segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Vários macacos no mesmo galho

 Desde pequenos somos condicionados à competição. A influência capitalista sobre nós vai muito além de um modelo econômico. A economia interfere no social sim, mas esse não é o fator determinante do quesito cabo de guerra. Este se trata também do que somos na essência, quando não ignoramos o fato de “termos vindo do macaco”. Somos animais. Mas não todos macacos. Alguns são girafas, grandes e um tanto inúteis; outros são elefantes, esmagam qualquer um com o peso de suas ambições; outros ainda são éguas, que empurram seus filhotinhos até que eles consigam ficar de pé por si próprios, entre tantos outros.
 Somos uma população dentro de uma floresta capitalista. Todos reunidos em torno das mesmas plantas, do mesmo solo, disputando seus frutos por uma questão biológica e “infugível” de sobrevivência.
 Há quem diga que as maiores e mais belas árvores são as do dinheiro, o combustível sanguinário pelo qual as pessoas pisam umas nas outras sem o menor pudor. Outros, um pouco mais sensatos, encontram encantamento na árvore do trabalho, por afirmar que é ele quem “enobrece o homem”, o que não deixa de ser uma desculpa para trancar-se numa reclusão de tarefas lucrativas, e enfim alcançar a velha e boa árvore monetária. Mas há ainda aqueles mais criteriosos, que ao esbarrar-se com os frutos do amor e da amizade, se descobrem. E partir daí, percebem tudo o que o dinheiro pode oferecer não é nada perto do bem estar da alma, que só um amor e uma amizade verdadeira pode dar.
 Talvez não seja como as pessoas gostam de dizer com aquela historinha de estarmos condenados ao progresso. Vivendo e aprendendo. Vivendo e evoluindo. Sempre crescendo. O limite é o céu.  Atualmente, penso que, na verdade, nossa história tem mais a ver com a metáfora da roda gigante: algumas vezes por cima, e outras por baixo. De vez em quando crescemos, mas na metade do tempo voltamos a ser o que éramos: meros animais na busca pelo estabelecimento seguro. Seja no quesito sobreviver, ou no quesito social, quiçá no profissional e assim por diante.
 O mundo de hoje está subordinado à busca por mais. Só o que não entenderam ainda é que nem sempre o “mais” significa efetivamente evolução.
 Ao longo do Ensino Médio, nossas cabeças são atordoadas todos os dias com a proposta de um resultado no vestibular que, em teoria, só depende de você. Várias vezes esquecemo-nos dos fatores climáticos que perturbam a frutificação na floresta; dos predadores que são mais rápidos e mais dispostos que você para determinada tarefa (ou estudo); dos limites de cada um no que diz respeito a continuar na incansável busca pelo sucesso, sem que as frustrações nos abalem, sem que a distração nos atrapalhe, sem que a fadiga nos vença.
 Esquecemo-nos de que, de vez em sempre, massacramos sonhos alheios em nome dos nossos na procura por mais. Ser classificado pelo vestibular significa excluir outro. Chegar primeiro na árvore mais frutífera significa roubar alimento do outro. E nessas situações, às vezes as nossas preocupações sejam um sinal do nosso lado bondoso querendo ser mais forte, e impedir tantas atrocidades em busca do sucesso tão cobiçado. Ser um animal grande e forte, significa ser predador de outro. E no fim, não percebemos que somos todos iguais, apenas procurando um pouco de comida, a felicidade, proteção...
Em alguns momentos, acreditamos piamente que para isso não há remédio. “É a vida”, eu consigo ouvir alguém dizer. “A vida não é justa”, outra pessoa diria.
 Apesar de ateu, o Existencialismo muito me agrada por ter uma vertente filosófica que afirma, sobretudo, a liberdade e responsabilidade de cada um sobre todas as suas escolhas e atitudes. Sou livre para decidir por mim mesma, optar sobre o que fazer ou não. Sendo a consequência boa ou ruim, eu escolhi o que fazer, a responsabilidade é minha, e eu devo arcar com a mesma. Não há uma ação do destino ou de Deus (o que explica o ateísmo anteriormente citado) que influencie no que acontece. Tudo o que acontece são resultados de escolhas humanas, somos o que fazemos, o que decidimos, a maneira como reagimos. E devemos aceitar nossa responsabilidade sobre tal.
 Essa filosofia me leva a pensar na nossa vida competitiva. Seja ela impulsionada pela nossa essência animal ou a presença do capitalismo, a responsabilidade é nossa. O que nos diferencia dos outros animais, e faz muitos se gabarem, é o fato de pensarmos. Temos escolha sobre ser cruel ou não, agir como elefantes passando por cima dos outros com o peso das nossas preferências baseadas no que nos é mais conveniente ou não, massacrar nossos próprios sonhos ou sonhos dos outros ou não, fazer como as éguas que empurram os filhotinhos para que consigam ficar de pé ou não.

 Sim, o mundo é cruel. E a vida não é justa. Mas a responsabilidade é nossa também. Aliás, a responsabilidade é toda e somente nossa. 

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Crônica da psicologia

 Descobri uma nova paixão. Uma que engloba quatro. Talvez a paixão mais influente dos últimos tempos. E esses novos amores têm nome, sobrenome, um gênio próprio, e um símbolo representativo. Apresento-vos, então, meu novo objeto de adoração: Psicologia ; e seus seguidores, Freud, um tridente e Warner (Aaron Warner).
 Pois bem.
 Há aproximadamente um ou dois meses, eu li Estilhaça-me, da Tahereh Mafi, publicado pela editora Novo Conceito. E o livro me deixou num estado tão arrebatadoramente inebriante e entorpecido de amor que não consegui verbalizar minhas impressões numa resenha. No entanto, minhas expectativas foram absolutamente supridas e quiçá superadas por tal obra, isso precisa ficar claro.
Esta semana, terminei o segundo volume da série, e só dei esse espaço entre um livro e outro, porque precisei (“suadamente”) juntar dinheiro para tal. Heheheh Mas o que de fato importa, é que, no segundo livro, minhas expectativas foram a Marte quando, sob o efeito das palavras da autora mais incrivelmente capaz de descrever sensações na atualidade, eu me apaixonei platônica, perdida e inutilmente pelo Warner.
 O que, sobre o livro, vocês precisam saber (além do fato de eu já estar morrendo de ciúme pelos possíveis leitores de tal obra que esta publicação pode acarretar), é que o moço Warner é alguém mau. Ou talvez nem tão mau assim. Em suma, ele tem um trauma psicológico agudo e, eventualmente, irreversível.
 Tenho tantas idéias borbulhando aqui que quase não estou conseguindo continuar. Mas tentemos.
  Dando uma viajada das grandes, na recente aula de filosofia, aprendi uma coisa interessantíssima, psicologicamente falando: todas as nossas manias, ou parte delas, são, na verdade, uma maneira do nosso cérebro suprir alguma carência (recente ou distante) ou libido.
  Sim, amigos. Quanta confusão. Quanta falta aparente de sentido. Quanta psicologia. Quanto amor!
  Voltemos.
 Foi pensando nesta teoria, por hora louca, mas absolutamente essencial no meu histórico de pessoa divagadora, que eu repensei minhas manias para encontrar então a minha carência que ficou perdida em algum lugar na minha história.
  E, assim, eu retomo o sentido do texto, contando-vos que: foi através dessa trilogia que percebi a minha atração recorrente e permanente por personagens literários com traumas psicológicos. Então comecei a pensar se a psicologia não explicaria, também, o porquê dessa minha atração por traumas psicológicos. Recorri ao psicólogo mais próximo, ou futuro psicólogo, e descobri que:
 “ Geralmente, em livros, o personagem transpõe ou é afetado por alguma característica que o torna único. Os que possuem traumas psicológicos quebram a lógica do mocinho, e tornam tudo mais interessante. Então o fato de os livros explicarem isso sobre o personagem e justificarem sua conduta ou paixões através desses traumas, nos aproxima deles, e além disso, os deixam mais humanos, mais reais. O que é uma pista é da [minha] vontade de sempre entender o personagem como um todo, se enveredar por ele e supor sobre ele mais do que dizem as palavras, vulgo se apaixonar”  - (Caio Fernando Abreu) [ehehehe brincadeirinha, essa citação é do Caio Albuquerque Jardim, ótimo psicólogo, recomendo]
  Por muito tempo eu pensei que traumas psicológicos não fossem tão reais, ou talvez, tão graves.   Mas o fato é que esses livros, entre outros, me ajudaram a entender que essas coisas existem. São sérias. Deixam danos quase ou tão mais sérios quanto um tiro no cérebro.
  E aí, eu pensei nos meus traumas psicológicos, e decidi, finalmente, concluir a crônica que tento terminar há anos sobre julgamentos, porque descobri, sobretudo com ajuda desses dois livros, que o julgamento em si determina muitos traumas.
 A facilidade com que sempre julguei os traumas psicológicos como coisas banais e presentes em pessoas fracas, me faz agora cair por terra, uma vez que vi por dentro de cada personagem e os enxerguei como pessoas reais. Como seres humanos que sentem tanto quanto eu. Que têm sangue correndo nas veias e uma cruz para carregar todo santo dia.
 Eu já pensei muito sobre essa questão de julgamento antes, quando, mais uma vez, a pessoa julgada em questão era eu. Infelizmente, ser a pessoa julgada não me exclui do posto de pessoa julgadora em outras situações, e como a gente precisa saber reconhecer os erros, afirmo-vos: sou parte da imensa multidão que se rende à facilidade tentadora de decidir a vida do outro por ele, e saber, irrefutavelmente, como este deve se comportar ou agir diante das intempéries e banalidades da vida.
 Agora, porém, decidi que não posso mais me calar diante de tamanha insensibilidade humana, e clamo por misericórdia numa desesperada tentativa de fazer as pessoas pararem de fazer isso, embora eu saiba que sou quase um ninguém nesse mundão de meu Deus. Esse direito não cabe a nós, e isso precisa estar esclarecido como um limite, e bem como tal, respeitado.    

