sexta-feira, 5 de setembro de 2014

A única exceção - o conto (parte I)

 Novecentas e trinta e cinco horas de viagem no carro dentro de uma mesma Nova York e eis que eu tive uma ideia.
 É evidente que eu passei um mês inteiro - e alguns dias mais - empacada com a bendita ideia, mas o importante mesmo é que eu a finalizei.
 Acho que já disse o quanto vivo procurando coisas para publicar aqui, e durante as férias não foi diferente.
 Pois bem.
 Estava eu, um alguém entediado no carro, ouvindo Los Hermanos alegremente, e aí, no no auge de uma conversa incessante comigo mesma, na busca pela publicação perfeita, a playlist do tio Camelo acabou. )=
 Foi assim que começou a tocar Paramore, e então, meus caros, no 25º "you are the only exception" TCHARAN: surprise. Uma ideia.
 Sim, uma ideia.
 Há séculos eu tento pensar numa história para dar início a escrita de contos, mas todas as ideias que eu tive até aqui não pareceram boas o suficiente. Mas agora, tudo mudou...
 Primeiramente, meu cérebro problemático cogitou a possibilidade de pegar a música e simplesmente discorrer sobre o pobre eu lírico desacreditado da vida, que escolheu não se apaixonar por ninguém até que determinada pessoa aparecesse e coisa e tal, e tal e coisa, mas esse papo de não acreditar no amor parece tão clichê e previsível!
 Na na ni na não, esta não seria a primeira história que eu viria a contar.
 Mas, oras, de tanto repetir que você (seja lá quem esse alguém for) é a única exceção, eu pensei em que tipo de exceção uma pessoa poderia ser para a outra, e foi assim que eu juntei a fome com a vontade de comer num flashback glorioso, digno da atenção dos cineastas hollywoodianos: me lembrei de uma história que já me contaram, maravilhosamente triste e apaixonante, em que duas pessoas foram, uma para a outra, simultaneamente, uma exceção.
 Vejam vocês se poderia haver coisa melhor?! Encontrei a história que há de render meu primeiro conto. E ela aconteceu de verdade. Ah. Dreams do come true. *coração derretendo de alegria*
 Pois então, depois de passar por algumas adaptações imaginativas deste alguém aqui, com vocês, a "incomentável" (e um tanto extensa) versão de The Only Exception, o conto!
 PS.: Tagarela como sou, transformei um conto numa história relativamente grande. Por esse motivo, dividirei esta publicação em duas partes: uma hoje, e outra na próxima sexta-feira.
 Divirtam-se! 
  
