quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Uma constatação

 Acho meio chato que algumas vezes um fluxo intenso e inexplicável de sentimentos ocupem - completamente - meus 1,55m, porque junto com ele vem uma vontade não definida (e obrigatoriamente confusa), que leva minha mente já relativamente perturbada a desejar uma maneira capaz de verbalizar - e expulsar - pelo menos parte de toda essa confusão.
 Obviamente, nem sempre o objetivo é atingido, e são nessas horas que o fluxo de sentimentos se transforma em uma frustração intensa e aparentemente infinita.
 Contudo, a boa notícia é que circunstâncias como essas exigem o bom uso do cérebro (pra organizar a parada, e tal), e portanto, ensinam! Vejam vocês: andei percebendo que frustração pode ser curada com 400g de diamante negro, e/ou revertida em falta de concentração pra ler.
 Desinteressante, eu sei.
 Acontece que escritores dependem de inspiração, e acreditem se quiserem, ela sabe ser cruel. Basta que reparem o contexto em que eu vim parar.
 Por tudo isso, porém, e a fim de favorecer a sua paciência na caminhada de leitura deste mesmo post em busca de um parágrafo do qual seja possível extrair algo útil, mudo o rumo da nossa prosa para a defesa da nova teoria que minha falta do que fazer (também conhecida por férias) me permitiu alcançar: a gente sempre sabe o que precisa fazer.
 Isso não é uma conclusão, nem uma sugestão. Isto é, só e simplesmente, uma constatação.
 Enquanto confabulava comigo mesma, acabei lembrando de quando tinha uns 5 anos e minha mãe disse que eu não podia ficar em pé na cadeira porque ela era feita de plástico, não suportaria muito peso (indiretamente falando do meu formato de bola na época), e algum dos pés dela quebraria caso eu insistisse em fazê-lo. Pois bem, aviso dado. Bastaram algumas semanas para que eu quisesse qualquer boneca que não fosse a que ficava em cima da minha cama, mas a que estava na prateleira alta do quarto, pra subir na bendita da cadeira e terminar estatelada no chão com uma mancha vermelha - que ficaria roxa - quase maior que a minha perna.
 Claro que eu sabia que não deveria subir na cadeira, minha mãe já tinha avisado, e só precisava chamá-la e pedir "mãe, pega aquela boneca pra mim", mas quem disse que um alguém de 5 anos gorducha e bem resolvida queria ser dependente?! Aliás, por que pedir a minha mãe pra pegar um brinquedo que estava no alto, se eu tinha tantos outros no baixo, e sabia que ela diria "brinca com os que estão aí"?
 Acho que a vida, entre tantas outras coisas, tem a função de ajudar o ser humano num de seus ofícios mais queridos, relacionados a "enrolar sua mente em volta das coisas e encaixá-las na sua versão de realidade"*. Explico já.
 Eu sabia o que devia fazer. Sabia que devia pedir a minha mãe ou outro alguém grande o suficiente na casa. Porém, a minha vontade de escolher a boneca que estava no lugar mais difícil fez com que eu ignorasse a voz da razão dentro da minha cabeça, para convencer a mim mesma de que se eu não fizesse, minha mãe não faria, e nada no mundo seria capaz de suprir a minha vontade de brincar com a boneca que estava no alto.
 Acho que a gente tem mania de fazer o que quer fazer, pra tentar "matar a vontade", e aí suprimimos o que sabemos que seria certo fazer. Acredito que seja o mesmo mecanismo que nos move na hora de comer a sobremesa antes da comida, mesmo sabendo que depois não vamos comer direito, porque a barriga vai estar cheia de sobremesa. 
 Por me render facilmente à sobremesa antes da comida, ainda não encontrei um jeito de tornar possível o fim da luta contra a voz a razão que vive dentro de nós. Contudo, depois de tal constatação, como explicado anteriormente, me sinto mais esperançosa quanto a essa procura por uma solução, visto que sempre tive a minha mãe pra dizer "não sobe na cadeira" ou "sobremesa só depois do almoço", e por isso vou acrescentar às minhas orações um pedido especial: que não falte alguém pra auxiliar a parte de mim que sabe o que é certo fazer, e aconselho vocês a seguirem meu exemplo. 

