terça-feira, 15 de julho de 2014

A sementinha da humanidade

 A humanidade, meus caros, ela é como uma sementinha de planta...
 ... Ela está lá, na grama, na moral, curtindo um sol, e você nem liga pra ela. Ela não te ajuda a tirar nota boa na prova de matemática, nem te dá idéias pro livro que você quer escrever, então que ela fique lá, e você aqui. Tudo numa boa.
 Assim ela permanece.
 Fica lá, no quintal da sua casa. Ou no jardim da frente.
 E isso não quer dizer nada, porque, para que você não precisa regá-la, a chuva a rega por você; e o sol lhe oferece a luz,não é como um bichinho de estimação que precisa ser alimentado pelas suas mãos, ela não depende de você pra crescer...
 Além disso, ah, é claro, não é necessário prestar atenção nela,  você tem o vestibular pra se preocupar. E trabalhos a entregar. E filmes para ver. Livros para ler. A vida alheia para assistir...
 E a pobre e desprezada semente de humanidade vai crescendo. Subindo pela parede da casa que nem a dona aranha. Da mesma maneira que o formigueiro que apareceu no pinheirinho aqui de casa. Formiguinha por formiguinha foi fazendo a sua parte, e quando se viu, lá estava. Um formigueirão. Produto da união. Chuva cá, sol lá, e uma árvore firme da essência humana se fortalecendo. Adulta. Robusta. Influente. Silenciosa.
 E quando você vê, de repente tem uma “arvorezona” lá! Ela é imensa, maior que você, mais forte, mais sólida, mais constante, quase mais poderosa, e se enraizou no seu quintal. Agora ela te diz o que fazer. Ela te manda guardar rancor, te obriga a sentir raiva, te leva ao ápice do nervosismo, te faz pagar pela sua ansiedade, dita as regras do seus relacionamentos interpessoais, decide se você deveria ou não gostar de alguém, diz que uma “invejinha” é normal...
 Agora o que é aquela semente se não um gigante? Uma coisa grande e poderosa, o seu algoz, a sua mãe numa versão mais dominadora e menos interessada pela sua felicidade.
 Ahh... não, ninguém de fato se importa com a nossa felicidade além de Deus e nós mesmos, e agora essa arvorezinha parasita descobriu como suga as suas energias e não para mais. Não te pede permissão. Suga energia, alimento, paz, serenidade, boas vibrações... Mas ninguém quer viver assim, não é?
 Dá-lhe veneno contra pragas!
 Pega a serra elétrica e corta a árvore fora, mas deixa a raiz, porque ela já está “profunda demais” para ser capaz de ser retirada.
 Aí você vai, se sente dono da casa outra vez, se enche de amor, consegue enxergar o lado bom da vida, reza. Fica dois, três, quatro dias livre do mau humor... missão cumprida.  Amor ao próximo. Nada de rancor, nada de irritação, nada de amigos que não são amigos, nada de falta de paz, só serenidade. Árvore cortada, harmonia interna e externa restaurada, tudo em paz! Tudo são borboletas. Nada de plantas.
 É quando o estresse faz o caminho de volta. Seu dia foi extremamente cansativo, e não há forças para manter aquela vibe bacana de antes. Você percebe que a sua humanidade não saiu de você, ela só tirou férias. E agora quer voltar ao trabalho.
 Estás cheio de novo, mas desta vez é de agonia, ansiedade, preocupação, revolta, impaciência, e você se dedica a estes (nem tão) novos hóspedes. Lhes dá de beber e de comer, oferece a melhor cama, dá-lhes as melhores vestes, e esquece do jardim. Deixa que eles habitem sua casa. Que eles escolham qual vai ser o café da manhã, o almoço e janta. Você dá-lhes poder.
 É dessa maneira que plantinha cresce outra vez. Sua humanidade está lá, firme, forte; maior do que nunca, ditando as regras outra vez. Três metros de frutos nem um pouco bem vindos, centenas de células vegetais do que nos é nocivo, milhares de milhões de pequenos átomos que atiçam a letargia de sermos humanos e sabermos que somos. É a anestesia que nos impede de sentir a ânsia pela mudança positiva...
 E então, meu caro(a), cabe a você determinar a morte ou a vida de tal plantinha. Insistir ou resistir, eis a questão. 