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Tinha uma confusão no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma confusão...

 Há algum tempo decidi que queria ler Clarice Lispector. Não o fiz. Aliás, já perdi as contas sobre as coisas que a gente quer e não vai realizar. Pretender é, de fato, uma pretensão. E sobre isso, penso deveria haver um nome pra tristeza que se concretiza quando percebemos, com certo pesar, que a maior parte dos nossos planos hão de ficar somente nas nossas cabeças (Talvez esse nome já exista. E seja frustração. Mas eu estou verdadeiramente cansada dessa palavra; então, por favor, inventem outra).
 Ignorando tamanho desalento, quis ler Clarice Lispector porque em todos os artigos que eu já li sobre ela diziam que as suas confabulações tem o hábito de procurar incansavelmente o seu próprio eu. E sobre isso, meu livro de literatura diz: "Clarice Lispector, a busca incansável pela identidade"...
E será que tem coisa mais legal que isso?
 Digo, quem somos nós? E o que nos torna o que somos? Qual é a parte de mim que eu desejo mudar, e se eu a mudasse, eu seria a mesma? Aliás, será que em algum momento nós realmente encontramos o que somos em essência? Será que a gente sabe exatamente quem a gente é, e o que fazer com essa informação?
 Minha teoria é: a gente nunca sabe completamente quem somos de verdade. Eu, particularmente, detesto aulas de filosofia, mas essa semana parei pra pensar que, de fato, como já ouvi meu professor afirmar, há momentos na vida em que a gente se perde do que é. Momentos em que a gente se olha no espelho e fica se perguntando o que deve pensar a respeito de nós mesmos, o ser estranho a nossa frente. Momentos em que a gente não sabe para onde ir, mas também não quer voltar. Momentos em que o não saber é tudo o que há.
 Aliás, isso me lembra uma frase que eu li no tumblr outro dia desses...



 Perder-se do que somos e cogitar a possibilidade de ser alguém diferente é um tema que muito me assombra. Quando, por exemplo, perdemos alguma coisa de estima, buscamos, quase a todo custo, fazer com que esta perda não se concretize.
    E, sobre isso, penso que precisamos aceitar que toda escolha implica perda, e, às vezes, as coisas que a gente faz pra perda não se concretizar provoca danos ao que realmente gostaríamos de ser. Provocamos um daqueles momentos em que nos perdemos de nós mesmos. Nossas atitudes contrapostas aos nossos sentimentos, ou talvez, predispostas ao sentimento de confusão, conflito, de estar perdido. Isso, em conjunto, nos afasta do clichê "quem gostaríamos de ser quando crescer". 
 Quase repulsivamente, para por a teoria na prática, decidi usar a Miley Cyrus como exemplo.
 Primeiríssima diva e “ídala” da minha história como telespectadora do Disney Channel, após algumas doses de... “libertação”, rebaixou-se a segunda maior decepção da minha vida. (A primeira foi a entrevista-vexame da Sandy pra playboy, só por uma questão cronológica.)
 Tudo isso, meus caros, foi causado por uma insegurança colossal. Um dos maiores conflitos internos que podem vir a se tornar motivos para uma futura crise de identidade.
 Não tardo em explicar-me: quando os fãs de Hannah Montana decidiram trocá-la por algo menos pré-adolescente, surgiu na Miley o medo de perder, junto com a primeira e talvez segunda geração de fãs, o sucesso e prestígio que a sustentaram até então. Deste modo, surgiu também a necessidade de livrar-se do estereótipo de boa moça que a série lhe rendeu, e “adultificar-se” junto com os antigos telespectadores. E foi assim que ela escolheu também perder o carinho e admiração daqueles que, como eu, preferem pessoas que se dão ao respeito à meras prostitutas do sucesso.
 Digo, em nome da “não perda” de alguns fãs, ela optou por atitudes e comportamento não condizentes com tudo que ela sempre foi. (Encontraram a crise de identidade aí? Pois bem.) Em busca de uma solução para o conflito interno que ela travava consigo mesma, a Miley tornou-se alguém que causa repulsa no lugar da admiração que sempre provocou. E digo mais, se ela não perdeu tantos fãs, talvez tenha perdido os mais especiais, uma vez que é claro que qualquer pessoa com o mínimo de princípios rejeita sua atual conduta.
 No caminho em busca da Miley que agrada uma massa (sem o mínimo de integridade, devo dizer), ela se perdeu do que a sua essência sempre foi, e eu sei que já disse isso, mas aqui estabeleço relação com o fato de tantos de nós fazermos a mesma coisa às vezes. 
 Sempre penso no que ela deve sentir realmente quando se olha no espelho. Será que seus modos não são, na verdade, uma fuga para os conflitos que sua confusão emocional causou à sua essência? Será que, na verdade, ela não está confusa sobre quem é e sobre o que quer ser, e sobre não ter aprendido a lidar com a perda do fenômeno Hannah Montana? Será que, na verdade, ela não está procurando sua verdadeira personalidade? 
 O julgamento não cabe a mim, embora ele já tenha sido feito. Muito me incomoda o ato de julgar, e , por isso, peço a compreensão de vocês para com o último parágrafo: esse é o modo como vejo as coisas. Não quer dizer que foi assim necessariamente. Embora eu acredite sinceramente que foi.
 Uma vez me disseram que está tudo bem se perder no caminho. Los Hermanos cantariam "é bom as vezes se perder sem ter porquê, sem ter razão. É um dom saber envaidecer, por si, saber mudar de tom". Acho que o caminho é esse. Tá tudo bem não gostar mais de quem a gente é e querer ser diferente. A gente só não pode mudar a essência, esta é uma só e, eu creio, ela precisa ser boa. 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Como os nossos pais

 Nossa semelhança com os nossos pais vai muito além da genética.
 Faz um tempo que eu comecei a observar que herdei o queixo da minha mãe e o desenho da boca do meu pai. Mas há mais tempo ainda eu decidi que queria ser diferente deles.
 Decidi que queria dar pros meus filhos uma criação diferente daquela que me deram, que eu queria ser a mãe que deixaria os filhos saírem para a balada com 13 anos, que não os obrigaria a lavar a louça quando fizessem pirraça, que daria todos os brinquedos que eles pedissem e, entre outras coisas, que eu jamais seria legal com o meu filho mais levado do mesmo modo que a minha mãe é legal com o meu irmão.
 Que ilusão.
 Dizem que a adolescência é difícil, mas a pré-adolescência é pior. A puberdade transforma o corpo, mas a pré-adolescência e o iniciozinho dela nos dá capacidades semelhantes aos poderes dos super vilões. Nos tornamos um bando de revoltados, sabe-tudo, e nosso super poder está somente e apenas relacionado com uma forma de... capacidade máxima de "irrefutação". "Eu que sei o que é certo, mãe. Agora senta lá".
  Quanta tolice!
  Quando penso que tudo o que somos e o que deixamos de ser é graças aos cuidados dos nossos pais, eu sinto orgulho. Sinto gratidão. Obrigada meu Deus, porque alguém zelou por mim quando eu quase virei um monstro. Quando eu quase desisti. Quando eu não sabia o que fazer. Obrigada meu Deus, porque me destes alguém que me ama tanto assim.
  No entanto, ainda fico indignada quando um choque de realidade me atinge e eu percebo que quero corrigir meu irmão e as crianças mal educadas que eu encontro por aí da mesma maneira que os meus pais me corrigem; quando percebo que tenho o mesmo senso de responsabilidade com a escola que a minha mãe sempre me ensinou; que eu sou tão coração mole quanto ela; que fico nervosinha exatamente do mesmo jeito que meu pai...
  A gente não pode dar o que não tem. E isso, curiosamente, eu aprendi numa homilia de uma Missa que assisti há muito tempo, quando estava lutando contra a minha pré-adolescência iniciando a catequese ehehehe.
  Nesse dia, ouvi o padre dizendo que detesta a mania do povo de dizer "ah, eu vou dar pro meu filho tudo aquilo que eu nunca tive". Mentira. A gente dá pros outros o que temos em nós.
 Se quando era criança você queria brinquedos que seus pais não puderam te dar, você sobreviveu, e todas as coisas que você ganhou ou deixou de ganhar na vida te fizeram aprender, amadurecer, crescer, e te tornaram o que é hoje.
  E todas as coisas que os seus pais tiraram de você te fizeram formar o seu caráter, e diferentemente do resto do mundo, a gente deveria agradecer por isso.
  Ontem, na sala de espera de um consultório médico, encontrei um monte de senhorinhas de cabelinhos brancos, com as mãos enrugadas, as pernas vacilantes, e todas elas puxaram assunto comigo. Eu conversei com elas, ouvi suas histórias, suas reclamações sobre a velhice, disse a elas que daria tudo certo, que elas não podiam desanimar, e essas coisas todas...
 Quando saí da consulta, passando pela sala de espera outra vez, me despedi de cada uma. Entre elas, a mais velhinha segurou as minhas mãos e disse "filha, que Deus te abençoe", com os olhinhos brilhando. Tudo por meia hora de conversa e atenção. Isso me valeu o dia.
 Uma vez, quando estava com raiva da minha mãe disse a ela que se ela ficasse velha daquele jeito, eu a colocaria num asilo. Mas ontem, quando a senhorinha segurou as minhas mãos e me agradeceu, eu percebi que jamais poderia fazer isso. Quem recebe amor, amor doará. E cada vez que meus pais me disseram não, eu estava recebendo uma porção dolorida e imensa dele.
 Percebi que estava fazendo, de novo, tudo o que a minha mãe faria. Sentar do lado de uma velhinha, conversar com ela, com a minha experiência quase nula diante da sua, aconselhá-la, e fiquei feliz por estar sendo útil. Acho que no fundo eu amo que a genética seja só o início de todas as semelhanças que herdei de mamãe.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