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Sobre Como Dizer Adeus em Robô

  Sempre esqueço de dizer o quanto sou grata ao primeiro post desse blog, o qual avisa, na primeira linha do último parágrafo, o quanto eu não tinha certeza sobre a freqüência das publicações por aqui. 
  E (quase) um mês depois, cá estou. Sem perder mais tempo, tratemos do que interessa!...
  ...Tentei várias vezes começar este mesmo texto, mas em função da turbulência de sentimentos - vulgo ressaca literária - pela qual passei, não consegui dar sequência ao fluxo inacabável de palavras que surgiram na minha cabeça. Então, de acordo com as normas de entendimento do leitor, preciso informar-vos que esta publicação é inspirada em Como Dizer Adeus Em Robô, da Natalie Standiford, publicado pela Galera Record - um dos livros de maior estima no coração de leitora desse alguém que digita.

 Pois bem, começo dizendo que sinto necessidade de enfatizar o quão difícil é resenhar um livro do qual muito se gosta, porque as vezes a nossa relação pessoal de identificação com a narrativa influencia a opinião, e eu não quero ser injusta.
 De início, Como Dizer Adeus em Robô despertou a minha curiosidade pelo título, depois pelo início totalmente absurdo e cômico, e aí então a narrativa leve e engraçada, que também sabe ser séria e muito mais ainda pelo enredo definitivamente original.
 Trata-se, a princípio, da história de Bea, filha única de um casal bem peculiar, que vive se mudando graças ao ofício do chefe da família - um professor que sempre está a procura de subvenções maiores ou alunos mais inteligentes.
 O nomadismo da família na busca da satisfação pessoal-profissional do pai provoca em Bea uma solidão constante, um relativo desinteresse por uma vida social, e o apelido de “garota robô”, derivado – segundo sua mãe – da falta de sentimentos com que Bea encara a vida.
 "Por que eu não me importava? Talvez minha mãe estivesse certa, afinal de contas. Ela dera à luz um mutante. Meu coração era frio e duro. (...)"
 Contudo, o rumo da história muda a partir do momento em que a família chega a Baltimore, e Bea finalmente parece deixar de ser um robô para se importar verdadeiramente com alguém: Jonah, o garoto fantasma. A esta altura, a história contada passa a ser sobre a relação de entendimento mútuo, e – certamente - amor entre os dois.
  "— Por que está com tanto ciúme? — perguntei. — Não é como se você fosse meu namorado nem nada. Você é?— ”Namorado” é uma palavra tão idiota — falou Jonah. — Não, não sou seu namorado. Achei que estávamos muito além disso. O que somos não pode ser descrito por palavras triviais como “namorado” e “namorada”. Até mesmo “amigos” não chega nem perto de descrever."
 Confesso que muitas vezes fiquei sem saber o que sentir enquanto lia, porque de tão melancólica, a história acaba sendo engraçada, mas achei que seria falta de respeito com o sentimento dos personagens (que me cativaram imensamente) rir de tamanha infelicidade, e preferi ficar triste junto com eles.
 Não quero mais dizer muito sobre a história, porque Como Dizer Adeus em Robô me fez lembrar um trecho de A Culpa é das Estrelas, que diz assim:
 “Às vezes, um livro enche você de um estranho fervor religioso, e você se convence de que esse mundo despedaçado só vai se tornar inteiro de novo a menos que, e até que, todos os seres humanos o leiam. E aí tem livros (...), do qual você não consegue falar - livros tão especiais e raros e seus que fazer propaganda da sua adoração por eles parece traição.”
 E este parágrafo imprime só e simplesmente os meus sentimentos em relação a ambos os livros.
 Acredito que o maior e real atrativo de Como Dizer Adeus Em Robô seja sua aptidão para ser o tipo de livro que faz o leitor querer ter um lugar preferido, um programa de rádio com ouvintes que acreditam viver no futuro, e uma amizade ou um namoro ou um tipo raro de amor que não se prende a convenções, que faça jus ao que somos em nossa essência - se ela for boa. 
 E por fim, em nome de toda a minha falta de satisfação perante a descrição desse livro, deixo o link de uma resenha que resumiu grande parte dos meus sentimentos em relação a história aqui.