Um comentário:

  1. AS TRÊS SEMENTINHAS


    “E conheça, enfim, o que em si é Belo.”
    (Platão - O Banquete)


    ERAM três sementinhas plantadas debaixo da terra.
    Estavam ali por acaso - Pensavam. Não sabiam como ou por que foram lançadas a um lugar tão escuro. Desconheciam o sol, o dia, o brilho das estrelas e a claridade do luar. Ouviam, às vezes, o cantar de um pássaro. Não compreendiam. Pensavam que era a terra quem cantava. Não imaginavam que havia uma infinidade de coisas a serem descobertas acima delas.

    Conheciam o mundo inteiro naquele pequeno pedaço de chão: para elas, o mundo era apenas o que se podia ver ou tocar.

    Assim passavam os dias.

    Certa vez, uma gotinha d’água conseguiu escorregar bem devagarzinho pelas frestas do solo e bateu de cheio nas sementinhas. Foi um dia de luta. Elas passaram muito frio e quase adoeceram após tamanha enxurrada.

    O tempo passou. A terra ficou novamente aquecida - Presente do semeador para a semeadura. E uma das três sementinhas ficou tão agitada que escolheu, apesar das incertezas, descobrir de onde havia vindo aquela gota d’água que as encharcou.

    - Vamos! Deve haver alguma coisa diferente lá em cima - dizia, apontando para o alto.

    - Tolice, não existe nada lá, além de terra e mais terra, que já conhecemos! - respondiam as outras.

    - Mas vocês não têm curiosidade em conhecer algo novo? - insistia a sementinha.

    E as outras falavam:

    - O mundo é apenas isto que vemos, o que os nossos sentidos alcançam. Esta é a nossa natureza, e não podemos fugir a ela. Devemos aceitá-la como a única verdade lógica existente.

    Mas a sementinha, que não se conformava mais com uma idéia tão limitada de mundo, quis se aventurar. E, com toda a coragem, começou a subir... subir... subir... até que, encontrando o limite entre a terra e o ar, sentiu o calor do sol batendo em seu rosto e viu os raios luminosos do dia pela primeira vez.

    Ficou assustada. Não imaginava que pudesse existir algo assim tão belo.

    Começou a conhecer o mundo, as coisas, as cores, as folhas, as flores, os rios, as árvores e o sopro do vento.

    Em tanto encanto olhou para si mesma... E percebeu que também havia mudado. Já não era mais uma semente, era um broto, uma folhinha verde crescendo... E viu que tudo isso era bom: o amor é uma melodia silenciosa que toca mais fundo na alma, vai além do coração. E que para amar é preciso conhecer e também respeitar aquilo que se vê.

    Como contar às outras o que descobriu? Não poderia mais voltar. Mesmo se voltasse elas não acreditariam.

    Era grandioso demais tudo o que havia encontrado. Tão diferente daquela covinha escura e quase sem vida debaixo da terra. Contudo, era ainda lá que mantinha suas raízes, que lhe davam forças para ficar de pé e energia para viver. E isso também era bom.

    Quando chegou a noite, a lua clara iluminou o céu e as estrelas brilharam intensamente. A “sementinha em folha” viu que ainda havia muita coisa para conhecer e para amar. E, mesmo que viesse a sofrer por isso muitas vezes, valeria à pena.

    Sim, valeria à pena doar todo o seu perfume e toda a sua essência aos braços do infinito céu azul, cheio de mistérios e estrelas cintilantes.

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