 Na viela atrás do Condomínio Sem Nome, onde a festa dos domingos sempre era organizada, Laura estava de pé, diante de Clara, mas jamais esteve tão ausente assim quando perto da amiga como estava hoje. Seus pensamentos e atenção estavam todos presos numa bolha, direcionados só e unicamente a Danilo, que estava atrasado já fazia 2 horas.
 Danilo era uma espécie de namorado, embora não oficialmente, uma vez que seus pais a haviam proibido de manter contato direto com o rapaz. No entanto, teimosa como era, lá estava ela a se preocupar com ele outra vez. Os dois haviam combinado de se encontrar na festa, assim como na primeira vez em que ficaram, e o tempo que ela estava passando ali a esperá-lo, aflita, fazia revezar um lugar nos seus pensamentos entre os motivos pelos quais Danilo ainda não havia chegado e a lembrança daquele eterno primeiro dia...
 Laura não tinha muita certeza sobre o que estava vendo, mas o rapaz a cerca de dez metros dela se parecia muito com o mesmo rapaz por quem se apaixonou platônica e perdidamente há alguns anos, quando toda a população feminina com a qual sua idade se assemelhava decidiu se apaixonar também.
 O nome do rapaz era Danilo, e ele era bonito, não poderia negar, se quisesse. Aliás, negar sua beleza era absolutamente impraticável naquele mundo onde todas as meninas enxergavam e queriam para si o dono daqueles olhos verdes e redondos, dos cabelos lisos e relativamente longos, e da beleza sobre-humana que o conjunto da obra representava.
 Sua paixão por ele, no entanto, tinha ocorrido quando ela nem mesmo pensava em sair de casa nos sábados para dançar até a manhã de domingo, como vinha fazendo nos últimos meses. Laura o achava bonito, e o admirava de longe ou de perto, quando se esbarravam dentro do condomínio em que moravam, ou quando ele passava do outro lado da rua, sempre apressado demais para perceber sua presença.
 Hoje, no entanto, Danilo era um alguém nem um pouco apressado, e a olhava direta e constantemente, desde o instante em que ela e Clara haviam decidido parar do lado esquerdo do palco.
 Olhos incessantes aqueles, pensava Laura. A intensidade com que esses olhares chegavam a ela a estavam perturbando e fazendo corar. Deus, poderia isto ser real? Danilo Ribeiro, o mago da beleza, divo e muso único de sua pré-adolescência inteira, a razão para suas pernas tremerem como alguém em convulsão, olhando para ela. Sim. Para ela. E, agora, vagarosamente caminhando em sua direção.
- Você é tão linda que merecia um beijo - dissera Danilo, do alto de seu pedestal.
- Não acredito que você estragou três anos inteiros de paixão platônica e uma hora de olhares inescrutáveis com essa cantada ridícula!
- Desculpa, não entendi.
 Ela bufou.
- Ah, melhor assim, deixa pra lá.
- Tudo bem, vamos começar de novo, você tem alguma coisa contra meninos dispostos a te pagar uma bebida e te roubar um beijo depois?
 E foi com essa sombra mínima de gentileza, mas, certamente interesse, que a história começou. Cinco meses depois, Laura tornara a festa dos domingos e esperava ansiosa pela chegada do rapaz que pagaria o seu refrigerante.
 A chegada do rapaz, porém, não minimizaria a tristeza de perceber que ele estava com outro carro, ainda mais caro dessa vez.
- Laura - gritara ele de dentro do veículo - entra, vamos dar uma volta.
- Que carro é esse Danilo? - respondeu Laura, irritada.
- Que pergunta idiota! Esse é o meu carro, caramba! Você nem vai me esperar chegar e já vai brigar comigo?
- Seu carro coisa nenhuma, você mentiu pra mim outra vez, você disse que não ia roubar mais!
- Eu não roubei, eu só peguei emprestado!
- Pegar emprestado sem autorização, para mim, é roubar.
 E foi em meio a brigas e mais brigas por esse mesmo motivo que os meses se passaram. Danilo tornara a roubar, e essa prática se tornava cada vez mais constante. Apesar do sentimento crescente entre os dois, a indignação de Laura não era suficiente para fazê-lo parar.
 - Você é melhor que isso. - ela dizia. 
 Mas nada o convenceria. 
 Domingos e mais domingos se passavam, e quando Danilo chegava a tradicional festa. Sempre com um relógio novo, presentes caros e infinitas tentativas frustradas de impressionar Laura.
- É o carro do ano, - ele disse uma vez - não acredito que você não está ao menos curiosa pra dar uma volta comigo.
 Resignada, ela respondia:
- Não tenho o menor interesse pelas coisas que você rouba. Você é melhor que isso, Danilo, quando você vai perceber? 
- Você é a única que pensa assim. 
 E a cada resposta malcriada de Danilo, a preocupação aumentava dentro de Laura. Ela não entendia como ele podia ser tão bondoso, carinhoso e gentil com ela e, ao mesmo tempo, fazer tantas coisas erradas. 
 Inevitavelmente, os boatos sobre a suposta má índole de Danilo começaram a cercar aos arredores do Condomínio Sem Nome, e tão logo os pais de Laura ficaram sabendo. Tamanha foi a aflição de ambos que Laura fora permanentemente proibida de conversar com o rapaz. Seus feitos já chegavam aos ouvidos de pessoas que nem sequer moravam no condomínio e, a cada dia, os boatos tornavam-se mais sérios e preocupantes. 
 - “Diga-me com quem andas que eu te direi quem és”, Laura. Nada do que você disser vai amenizar a situação deste rapaz. O Danilo é um mau elemento, um perigo para a sociedade e para você, eu não posso permitir que você continue imersa numa relação com uma pessoa assim. Quem vai sair machucada será você, minha filha. - Insistia seu pai. 
Apesar de ser compreensiva e boa filha, ela nunca aceitara completamente essas intromissões do pai.  Ele jamais enxergaria em Danilo a bondade e verdade que ela conhecia. Por trás de cada atitude impensada, havia um menino com medo, pouco amado pela sua própria família, perdido na confusão de não saber quem era e o que queria. 
 - Desiste dessa vida, Danilo. Eu posso pedir pro meu pai te arranjar um emprego honesto. Você provavelmente não vai ganhar muito, mas o dinheiro vai servir pra alguma coisa, e com o tempo você vai subindo na empresa, vai crescendo, você vai conseguir chegar onde você quer, mas de um jeito certo. 
 - Quem estabelece o que é certo ou errado? Você não entende, não é? Seus pais te lançam um sermão sobre o quanto eu sou um bandido e você só assente, você passa para o lado deles em questão de minutos...
 - Não tem essa de mudar de lado, você sabe que eles estão certos, você nunca vai conseguir nada realmente bom se continuar assim. Uma hora as consequências do que você está fazendo cairão sobre você, então você vai saber que eu só estava querendo o seu bem. 
 Embora fosse difícil para Laura se afastar dele, fora isso que ela havia decidido fazer. Sua consciência ameaçava pesar, mas então ela pensava que o avisara diversas vezes, e os seus conselhos e súplicas jamais foram suficientes para tirá-lo do caminho que escolhera. Ela sabia que seus pais tinham razão. Talvez esta fosse a coisa mais difícil que já fizera a vida toda, mas se afastar dele era a única solução que enxergava. 
 Dois meses depois de sua decisão tomada, porém, numa manhã de sábado, enquanto ainda dormia, Laura ouviu alguém bater em sua janela. Entre a sonolência e o susto, levantou-se rapidamente a abriu, ainda zonza. 
 - Laura, você não sabe o que aconteceu. - dissera uma Clara desesperada e assustada. 
 - O que aconteceu? - respondeu Laura, lerda e confusa. 
 - O Danilo foi preso. 
   Continua...

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