sexta-feira, 18 de julho de 2014

Quase um milhão de palavras sobre a efemeridade das coisas

  A efemeridade das coisas me assusta.
 Ontem, por exemplo, fiquei sabendo que um moço foi assassinado aqui no bairro, e eu, por nunca ter tomado consciência de algo desta dimensão com a mesma ou maior proximidade, levei um susto.
 Oras! Como é possível que nós permitamos uma realidade tão fria assim, na qual há uma parcela razoavelmente grande de pessoas que morrem todos os dias enquanto um número ainda maior delas não se importa, ou nem mesmo fica sabendo?
 Tudo bem, tornemos as coisas menos mórbidas: outro dia desses, na minha caminhada rotineira de volta para casa, na mesma “estrada” de sempre, eu passei pelo lugar onde costumava haver um barzinho que há alguns anos era para onde as pessoas iam no fim de semana, e onde hoje não há nada além de uma área isolada para obra, com uma estrutura de dias contados.
  Mas e daí?! O que tem de incomum nisso?
 Ah, leitor querido, ainda hoje aprendi que um poeta – no caso, uma cronista – se infiltra nos detalhes cotidianos que quase ninguém percebe (leiam Motivo, da Cecília Meireles para melhor entender), e eu encontrei algo sobre o que vale a pena falar nessa história toda.
 Acontece que eu comecei a pensar, e o meu cérebro não vacilou dessa vez, então... Aquele moço que morreu ontem, ele tinha uma família, amigos, alguém que se importava com ele de verdade; e esse alguém hoje deve estar tendo um dia difícil, triste, mas eu to numa boa! Até ouso dizer que meu dia foi bemm bom (as férias chegaram, caríssimos, vocês podem dizer aleluia para isto).
 O que eu estou dizendo é que todos os dias morrem pessoas. E todo dia alguém fica triste por perder alguém que amava. Mas o mundo não para. O resto das pessoas simplesmente não se importa, e isso é mais que clichê, isso é a vida como ela é de verdade.
 E cá estou eu, “morbidando” este texto outra vez.
 Várias vezes o clichê da morte, e aquele lance de “tratar bem as pessoas enquanto elas estão próximas...” e esse papo todo (que eu aposto que a mãe de vocês vos contou quando fizeram mal criação pra vovó) me fez pensar sobre o quanto tudo é efêmero, passageiro, momentâneo...
 Quando eu tinha 11 anos aquele barzinho era legal, e hoje não é mais. Ele deixou de existir e acho que posso dizer que quase ninguém sente falta, porque outros barzinhos surgiram, e isso é a vida, é o show continuando...
 E aí, com tudo isso, eu pensei em sentimentos. Existe coisa mais efêmera que isto? O simples ato de sentir... Ter um sentimento para cada circunstância, cada pessoa... E, o mais importante, quantas coisas fazemos ou deixamos de fazer impulsionados pelos sentimentos????
 Ah, meu Deus, e quantos erros a gente não comete ainda pela mesma razão?
 Por ter-se tratado de morte, me acometeu a questão do esquecimento. Quero dizer, esse moço “morrido”, será que nos instantes precedentes ao ato da morte ele não sentiu medo de ser esquecido?
 Que confusão eu to fazendo, socorro. Por favor continuem na estradinha da perseverança, amiguinhos. O fim está próximo (e em breve a confusão será desfeita), eu prometo.
 O medo de ser esquecido depois da morte fez o Gus de A Culpa é das Estrelas levar consigo por toda uma vida o propósito de fazer algo que ficasse marcado, para que junto com a coisa que ele fez, seu nome permanecesse vivo.
 Ele conhecia a efemeridade das coisas, da sua existência, da capacidade mundial de lembrar somente de um único melhor ator que ganhou o Oscar, um único jogador de futebol que foi eleito melhor do mundo, uma única banda que ganhou o Grammy, e nunca dos segundos, terceiros, quartos lugares... Mesmo sabendo que até este um seria esquecido em breve. Isto é a efemeridade na sua forma mais simples. 
 No entanto, para aqueles que, como eu, se deixam guiar pela efemeridade dos sentimentos, no caso de um erro, haveria presente maior que o esquecimento? Acho que Leminski previu minhas emoções e divagações, porque lembro do seu poema que diz assim:
“um dia sobre nós também 
  vai cair o esquecimento 
  como a chuva no telhado 
  e sermos esquecidos 
  será quase a felicidade”
  Cá estamos então, entre o sim e o não. Se escolho uma justificativa, imediatamente dispenso a outra, e vice-versa. Uma resposta será lembrada e a outra não. Olha só a efemeridade dando tchauzinho para vocês da janela de sua casa...
 E acho que o Leminski, seja qual for o lugar no céu onde ele se encontra, está especialmente disposto a aparecer nessa publicação, porque agora eu o escuto dizendo “as certezas o vento leva, só dúvidas continuam de pé”. E de fato, o vento leva tanta coisa... aliás, não era sobre isso que estávamos falando? A efemeridade das coisas como das folhas do outono, que são levadas pelo vento e blá blá blá?
 Pois bem. Então acho que é mesmo assim. Aprendamos a amar as duvidas então, já que são elas que sempre permanecem. 

3 comentários:

  1. Lindo, magnífico, causa tristeza e esperança... tristeza por ver, pelos olhos da escritora, a realidade de nosso mundo, como somos pequenos e efêmeros, como as coisas passam despercebidas e as mudanças chegam, sem que delas saibamos... ESPERANÇA, enfim, é o que a crônica traz, tb pelos olhos da escritora, em sua sensibilidade de buscar nos mínimos detalhes e nos ensinar a "ver", tocar a consciência de como é importante valorizar cada ser humano e cada momento da vida.

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  2. "Eu gosto de catar o mínimo e o escondido. Onde ninguém mete o nariz, aí entra o meu, com a curiosidade estreita e aguda que descobre o encoberto".

    Machado de Assis, nosso mestre!

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  3. hahaha essa frase tem a cara do Machado! Obrigada, Wagner, pelo comentário. Fiquei muito feliz de ler isso e saber que a mensagem foi passada com êxito!

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