domingo, 13 de abril de 2014

Sobre o pecado e outros vilões

 Eu fui o tipo de criança que visualiza pessoas ruins somente como vilões de desenho - e as vezes nem isso.
 Quero dizer que eu me colocava no lugar do super malvado Doofenshmirtz (que não passa de um cientista solitário, mal amado e mal compreendido), ou então questionava a razão pela qual o Lula Molusco era um mal humorado que sempre renegava a amizade do Bob Esponja, e sempre encontrava razões para não julgá-los ruins, pensando, por exemplo, que obviamente não ia querer ser amiga de um alguém com a voz tão chata que nem a do Bob Esponja. E no fim, o único vilão em que eu realmente acreditava era o banho, porque me tirava de frente da TV na hora em que finalmente começava As Três Espiãs Demais.
  Acho que essa inocência que a gente deixa lá na 2ª série é uma das maiores perdas que se tem nessa vida.
  Tô falando de uma perda séria! Profunda. Irreparável. Assustadora.
  Digo, quando alguém se refere à  idade adulta, esse alguém pensa numa personalidade séria, responsável, que paga contas e não acredita em Papai Noel; que acha graça em livros cheios de fantasia, em vez de enxergá-los com encanto e admiração, e querer fazer parte da história só pra ter um superpoder. Pensa-se em alguém que não brinca mais de boneca e nem pique esconde, e que, obviamente, também não finge que tic tac é remédio.
  Alguns de vocês não devem saber, mas hoje inicia-se a Semana Santa. Inicia-se uma semana vigilante de oração, silêncio, sacrifício, arrependimento, conversão...  E, feliz ou infelizmente, ela começou há aproximadamente 2 mil anos atrás por causa de um só vilão: a falta de amor. Sim, porque, pra mim, toda forma de pecado é uma forma de falta de amor.
  Hoje, na Missa, eu me senti "adulta" porque reconheci um vilão diferente do banho; reconheci um vilão que nos rouba a coisa mais importante dessa vida: o amor ao próximo; porque sem o amor, milhares de pessoas imploraram a Pilatos que Jesus, O Filho de Deus, fosse morto crucificado. Sem ele nós crucificamos a Deus todos os dias, agindo com impaciência, com intolerância, com falta de perdão, com falta de esperança, com falta de fé!....
  Me revolta e assusta pensar que pra ser a adulto a gente precise ser severo, sério, cercado apenas de responsabilidades e encarar a vida num tom de preto e branco, sem enxergar o cuidado de Deus em cada detalhe, desde as coisas mais simples até aquelas que nos fazem repensar a nossa vida. Me assombra a falta de amor com que nos tratamos hoje em dia, e o quanto a gente ignora o sacrifício mais lindo e mais honrável que qualquer outro: Deus doou Seu Filho Único, para morrer por nós numa cruz, sem a menor misericórdia de alguém diferente que a Sua mãe, sem a menor coragem vinda de alguém cuja fé não aceita injustiças e nem se omite. 
  De vez em quando (várias vezes, pra ser sincera) acho alguma coisa que presta no tumblr, há bastante tempo achei uma frase do Bukowski que diz assim:
 "De algum modo, sentia que estava ficando meio maluco. Mas sempre me sentia assim. De qualquer forma, a insanidade é relativa. Quem estabelece a norma?"
 E transferi a pergunta para um outro contexto... Digo, por que os adultos têm que ser sérios, precisam não acreditar em Papai Noel, não possam acreditar (ainda que por um segundo) nas fantasias que os livros contam,  precisam se ocupar mais e mais com trabalho sem parar pra pensar em ser misericordioso, ser tolerante, amigo, justo, ser de Deus? Quem estabelece a norma?
 Aonde está escrito que "depois que cresce" a gente não precisa mais acreditar no Papai do Céu, a gente não precisa mais rezar quando acorda e antes de dormir, a gente não precisa ir a igreja receber uma Eucaristia além daquela que se recebeu quando tinha 8 ou 9 anos?
 Por que a gente cresce e esquece que é importante trabalhar mas também é importante dedicar-se a Deus, e por que a gente deixa as situações difíceis do dia a dia nos afastarem das boas ações, dos bons sentimentos, dos bons pensamentos, das orações?
 Uma vez, quando eu tinha uns 6 ou 7 anos, fui num churrasco com meus pais. Nesse dia, estavam vários amigos de trabalho deles sentados a mesma mesa que eu. Um deles perguntou "Gabriela, você quer ser adolescente?", então eu olhei pra minha mãe e disse "mãe, adolescente paga aluguel?" e minha mãe respondeu que não, e aí eu disse "ahh então eu quero". Dessa vez, posso ouvir uma voz me perguntando "Gabriela, você quer ser adulta?", então eu perguntaria "adulto precisa ser sem fé?", e se a resposta fosse sim, eu diria que não.