A única exceção - o conto (parte II)

Como o prometido, aqui está a segunda parte do conto.

 (...) Dois meses depois de sua decisão tomada, porém, numa manhã de sábado, enquanto ainda dormia, Laura ouviu alguém bater em sua janela. Entre a sonolência e o susto, levantou-se rapidamente a abriu, ainda zonza. 
 - Laura, você não sabe o que aconteceu. - dissera uma Clara desesperada e assustada. 
 - O que aconteceu? - respondeu Laura, lerda e confusa. 
 - O Danilo foi preso. 
 - Como é que é? 
 - É exatamente isso. Eu acordei cedo hoje para comprar os ingredientes do almoço para mamãe, fui ao mercado e à padaria, e quando estava voltando encontrei a dona Lúcia aos prantos, no portão do prédio dela, sendo consolada por duas moças que eu não sei bem quem são. Então fui até lá e ela disse que os policiais o levaram nesta madrugada. 
 E sob o efeito dessa notícia Laura chorou um dia inteiro. Dentro dela, há muito, havia o medo de que isto acontecesse, ela sabia que mais cedo ou mais tarde o circo seria fechado. Ela também sabia, no entanto, que a esperança é sempre a última a morrer; e se agarrava a ela como quem depende disto para sobreviver. 
 Conforme os dias passavam, ela rezava e torcia para que, fosse da maneira que fosse, ele ao menos aprendesse e decidisse fazer as coisas diferentes quando saísse de lá. Pensar assim era um presente dela para si mesma, seu consolo. 
 Algumas semanas depois, Laura ouviu um barulho naquela mesma janela e alguma coisa sobre a agonia que a estava tomando nos últimos dias a avisara que notícias de Danilo chegariam. Desta vez não era Clara, mas Lúcia. Esta, com uma expressão dolorida e piedosamente triste implorou a Laura que escrevesse cartas para o seu filho que padecia na solidão de uma cadeia. 
 E assim foi feito, embora tal novidade não tivesse agradado nem um pouco aos seus pais. Mas Laura os havia convencido de que se tratava de um motivo de força maior. Ao escrever para ele, ela estaria ajudando alguém, se compadecendo da sua realidade de dor; mas, no fundo, ela sabia que isto era também uma forma de ajudar a si mesma a amenizar parte da angústia que a dominava constantemente desde que Danilo foi preso. 
 As cartas eram trocadas toda semana. Os pais da moça não permitiram que ela fosse ao presídio entregá-las, então a mãe de seu amado ia buscar cada uma delas semanalmente, no que já tinha se transformado em um ritual. Entre parágrafos molhados e saudosos, Laura contava a Danilo como estava sendo sua vida fora aquele lugar. Descrevia os dias de sol, os jogos de futebol que passavam na televisão, as suas impressões sobre os últimos filmes que tinha assistido, e, ela sabia, descrever a vida lá fora para Danilo, era uma forma de devolver a dele. 
 Embora para ambos a prisão houvesse tornado-se uma eternidade, bastaram seis meses para que ele estivesse de volta, embora tão mais marcado pelo preconceito e pelos maus tratos que recebera, tão mais sofrido pela consequência de ter escolhido ser o que era, tão mais revoltado com toda e qualquer coisa. 
 Os novos dias fora da prisão deram a Danilo a chance de recomeçar, a possibilidade de viver a vida de um jeito diferente, ainda que agora, por ser um ex-presidiário, as coisas tivessem ficado mais difíceis. Ter voltado a conviver com Laura o ajudava a esquecer as contrariedades da nova fase de sua vida. A parte dos dias que passava com ela era, para ambos, a melhor parte das suas semanas e dias. Apesar disso, a marca que Danilo trazia agora o tornara ainda mais teimoso do que já era, e o papel de Laura em ajudá-lo continuava da mesma maneira: difícil e ineficaz. 
 - Pra você é fácil dizer, eu vou arrumar um emprego medíocre só para todo mundo me aceitar de volta, então vou pagar de rapaz honesto e trabalhador, acordando e madrugada pra pegar ônibus e voltando sabe-se lá que horas, porque vai ter trânsito e essa coisa toda...
- É. É exatamente isso que eu acho. – interrompeu Laura – o resto do mundo faz isso. Todos os dias. Por que você tem que ser diferente?
 Então as discussões tornaram-se rotina entre os dois. “O mundo do crime é uma ida sem volta”, dissera seu pai, num infinito clichê cheio de razão. Laura sabia que ele estava certo, sempre soube. Mas, simultaneamente, sempre negou tal coisa para si mesma, como se fosse conseguir acreditar naquilo um dia.
 Na fuga constante da realidade esmagadora que a envolvia agora, Laura vagava entre os conselhos de seus pais para que se afastasse definitivamente de Danilo, e o seu medo do que viria a se tornar a vida do rapaz agora. Os boatos sobre roubos e assaltos voltaram a envolver o nome dele, e ela sabia, eles eram verdadeiros.
 Da última vez em que se viram, eles combinaram não tocar nesse assunto e não brigaram. Mas o peso da omissão de uma verdade tão presente e tão real fazia doer os ombros de ambos, e parte da felicidade que compartilhavam quando estavam juntos se perdia quando se lembravam do pesar que havia entre os dois.
 De volta à festa, com o fim do seu devaneio, Laura sentiu uma pontada ao perceber que agora, o que pesava, era a ausência de Danilo.
 - Domingo a gente se vê – ele dissera. E assim ela havia esperado.
As horas passavam lentas...  E cada minuto sem a chegada de Danilo a fazia se sentir mais e mais aflita. Ela segurava o celular como se nele contivesse sua sobrevivência; e nenhuma das chamadas que havia feito foram atendidas ou retornadas.
 Quando deu por si, estava na hora de ir embora. As luzes da rua já estavam se apagando, a maior parte das pessoas já tinha ido embora. Junto com ela havia apenas Clara, o irmão dela, e seu primo, João. Eles ainda estavam ali porque Laura insistira, mas agora parecia inevitável a volta pra casa.
A caminhada foi silenciosa. Laura seguia cabisbaixa e preocupada, e todos sabiam que ela estava certa em se preocupar.  Sabia que alguma coisa tinha acontecido, e que provavelmente a coisa não era boa.
 Com muito custo, depois de várias horas andando de um lado para o outro dentro do carro, ela conseguira dormir. Mas Danilo não sairia de seus pensamentos. Não tão cedo. No seu sonho, Laura o encontrara no mesmo lugar em que se conheceram; e ela o estava vendo caminhar em sua direção, magnífico como era. Seu olhar, no entanto, não expressava a certeza e autoconfiança que o seu Danilo expressaria. Dessa vez, em sua face havia medo e tristeza. Uma tristeza tão profunda que a deixou ainda mais triste. Foi aí que ela ouviu um familiar barulho na janela e, com um susto, levantou correndo.
 Abriu-a e encolheu os olhos diante da luz do sol. No entanto, o que doeu mais não foram seus olhos, retraídos, mas seu coração, diante da expressão de Clara, uma expressão ainda pior do que a última vez que a acordara com um barulho na janela.
- O Danilo morreu nessa madrugada. Eu sinto muito.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

