade de viver a vida de um jeito diferente, ainda que agora, por ser um ex-presidiário, as coisas tivessem ficado mais difíceis. Ter voltado a conviver com Laura o ajudava a esquecer as contrariedades da nova fase de sua vida. A parte dos dias que passava com ela era, para ambos, a melhor parte das suas semanas e dias. Apesar disso, a marca que Danilo trazia agora o tornara ainda mais teimoso do que já era, e o papel de Laura em ajudá-lo continuava da mesma maneira: difícil e ineficaz. 
 - Pra você é fácil dizer, eu vou arrumar um emprego medíocre só para todo mundo me aceitar de volta, então vou pagar de rapaz honesto e trabalhador, acordando e madrugada pra pegar ônibus e voltando sabe-se lá que horas, porque vai ter trânsito e essa coisa toda...
- É. É exatamente isso que eu acho. – interrompeu Laura – o resto do mundo faz isso. Todos os dias. Por que você tem que ser diferente?
 Então as discussões tornaram-se rotina entre os dois. “O mundo do crime é uma ida sem volta”, dissera seu pai, num infinito clichê cheio de razão. Laura sabia que ele estava certo, sempre soube. Mas, simultaneamente, sempre negou tal coisa para si mesma, como se fosse conseguir acreditar naquilo um dia.
 Na fuga constante da realidade esmagadora que a envolvia agora, Laura vagava entre os conselhos de seus pais para que se afastasse definitivamente de Danilo, e o seu medo do que viria a se tornar a vida do rapaz agora. Os boatos sobre roubos e assaltos voltaram a envolver o nome dele, e ela sabia, eles eram verdadeiros.
 Da última vez em que se viram, eles combinaram não tocar nesse assunto e não brigaram. Mas o peso da omissão de uma verdade tão presente e tão real fazia doer os ombros de ambos, e parte da felicidade que compartilhavam quando estavam juntos se perdia quando se lembravam do pesar que havia entre os dois.
 De volta à festa, com o fim do seu devaneio, Laura sentiu uma pontada ao perceber que agora, o que pesava, era a ausência de Danilo.
 - Domingo a gente se vê – ele dissera. E assim ela havia esperado.
As horas passavam lentas...  E cada minuto sem a chegada de Danilo a fazia se sentir mais e mais aflita. Ela segurava o celular como se nele contivesse sua sobrevivência; e nenhuma das chamadas que havia feito foram atendidas ou retornadas.
 Quando deu por si, estava na hora de ir embora. As luzes da rua já estavam se apagando, a maior parte das pessoas já tinha ido embora. Junto com ela havia apenas Clara, o irmão dela, e seu primo, João. Eles ainda estavam ali porque Laura insistira, mas agora parecia inevitável a volta pra casa.
A caminhada foi silenciosa. Laura seguia cabisbaixa e preocupada, e todos sabiam que ela estava certa em se preocupar.  Sabia que alguma coisa tinha acontecido, e que provavelmente a coisa não era boa.
 Com muito custo, depois de várias horas andando de um lado para o outro dentro do carro, ela conseguira dormir. Mas Danilo não sairia de seus pensamentos. Não tão cedo. No seu sonho, Laura o encontrara no mesmo lugar em que se conheceram; e ela o estava vendo caminhar em sua direção, magnífico como era. Seu olhar, no entanto, não expressava a certeza e autoconfiança que o seu Danilo expressaria. Dessa vez, em sua face havia medo e tristeza. Uma tristeza tão profunda que a deixou ainda mais triste. Foi aí que ela ouviu um familiar barulho na janela e, com um susto, levantou correndo.
 Abriu-a e encolheu os olhos diante da luz do sol. No entanto, o que doeu mais não foram seus olhos, retraídos, mas seu coração, diante da expressão de Clara, uma expressão ainda pior do que a última vez que a acordara com um barulho na janela.
- O Danilo morreu nessa madrugada. Eu sinto muito.

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