A metáfora da Cruz

 Acho que já comentei por aqui a minha paixão por símbolos (mas alguns amores são tão grandes e profundos e intensos que não cabem em uma publicação só). No entanto, eu provavelmente não comentei a minha falta de tempo até para me dedicar a eles, então aproveito para recuperar a minha percepção para com os símbolos, e amenizar as coisas me agarrando com unhas e dentes ao sentido novo que encontrei para uma metáfora antiga. 
 Para chegar até ele, porém, contar-vos-ei uma historinha...
 Era uma vez um moço Moisés, que há muito tempo, quando Jesus nem sequer tinha nascido, guiou uma galera que estava sendo escravizada para um lugar novo, prometido por Deus, onde não haveria mais escravidão. 
 No entanto, para chegar na Terra Prometida, esse povo caminhou muitos e muitos anos, e durante a caminhada houve fome, houve sede, houve cansaço, houve medo, houve discórdia, e entre muitas outras coisas que houveram, houve revolta. 
 Sim, revolta. 
 Oras, que Deus é este que promete o fim da escravidão, se para chegar à vida nova é necessário continuar a padecer? 
 Foi por causa dessa revolta que, então, Deus chamou Moisés e disse:
- Faze uma serpente de bronze e coloca-a como sinal sobre uma haste; aquele que for mordido e olhar para ela viverá.
 E assim ficou decidido que tal serpente seria como um espelho: aquele que fosse picado pelas serpentes do deserto, isto é, se deixado levar pela persuasão prática do pecado, seria picado pela serpente de bronze, e ao fazer isto, se depararia com a vergonha de ter agido como agiu, o arrependimento lhe tomaria, e esse alguém seria curado. 
 Algum tempo depois, Jesus veio à Terra como um ser humano, e por amor, obediência e coragem, deu a vida por nós aceitando o sacrifício de ser crucificado. E desde então, a cruz se tornou a nossa serpente de bronze, para a qual olhamos quando somos tomados pelos sentimentos e pensamentos ruins. 
 Entretanto, agora há uma diferença. Ao olhar para a Cruz, nós não enxergamos o nosso espelho, quero dizer, as nossas misérias. Ao olhar para a Cruz, nos deparamos com a nobreza de um Deus de amor; nos deparamos com a valentia e a coragem de um Deus capaz de fazer da Sua vida o gesto de amor de doação mais bonito de que se tem notícia. Ao olhar para a Cruz, vendo o Cristo preso ali, eu vejo o tamanho da misericórdia que vem de um amor tão grande assim. 
 Que metáfora mais linda. Que simbologia maravilhosa. 
 Quando contei para mamãe o que tinha aprendido, percebi a beleza que há nessa história toda. 
 Que felicidade poder contar com uma metáfora assim. Poder acordar todos os dias e, ao olhar para a Cruz, lembrar que Deus me ama e zela por mim a este ponto. 
 Acabei por decidir que eu quero ser bonita assim, que nem a metáfora da Cruz. Não to falando de beleza exterior não, mas a beleza de me lembrar todas as horas dia, ao longo da minha caminhada pelos desertos da vida tentando chegar ao lugar em que finalmente minha escravidão pelo pecado termina, que Jesus foi crucificado por mim, e lembrar também de retribuir todo o seu sacrifício vivendo de uma maneira diferente daquele povo revoltado quando tiveram que atravessar o seu deserto. 
 Coincidente ou providencialmente, questionei qual é a metáfora a qual eu tenho me dedicado ultimamente, e diante da resposta, percebi que o problema do mundo é não olhar para o Cristo de braços estendidos e presos à Cruz quando o deserto chega. 

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

A única exceção - o conto (parte I)

 Novecentas e trinta e cinco horas de viagem no carro dentro de uma mesma Nova York e eis que eu tive uma ideia.
 É evidente que eu passei um mês inteiro - e alguns dias mais - empacada com a bendita ideia, mas o importante mesmo é que eu a finalizei.
 Acho que já disse o quanto vivo procurando coisas para publicar aqui, e durante as férias não foi diferente.
 Pois bem.
 Estava eu, um alguém entediado no carro, ouvindo Los Hermanos alegremente, e aí, no no auge de uma conversa incessante comigo mesma, na busca pela publicação perfeita, a playlist do tio Camelo acabou. )=
 Foi assim que começou a tocar Paramore, e então, meus caros, no 25º "you are the only exception" TCHARAN: surprise. Uma ideia.
 Sim, uma ideia.
 Há séculos eu tento pensar numa história para dar início a escrita de contos, mas todas as ideias que eu tive até aqui não pareceram boas o suficiente. Mas agora, tudo mudou...
 Primeiramente, meu cérebro problemático cogitou a possibilidade de pegar a música e simplesmente discorrer sobre o pobre eu lírico desacreditado da vida, que escolheu não se apaixonar por ninguém até que determinada pessoa aparecesse e coisa e tal, e tal e coisa, mas esse papo de não acreditar no amor parece tão clichê e previsível!
 Na na ni na não, esta não seria a primeira história que eu viria a contar.
 Mas, oras, de tanto repetir que você (seja lá quem esse alguém for) é a única exceção, eu pensei em que tipo de exceção uma pessoa poderia ser para a outra, e foi assim que eu juntei a fome com a vontade de comer num flashback glorioso, digno da atenção dos cineastas hollywoodianos: me lembrei de uma história que já me contaram, maravilhosamente triste e apaixonante, em que duas pessoas foram, uma para a outra, simultaneamente, uma exceção.
 Vejam vocês se poderia haver coisa melhor?! Encontrei a história que há de render meu primeiro conto. E ela aconteceu de verdade. Ah. Dreams do come true. *coração derretendo de alegria*
 Pois então, depois de passar por algumas adaptações imaginativas deste alguém aqui, com vocês, a "incomentável" (e um tanto extensa) versão de The Only Exception, o conto!
 PS.: Tagarela como sou, transformei um conto numa história relativamente grande. Por esse motivo, dividirei esta publicação em duas partes: uma hoje, e outra na próxima sexta-feira.
 Divirtam-se! 
  
 Na viela atrás do Condomínio Sem Nome, onde a festa dos domingos sempre era organizada, Laura estava de pé, diante de Clara, mas jamais esteve tão ausente assim quando perto da amiga como estava hoje. Seus pensamentos e atenção estavam todos presos numa bolha, direcionados só e unicamente a Danilo, que estava atrasado já fazia 2 horas.
 Danilo era uma espécie de namorado, embora não oficialmente, uma vez que seus pais a haviam proibido de manter contato direto com o rapaz. No entanto, teimosa como era, lá estava ela a se preocupar com ele outra vez. Os dois haviam combinado de se encontrar na festa, assim como na primeira vez em que ficaram, e o tempo que ela estava passando ali a esperá-lo, aflita, fazia revezar um lugar nos seus pensamentos entre os motivos pelos quais Danilo ainda não havia chegado e a lembrança daquele eterno primeiro dia...
 Laura não tinha muita certeza sobre o que estava vendo, mas o rapaz a cerca de dez metros dela se parecia muito com o mesmo rapaz por quem se apaixonou platônica e perdidamente há alguns anos, quando toda a população feminina com a qual sua idade se assemelhava decidiu se apaixonar também.
 O nome do rapaz era Danilo, e ele era bonito, não poderia negar, se quisesse. Aliás, negar sua beleza era absolutamente impraticável naquele mundo onde todas as meninas enxergavam e queriam para si o dono daqueles olhos verdes e redondos, dos cabelos lisos e relativamente longos, e da beleza sobre-humana que o conjunto da obra representava.
 Sua paixão por ele, no entanto, tinha ocorrido quando ela nem mesmo pensava em sair de casa nos sábados para dançar até a manhã de domingo, como vinha fazendo nos últimos meses. Laura o achava bonito, e o admirava de longe ou de perto, quando se esbarravam dentro do condomínio em que moravam, ou quando ele passava do outro lado da rua, sempre apressado demais para perceber sua presença.
 Hoje, no entanto, Danilo era um alguém nem um pouco apressado, e a olhava direta e constantemente, desde o instante em que ela e Clara haviam decidido parar do lado esquerdo do palco.
 Olhos incessantes aqueles, pensava Laura. A intensidade com que esses olhares chegavam a ela a estavam perturbando e fazendo corar. Deus, poderia isto ser real? Danilo Ribeiro, o mago da beleza, divo e muso único de sua pré-adolescência inteira, a razão para suas pernas tremerem como alguém em convulsão, olhando para ela. Sim. Para ela. E, agora, vagarosamente caminhando em sua direção.
- Você é tão linda que merecia um beijo - dissera Danilo, do alto de seu pedestal.
- Não acredito que você estragou três anos inteiros de paixão platônica e uma hora de olhares inescrutáveis com essa cantada ridícula!
- Desculpa, não entendi.
 Ela bufou.
- Ah, melhor assim, deixa pra lá.
- Tudo bem, vamos começar de novo, você tem alguma coisa contra meninos dispostos a te pagar uma bebida e te roubar um beijo depois?
 E foi com essa sombra mínima de gentileza, mas, certamente interesse, que a história começou. Cinco meses depois, Laura tornara a festa dos domingos e esperava ansiosa pela chegada do rapaz que pagaria o seu refrigerante.
 A chegada do rapaz, porém, não minimizaria a tristeza de perceber que ele estava com outro carro, ainda mais caro dessa vez.
- Laura - gritara ele de dentro do veículo - entra, vamos dar uma volta.
- Que carro é esse Danilo? - respondeu Laura, irritada.
- Que pergunta idiota! Esse é o meu carro, caramba! Você nem vai me esperar chegar e já vai brigar comigo?
- Seu carro coisa nenhuma, você mentiu pra mim outra vez, você disse que não ia roubar mais!
- Eu não roubei, eu só peguei emprestado!
- Pegar emprestado sem autorização, para mim, é roubar.
 E foi em meio a brigas e mais brigas por esse mesmo motivo que os meses se passaram. Danilo tornara a roubar, e essa prática se tornava cada vez mais constante. Apesar do sentimento crescente entre os dois, a indignação de Laura não era suficiente para fazê-lo parar.
 - Você é melhor que isso. - ela dizia. 
 Mas nada o convenceria. 
 Domingos e mais domingos se passavam, e quando Danilo chegava a tradicional festa. Sempre com um relógio novo, presentes caros e infinitas tentativas frustradas de impressionar Laura.
- É o carro do ano, - ele disse uma vez - não acredito que você não está ao menos curiosa pra dar uma volta comigo.
 Resignada, ela respondia:
- Não tenho o menor interesse pelas coisas que você rouba. Você é melhor que isso, Danilo, quando você vai perceber? 
- Você é a única que pensa assim. 
 E a cada resposta malcriada de Danilo, a preocupação aumentava dentro de Laura. Ela não entendia como ele podia ser tão bondoso, carinhoso e gentil com ela e, ao mesmo tempo, fazer tantas coisas erradas. 
 Inevitavelmente, os boatos sobre a suposta má índole de Danilo começaram a cercar aos arredores do Condomínio Sem Nome, e tão logo os pais de Laura ficaram sabendo. Tamanha foi a aflição de ambos que Laura fora permanentemente proibida de conversar com o rapaz. Seus feitos já chegavam aos ouvidos de pessoas que nem sequer moravam no condomínio e, a cada dia, os boatos tornavam-se mais sérios e preocupantes. 
 - “Diga-me com quem andas que eu te direi quem és”, Laura. Nada do que você disser vai amenizar a situação deste rapaz. O Danilo é um mau elemento, um perigo para a sociedade e para você, eu não posso permitir que você continue imersa numa relação com uma pessoa assim. Quem vai sair machucada será você, minha filha. - Insistia seu pai. 
Apesar de ser compreensiva e boa filha, ela nunca aceitara completamente essas intromissões do pai.  Ele jamais enxergaria em Danilo a bondade e verdade que ela conhecia. Por trás de cada atitude impensada, havia um menino com medo, pouco amado pela sua própria família, perdido na confusão de não saber quem era e o que queria. 
 - Desiste dessa vida, Danilo. Eu posso pedir pro meu pai te arranjar um emprego honesto. Você provavelmente não vai ganhar muito, mas o dinheiro vai servir pra alguma coisa, e com o tempo você vai subindo na empresa, vai crescendo, você vai conseguir chegar onde você quer, mas de um jeito certo. 
 - Quem estabelece o que é certo ou errado? Você não entende, não é? Seus pais te lançam um sermão sobre o quanto eu sou um bandido e você só assente, você passa para o lado deles em questão de minutos...
 - Não tem essa de mudar de lado, você sabe que eles estão certos, você nunca vai conseguir nada realmente bom se continuar assim. Uma hora as consequências do que você está fazendo cairão sobre você, então você vai saber que eu só estava querendo o seu bem. 
 Embora fosse difícil para Laura se afastar dele, fora isso que ela havia decidido fazer. Sua consciência ameaçava pesar, mas então ela pensava que o avisara diversas vezes, e os seus conselhos e súplicas jamais foram suficientes para tirá-lo do caminho que escolhera. Ela sabia que seus pais tinham razão. Talvez esta fosse a coisa mais difícil que já fizera a vida toda, mas se afastar dele era a única solução que enxergava. 
 Dois meses depois de sua decisão tomada, porém, numa manhã de sábado, enquanto ainda dormia, Laura ouviu alguém bater em sua janela. Entre a sonolência e o susto, levantou-se rapidamente a abriu, ainda zonza. 
 - Laura, você não sabe o que aconteceu. - dissera uma Clara desesperada e assustada. 
 - O que aconteceu? - respondeu Laura, lerda e confusa. 
 - O Danilo foi preso. 
   Continua...

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Quase um milhão de palavras sobre a efemeridade das coisas

  A efemeridade das coisas me assusta.
 Ontem, por exemplo, fiquei sabendo que um moço foi assassinado aqui no bairro, e eu, por nunca ter tomado consciência de algo desta dimensão com a mesma ou maior proximidade, levei um susto.
 Oras! Como é possível que nós permitamos uma realidade tão fria assim, na qual há uma parcela razoavelmente grande de pessoas que morrem todos os dias enquanto um número ainda maior delas não se importa, ou nem mesmo fica sabendo?
 Tudo bem, tornemos as coisas menos mórbidas: outro dia desses, na minha caminhada rotineira de volta para casa, na mesma “estrada” de sempre, eu passei pelo lugar onde costumava haver um barzinho que há alguns anos era para onde as pessoas iam no fim de semana, e onde hoje não há nada além de uma área isolada para obra, com uma estrutura de dias contados.
  Mas e daí?! O que tem de incomum nisso?
 Ah, leitor querido, ainda hoje aprendi que um poeta – no caso, uma cronista – se infiltra nos detalhes cotidianos que quase ninguém percebe (leiam Motivo, da Cecília Meireles para melhor entender), e eu encontrei algo sobre o que vale a pena falar nessa história toda.
 Acontece que eu comecei a pensar, e o meu cérebro não vacilou dessa vez, então... Aquele moço que morreu ontem, ele tinha uma família, amigos, alguém que se importava com ele de verdade; e esse alguém hoje deve estar tendo um dia difícil, triste, mas eu to numa boa! Até ouso dizer que meu dia foi bemm bom (as férias chegaram, caríssimos, vocês podem dizer aleluia para isto).
 O que eu estou dizendo é que todos os dias morrem pessoas. E todo dia alguém fica triste por perder alguém que amava. Mas o mundo não para. O resto das pessoas simplesmente não se importa, e isso é mais que clichê, isso é a vida como ela é de verdade.
 E cá estou eu, “morbidando” este texto outra vez.
 Várias vezes o clichê da morte, e aquele lance de “tratar bem as pessoas enquanto elas estão próximas...” e esse papo todo (que eu aposto que a mãe de vocês vos contou quando fizeram mal criação pra vovó) me fez pensar sobre o quanto tudo é efêmero, passageiro, momentâneo...
 Quando eu tinha 11 anos aquele barzinho era legal, e hoje não é mais. Ele deixou de existir e acho que posso dizer que quase ninguém sente falta, porque outros barzinhos surgiram, e isso é a vida, é o show continuando...
 E aí, com tudo isso, eu pensei em sentimentos. Existe coisa mais efêmera que isto? O simples ato de sentir... Ter um sentimento para cada circunstância, cada pessoa... E, o mais importante, quantas coisas fazemos ou deixamos de fazer impulsionados pelos sentimentos????
 Ah, meu Deus, e quantos erros a gente não comete ainda pela mesma razão?
 Por ter-se tratado de morte, me acometeu a questão do esquecimento. Quero dizer, esse moço “morrido”, será que nos instantes precedentes ao ato da morte ele não sentiu medo de ser esquecido?
 Que confusão eu to fazendo, socorro. Por favor continuem na estradinha da perseverança, amiguinhos. O fim está próximo (e em breve a confusão será desfeita), eu prometo.
 O medo de ser esquecido depois da morte fez o Gus de A Culpa é das Estrelas levar consigo por toda uma vida o propósito de fazer algo que ficasse marcado, para que junto com a coisa que ele fez, seu nome permanecesse vivo.
 Ele conhecia a efemeridade das coisas, da sua existência, da capacidade mundial de lembrar somente de um único melhor ator que ganhou o Oscar, um único jogador de futebol que foi eleito melhor do mundo, uma única banda que ganhou o Grammy, e nunca dos segundos, terceiros, quartos lugares... Mesmo sabendo que até este um seria esquecido em breve. Isto é a efemeridade na sua forma mais simples. 
 No entanto, para aqueles que, como eu, se deixam guiar pela efemeridade dos sentimentos, no caso de um erro, haveria presente maior que o esquecimento? Acho que Leminski previu minhas emoções e divagações, porque lembro do seu poema que diz assim:
“um dia sobre nós também 
  vai cair o esquecimento 
  como a chuva no telhado 
  e sermos esquecidos 
  será quase a felicidade”
  Cá estamos então, entre o sim e o não. Se escolho uma justificativa, imediatamente dispenso a outra, e vice-versa. Uma resposta será lembrada e a outra não. Olha só a efemeridade dando tchauzinho para vocês da janela de sua casa...
 E acho que o Leminski, seja qual for o lugar no céu onde ele se encontra, está especialmente disposto a aparecer nessa publicação, porque agora eu o escuto dizendo “as certezas o vento leva, só dúvidas continuam de pé”. E de fato, o vento leva tanta coisa... aliás, não era sobre isso que estávamos falando? A efemeridade das coisas como das folhas do outono, que são levadas pelo vento e blá blá blá?
 Pois bem. Então acho que é mesmo assim. Aprendamos a amar as duvidas então, já que são elas que sempre permanecem. 

terça-feira, 15 de julho de 2014

A sementinha da humanidade

 A humanidade, meus caros, ela é como uma sementinha de planta...
 ... Ela está lá, na grama, na moral, curtindo um sol, e você nem liga pra ela. Ela não te ajuda a tirar nota boa na prova de matemática, nem te dá idéias pro livro que você quer escrever, então que ela fique lá, e você aqui. Tudo numa boa.
 Assim ela permanece.
 Fica lá, no quintal da sua casa. Ou no jardim da frente.
 E isso não quer dizer nada, porque, para que você não precisa regá-la, a chuva a rega por você; e o sol lhe oferece a luz,não é como um bichinho de estimação que precisa ser alimentado pelas suas mãos, ela não depende de você pra crescer...
 Além disso, ah, é claro, não é necessário prestar atenção nela,  você tem o vestibular pra se preocupar. E trabalhos a entregar. E filmes para ver. Livros para ler. A vida alheia para assistir...
 E a pobre e desprezada semente de humanidade vai crescendo. Subindo pela parede da casa que nem a dona aranha. Da mesma maneira que o formigueiro que apareceu no pinheirinho aqui de casa. Formiguinha por formiguinha foi fazendo a sua parte, e quando se viu, lá estava. Um formigueirão. Produto da união. Chuva cá, sol lá, e uma árvore firme da essência humana se fortalecendo. Adulta. Robusta. Influente. Silenciosa.
 E quando você vê, de repente tem uma “arvorezona” lá! Ela é imensa, maior que você, mais forte, mais sólida, mais constante, quase mais poderosa, e se enraizou no seu quintal. Agora ela te diz o que fazer. Ela te manda guardar rancor, te obriga a sentir raiva, te leva ao ápice do nervosismo, te faz pagar pela sua ansiedade, dita as regras do seus relacionamentos interpessoais, decide se você deveria ou não gostar de alguém, diz que uma “invejinha” é normal...
 Agora o que é aquela semente se não um gigante? Uma coisa grande e poderosa, o seu algoz, a sua mãe numa versão mais dominadora e menos interessada pela sua felicidade.
 Ahh... não, ninguém de fato se importa com a nossa felicidade além de Deus e nós mesmos, e agora essa arvorezinha parasita descobriu como suga as suas energias e não para mais. Não te pede permissão. Suga energia, alimento, paz, serenidade, boas vibrações... Mas ninguém quer viver assim, não é?
 Dá-lhe veneno contra pragas!
 Pega a serra elétrica e corta a árvore fora, mas deixa a raiz, porque ela já está “profunda demais” para ser capaz de ser retirada.
 Aí você vai, se sente dono da casa outra vez, se enche de amor, consegue enxergar o lado bom da vida, reza. Fica dois, três, quatro dias livre do mau humor... missão cumprida.  Amor ao próximo. Nada de rancor, nada de irritação, nada de amigos que não são amigos, nada de falta de paz, só serenidade. Árvore cortada, harmonia interna e externa restaurada, tudo em paz! Tudo são borboletas. Nada de plantas.
 É quando o estresse faz o caminho de volta. Seu dia foi extremamente cansativo, e não há forças para manter aquela vibe bacana de antes. Você percebe que a sua humanidade não saiu de você, ela só tirou férias. E agora quer voltar ao trabalho.
 Estás cheio de novo, mas desta vez é de agonia, ansiedade, preocupação, revolta, impaciência, e você se dedica a estes (nem tão) novos hóspedes. Lhes dá de beber e de comer, oferece a melhor cama, dá-lhes as melhores vestes, e esquece do jardim. Deixa que eles habitem sua casa. Que eles escolham qual vai ser o café da manhã, o almoço e janta. Você dá-lhes poder.
 É dessa maneira que plantinha cresce outra vez. Sua humanidade está lá, firme, forte; maior do que nunca, ditando as regras outra vez. Três metros de frutos nem um pouco bem vindos, centenas de células vegetais do que nos é nocivo, milhares de milhões de pequenos átomos que atiçam a letargia de sermos humanos e sabermos que somos. É a anestesia que nos impede de sentir a ânsia pela mudança positiva...
 E então, meu caro(a), cabe a você determinar a morte ou a vida de tal plantinha. Insistir ou resistir, eis a questão. 

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Cidades de Papel - Resenha e reflexão pra levar pra vida

 Há tempos eu decidi que a imaginação é o remédio. No entanto, como já disse, meu cérebro é um traíra, e sempre para de funcionar na hora em que bem entende. (Desta vez, ele bem entendeu como hora de dar tchau o momento em que eu comecei a dissertar tal teoria.)
 Apesar disso, preciso contar-lhes: em mim, a literatura opera milagres. O que é momentaneamente trágico, levando em consideração minha falta de tempo para dedicar aos livros.
 Aí então, conto-lhes ainda outra novidade: consegui dedicar pedaços do meu dia aos meus queridinhos, e na última quinzena, aos trancos e barrancos (#shameonme), terminei Cidades de Papel.
 Voltando à parte dos milagres, achei que o único prodígio capaz de ser realizado por tal obra fosse desenvolver mecanismos de defesa à chatice, mas (glória a Deus por isso) ele me surpreendeu no final, complementando a teoria que por hora havia sido deixada de lado.
 Portanto, esta publicação é bem característica, cumprindo o formato de texto que eu mais gosto: ponte entre a vida e os livros.
 Eu, na verdade, andei pensando sobre a crueldade da vida, fato que rendeu a última publicação. E a consternação dos últimos dias em relação a isto foi tanta que precisei de anticorpos: os livros.
 Tendo, fundamentalmente, uma postura crítica em relação ao Cidades de Papel, preciso dizer, o livro não é bom!  A leitura se faz arrastada, repetitiva, por ora cansativa e as vezes até enjoada. No entanto, é preciso ressaltar que o tio Green é expert em sair da posição de mau condutor de uma história por duas únicas razões: bom humor e uma boa moral na história, e desta vez não foi diferente.
 Sem mais procrastinações, é necessário conhecer o enredo: trata-se de um rapaz pouco entusiasmado com a vida, que vive uma paixão platônica (no sentido mais platônico da palavra) pela sua vizinha e amiga de infância Margo Roth Spiegelman.
 Tal moça tem uma personalidade semelhante à moça Alasca, do seu outro livro, e diante do comportamento bipolar e arteiro da mesma, nosso personagem principal se vê perdido diante das pistas que ela deixou após fugir para uma Cidade de Papel sem deixar explicações, em mais uma das suas aventuras.
 Quando me deparei com tamanho idealismo do protagonista, me identifiquei. Sempre fui um alguém de caráter imaginativo, e vira e mexe me vejo perdidamente apaixonada por personagens de livro, (o que minha mãe considera saudável ignorando a vez em que eu solucei de chorar após a relativa morte de um dos meus amorzinhos, mas isso não vem ao caso) porém, tal fantasia faz do nosso pobre Quentin um alguém mais solitário do que propriamente animado com a presença de um “amigo imaginário” – no caso, a Margo, o que muito preocupa o nosso narrador e faz a história de fato acontecer.
 Tendo em vista meu histórico peculiar, andei pensando que esta sempre foi a minha solução. Uma vez que as coisas não estão boas, logo corro pro mundo das histórias e palavras encantadas, e passo lá se não um mês inteiro pelo menos uma semana, até que a coisa tenha se acalmado e eu possa, enfim, pensar por mim mesma, sem precisar colocar uma história na cabeça para não pensar no que está acontecendo de verdade.
 Apesar disso, sempre houve alguém que recriminasse tal atitude minha, e é em relação a isto que fazemos ligação com o livro.
 O que me tirou pelo menos metade da má impressão sobre o livro foi entender que desta vez John Green estava dizendo que a imaginação adia, mas não resolve. Por vezes,na ânsia de que uma coisa seja diferente para acontecer da maneira que queremos, é muito mais fácil imaginar que assim seja. E então a perfeição seria concretizada. Imaginem que maravilha, sonho e realidade caminhando juntos numa estrada cor de rosa!
 A RÁ! Aí é que vocês se enganam!
 Nosso amigo Quentin precisa atravessar um caminho longo e em alguns momentos cruel para entender que é cômodo imaginar as situações tendo o desfecho que desejamos, mas o idealismo nos cega ao ponto de ignorarmos o que tal circunstância tem a dizer.
 De tanto procurar as pistas deixadas pela Margo da sua imaginação, Quentin se perde da essência de quem a Margo realmente é, e quando, no fim, a reencontra, também se depara com a decepção, o que, sob o meu ponto de vista, é comum quando se trata de idealismo.
 Um dos trechos que me fez refletir sobre tal assunto foi o seguinte:
“A imaginação não é perfeita. Não dá para mergulhar por inteiro dentro de outra pessoa. (...) Mas imaginar ser outra pessoa, ou que o mundo pode ser diferente, é a única saída. É a máquina que mata fascistas.”

Saibamos dosar a quantidade de imaginação para por em uso, então. E que as coisas boas aconteçam mais na realidade que na minha imaginação.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Inquietações de uma vestibulanda em crise

 Eu comumente passo uma enorme parte do meu tempo querendo vir aqui e escrever alguma coisa. Porém, a versão real (e cruel) dos fatos é que "the estudos never ends", e vocês já conseguem imaginar porque eu passo tanto tempo longe. 
 Tendo encontrado uma brecha (ou talvez, tendo ignorado alguns afazeres), vim matar as saudades e me sentir alguém com voz ouvida na sociedade, e sem mais delongas (acho essa palavra super legal), lá vai!
 Há muito percebi que tenho um hábito - o qual apelidei carinhosamente de "instinto jornalístico" - que me faz pensar e discorrer mentalmente sobre o assunto cujas pessoas ao meu redor estão falando, ou sobre suas ações.
  Sendo assim, eu consegui encontrar algo sobre o que escrever, e vim anular parte da minha saudade desse bloguezinho lindinhomeuamorzinhomimimimi...
 Portanto, começo oficialmente essa publicação dizendo-vos que, durante uma aula de geografia sobre globalização, a mais recente ideia formada por esse projeto de escritora aqui é: sou um alguém absolutamente irritado com a maneira como grande parte da coisas cruéis desse mundo se sobrepõem ao que há de bom.
  Me refiro ao fato de estar inserida numa sociedade que só sabe formar médicos e engenheiros, privilegiando-os e fazendo as pessoas com dons nada semelhantes a estes sentirem-se como pessoas com dons não especiais e não importantes. 
 Mas você também pode lembrar de casos como o quanto você estava cansado e cheio de dor de cabeça na segunda feira passada, mas ainda sim teve que se levantar as seis e ir pro trabalho porque seu chefe não está nem aí pra você e a sua dor de cabeça, ou seja, quando as consequências de um capitalismo selvagem e devorador devorou todo o seu bom humor; ou lembrar de quando você dedicou-se dias e noites à matéria de matemática e nem assim conseguiu uma nota boa, sobrepondo-se, assim, a tragicidade de estar no 3º ano médio e talvez não passar no vestibular ao seu esforço incalculável e etc..  
 Dentre os dois exemplo citados, no entanto, o motivador foi um diferente: é que ultimamente todo mundo me pergunta o que eu vou fazer na faculdade, e o fazem com um sorriso de animação. Então quando eu respondo "jornalismo" o sorriso fecha. Elas ficam sem graça, as palavras "coitada, que menina maluca, vai morrer pobre" formam a legenda dos seus pensamentos instantâneos; aí elas olham para baixo e forçam uma empolgação em pseudo-frases parecidas com "ahh entendi". 
 (Que fique claro que eu nunca conto a parte do "e depois me dedicar ao ofício de escrever, passando viver para e da publicação dos meus livros".)
 Uma dos meus atributos mais característicos tem a ver com criar analogias entre histórias de livro e situações cotidianas, e a ponte da vez vem de O Pequeno Príncipe:
"As pessoas grandes adoram os números. Quando a gente lhes fala de um novo amigo, elas jamais se informam do essencial.
Não perguntam nunca: Qual é o som da sua voz? Quais os brinquedos que prefere? Será que ele coleciona borboletas?
Mas perguntam: Qual a sua idade? Quantos irmãos ele tem? Quanto pesa ? Quanto ganha seu pai ? 
Somente então é que elas julgam conhecê-lo.
Se dissermos às pessoas grandes: Vi uma bela casa de tijolos cor-de-rosa, gerânios na janela, pombas no telhado... elas não conseguem, de modo nenhum, fazer uma idéia da casa. 
É preciso dizer-lhes: Vi uma casa de seiscentos contos. Então elas exclamam: 'Que beleza!' "
 Quando li esse livro, no auge dos meus 9 anos,  decidi instantaneamente que não queria crescer, porque, na verdade, é bem mais importante e legal saber se alguém coleciona borboletas que a sua idade. 
 O que eu não sabia, no entanto, era que um dia essas perguntas seriam direcionadas a mim, e que a minha insatisfação para com as mesmas não seria suficiente para mudar seus modos de pensar e agir, e perguntar e responder a tréplica. 
 Acredito que esse trecho seja suficiente para esclarecer qual que é a reflexão da vez. 
 Por favor não sejam parte daqueles que só se preocupam com os números, o gosto do brigadeiro diz mais sobre ele que o seu preço. 

domingo, 4 de maio de 2014

Poetizando

  Eu amo frases de efeito.
  Aquele final na crônica que dá a ela personalidade, persuasão, firmeza.
 Aquela cereja no bolo da opinião que, a princípio, te faz amar ou odiar o livro, o autor, a história, a personagem, o cronista.
 Sou completamente apaixonada por esse aval que o leitor, o telespectador, o amante da música dá, com a emoção à flor da pele, no calor do momento, depois de ouvir a frase de efeito.
 Também amo símbolos.
 E quando a frase de efeito é simbólica, ah meu Deus, meu coração se faz em dilacerados pedaços de amor!
 Por isso, não sei se é possível separar frases de efeito simbólicas de poesia, visto que o meu amor por ela nasceu justamente do estado de paixão arrebatadora em que fiquei depois de entender as metáforas de Chão de Giz (que é um fruto simbolista).
 Esses dias, num dos encontros da minha alma com meus devaneios, descobri que há mais símbolos por todas as partes do que a gente consegue perceber. E digo isso me embasando nos fatos cotidianos extraordinários que se dão num olhar de rabo de olho, em cada rito durante a Missa, cada riso que a gente dá quando uma coisa lembra a outra, cada verso torto que a gente escreve e tem vergonha de mostrar, cada coisa que a gente não faz em respeito ao que a gente já fez, e de cada coisa que a gente ainda faz, por zelo ao que se quer fazer.  
 Apesar da confusão, espero ter conseguido dizer que o mais importante desta publicação é deixar claro o quanto tudo é melhor quando há uma razão de ser, digo, quando há uma razão por trás de uma ação, quando ouvir uma música simboliza a presença de alguém na sua mente e no seu coração, quando lavar a louça simboliza sua vontade de agradar sua mãe, quando escrever simboliza eternizar sentimentos e momentos raros, quando se calar simboliza a proeza de se compadecer...
 Ainda por amor, e com amor, à poesia, ouvi metade de uma história outro dia desses, e me deu muita vontade de escrever. A poemática é simples, e os versos também, mas gosto de escrever movida por algo que aconteceu de verdade, e não desejos inspiradores da minha imaginação.
 Um pouco menos simbolista do que eu gostaria, juntei meia dúzia de símbolos, e aqui está.
 Conclusões de uma alma só 
“Dentro dela um arsenal:
lágrimas recolhidas,
indignação polida,
sorrisos memorizados,
balões murchados,
encantamento esquecido,
olhares furtivos,
 todos guardados!
devidamente alimentados ,
mantidos silenciosos e obedientes
na calma aparente da solidão.
Nem um dia a mais, nem uma lembrança a menos.
Saudades e dores,
esperanças e cores,
tic tac...
desbotadas,
quase um dom.
Discretos e barulhentos...
 ninguém via, mas estavam lá!
Criavam raízes nas profundezas da sua alma,
como uma parasita rara, que só não absorve amor...
 Era uma moça e um rapaz.
Dia e noite.
Confusão.
Mansidão.
Calmaria.
Anarquia.
Conflituosa harmonia,
rara sintonia, um par.
Mas que ingrata a vida,
Desperdiçava vivas
Suas fantasias sãs.   
Quisera ser um passarinho,
Que pra fugir do ninho só precisa voar...
mas minha mente pouco serena, 
é quase como uma pena,
apenas sabe flutuar."

PS.: participação importante do Caio nos últimos versos, agradecidíssma. 

domingo, 13 de abril de 2014

Sobre o pecado e outros vilões

 Eu fui o tipo de criança que visualiza pessoas ruins somente como vilões de desenho - e as vezes nem isso.
 Quero dizer que eu me colocava no lugar do super malvado Doofenshmirtz (que não passa de um cientista solitário, mal amado e mal compreendido), ou então questionava a razão pela qual o Lula Molusco era um mal humorado que sempre renegava a amizade do Bob Esponja, e sempre encontrava razões para não julgá-los ruins, pensando, por exemplo, que obviamente não ia querer ser amiga de um alguém com a voz tão chata que nem a do Bob Esponja. E no fim, o único vilão em que eu realmente acreditava era o banho, porque me tirava de frente da TV na hora em que finalmente começava As Três Espiãs Demais.
  Acho que essa inocência que a gente deixa lá na 2ª série é uma das maiores perdas que se tem nessa vida.
  Tô falando de uma perda séria! Profunda. Irreparável. Assustadora.
  Digo, quando alguém se refere à  idade adulta, esse alguém pensa numa personalidade séria, responsável, que paga contas e não acredita em Papai Noel; que acha graça em livros cheios de fantasia, em vez de enxergá-los com encanto e admiração, e querer fazer parte da história só pra ter um superpoder. Pensa-se em alguém que não brinca mais de boneca e nem pique esconde, e que, obviamente, também não finge que tic tac é remédio.
  Alguns de vocês não devem saber, mas hoje inicia-se a Semana Santa. Inicia-se uma semana vigilante de oração, silêncio, sacrifício, arrependimento, conversão...  E, feliz ou infelizmente, ela começou há aproximadamente 2 mil anos atrás por causa de um só vilão: a falta de amor. Sim, porque, pra mim, toda forma de pecado é uma forma de falta de amor.
  Hoje, na Missa, eu me senti "adulta" porque reconheci um vilão diferente do banho; reconheci um vilão que nos rouba a coisa mais importante dessa vida: o amor ao próximo; porque sem o amor, milhares de pessoas imploraram a Pilatos que Jesus, O Filho de Deus, fosse morto crucificado. Sem ele nós crucificamos a Deus todos os dias, agindo com impaciência, com intolerância, com falta de perdão, com falta de esperança, com falta de fé!....
  Me revolta e assusta pensar que pra ser a adulto a gente precise ser severo, sério, cercado apenas de responsabilidades e encarar a vida num tom de preto e branco, sem enxergar o cuidado de Deus em cada detalhe, desde as coisas mais simples até aquelas que nos fazem repensar a nossa vida. Me assombra a falta de amor com que nos tratamos hoje em dia, e o quanto a gente ignora o sacrifício mais lindo e mais honrável que qualquer outro: Deus doou Seu Filho Único, para morrer por nós numa cruz, sem a menor misericórdia de alguém diferente que a Sua mãe, sem a menor coragem vinda de alguém cuja fé não aceita injustiças e nem se omite. 
  De vez em quando (várias vezes, pra ser sincera) acho alguma coisa que presta no tumblr, há bastante tempo achei uma frase do Bukowski que diz assim:
 "De algum modo, sentia que estava ficando meio maluco. Mas sempre me sentia assim. De qualquer forma, a insanidade é relativa. Quem estabelece a norma?"
 E transferi a pergunta para um outro contexto... Digo, por que os adultos têm que ser sérios, precisam não acreditar em Papai Noel, não possam acreditar (ainda que por um segundo) nas fantasias que os livros contam,  precisam se ocupar mais e mais com trabalho sem parar pra pensar em ser misericordioso, ser tolerante, amigo, justo, ser de Deus? Quem estabelece a norma?
 Aonde está escrito que "depois que cresce" a gente não precisa mais acreditar no Papai do Céu, a gente não precisa mais rezar quando acorda e antes de dormir, a gente não precisa ir a igreja receber uma Eucaristia além daquela que se recebeu quando tinha 8 ou 9 anos?
 Por que a gente cresce e esquece que é importante trabalhar mas também é importante dedicar-se a Deus, e por que a gente deixa as situações difíceis do dia a dia nos afastarem das boas ações, dos bons sentimentos, dos bons pensamentos, das orações?
 Uma vez, quando eu tinha uns 6 ou 7 anos, fui num churrasco com meus pais. Nesse dia, estavam vários amigos de trabalho deles sentados a mesma mesa que eu. Um deles perguntou "Gabriela, você quer ser adolescente?", então eu olhei pra minha mãe e disse "mãe, adolescente paga aluguel?" e minha mãe respondeu que não, e aí eu disse "ahh então eu quero". Dessa vez, posso ouvir uma voz me perguntando "Gabriela, você quer ser adulta?", então eu perguntaria "adulto precisa ser sem fé?", e se a resposta fosse sim, eu diria que não.

terça-feira, 25 de março de 2014

Aprendi com Quem é você, Alasca?

 Algumas vezes nessa vida (bem mais do que eu gostaria) encontrei livros cujo fim decepcionaram imensamente minhas expectativas. Atualmente, tento lidar com isso pensando que a vida é mestre em nos frustrar e/ou desapontar, e deixo aqui minha contribuição diária para a salvação de todo ser humano (no caso eu), através de boas ações: tente não desenvolver qualquer tipo de mania de perseguição ou revolta com esse... artifício cruel com que a vida parece gostar de lidar, e continue comprando outros livros, e tentando outras coisas, porque, em algum momento, você vai escolher um livro bom.
 Considerando a aleatoriedade do fim do último parágrafo, justifico-me: quando termino um livro eu geralmente fico sujeita à um incontrolável fluxo de pensamentos (convenientes ou não), então tenham paciência.
 Voltando ao que interessa, a novidade é: acabo de terminar de ler "Quem é você, Alasca?", do John Green, e tenho duas opiniões formadas de maneira imutável: (1) ele é o Nicholas Sparks 10 anos mais novo, (2) não gosto de autores que têm tendências favoráveis a morte, drama e motivos que me façam chorar como um bebê enquanto leio.
 Meio spoiler a parte, hoje, apesar das expectativas frustradas, eu aprendi uma lição com o tio Nick da nova geração, e ela teve introdução aqui:
“Tantos de nós teríamos de conviver com coisas feitas e deixadas de fazer naquele dia. Coisas que terminaram mal, coisas que pareceram normais na hora, porque não tínhamos como prever o futuro. Se ao menos conseguíssemos enxergar a infinita cadeia de conseqüências que resulta das nossas pequenas decisões. Mas só percebemos tarde demais, quando perceber é inútil.”
 Verbalizar meus pensamentos em relação a este trecho está sendo peculiarmente difícil, porque eles foram muitos, mas tentarei ser o mais clara possível.
 O fato é que todos estamos sujeitos a erros. Mais que sujeitos, estamos condenados a errar. Nascemos, crescemos e vivemos numa infinda sequência (como eu já disse na publicação sobre o adeus) de falhas, e equívocos, e enganos...
 Eu, particularmente, desde que terminei esse livro, classifico as pessoas de três maneiras diferentes: (1) aquelas que lidam com seus erros de maneira otimista, e refletem de frente a uma consequência não tão boa, de modo que uma prioridade para elas seja não repetir o erro ; (2) aquelas que não lidam bem com as falhas, por isso tentam não pensar no que está ou o que fez errado, e continuam suas vidas ignorando as ações de más consequências, embora essas mesmas consequências sejam notáveis, vivas e presentes; e (3) aquelas que decidem pensar nos erros como um caso grave de necessidade de culpa, como se eles não fossem parte de um ritual obrigatório pelo qual todos passamos (e precisamos passar) e não pudessem tirar dali nada de bom.
 De vez em quando eu tenho uns flashes de pensamentos já pensados, e a conclusão que eu tirei deles, e, terminando de digitar essa publicação eu acabei encontrando um...
  ... Nunca gostei dessa coisa de expectativa. Nunca mesmo. Sempre tive aversão e repulsa às coisas que provocam/podem provocar frustração. Mas feliz ou infelizmente, depois que criaram páginas depressivas e "pré-adolescentemente marcadas" no facebook, a expectativa se tornou banal, porque, afinal de contas, até pessoas com 12 anos encontram frustração na vida, e "gente grande" não está nem aí pra crise na relativa vida emocional/afetiva dos pequenos cidadãos.
  Aí você me diz: "mas você não está ligando lé com tré nesta publicação lotada de asneiras", e eu uso um artifício Machadiano para lhes responder: oras, se este texto é meu, deixem que eu o redija e acrescente ou subtraia dele todas as informações que julgo (des)necessárias! Se queres tu definir o conteúdo desta, pois que pegue seu papel e caneta (ou notebook ou tablet) e o faça. Paciência, gafanhotos. Paciência!
 A ligação consiste no erro. Geralmente erramos criando expectativa, depois erramos ficando triste porque elas não foram supridas, e erramos ainda nos sentido culpados (1) porque criamos expectativa, e (2) porque não podíamos ter errado desta ou daquela maneira.
 Catolicamente falando, penso que Deus não permitiria que algo assim tão cruel, - no pior sentido da palavra - como o erro fizesse parte da vida, visto que Ele é um Deus de amor, e o amor incondicional e inexplicável de Deus por nós jamais concordaria em nos entristecer com algo tão maior que a nossa capacidade de suportar.
 Mas como eu sou um alguém esclarecido, sei que nem todos concordariam com isso, e apresento-lhes um segundo argumento: nós somos o que somos, e deixamos de cometer alguns erros hoje justamente porque aprendemos com o erro anterior. Por isso, a única coisa melhor que errar, é aprender com os erros.
 Particularmente falando, outra vez, eu me encaixo nessas classificações de modo diferente, de acordo com o erro em questão. Ora passo por cima e tento só aprender com isso, ora tento não pensar no que fiz por não lidar bem com o fato de ter errado, ora me culpo irremediavelmente até que descubra quão inútil isso é...
 E aqui eu construo a ponte com a citação de Quem é você, Alasca?: em alguns momentos, esse livro me decepcionou. Em outros, me fez rir. Bastante. Mas, sobretudo, esse livro me ensinou a importância de perdoar a nós mesmos, seja por ter errado, por ter acertado, por ter feito, por não ter feito...
 De fato não é possível prever o que vem depois, e, por isso, várias e várias vezes a gente faz ou deixa de fazer alguma coisa pensando que é o melhor, ou pelo menos porque se está com vontade de fazer. Seja como for, concordo que seria muito mais justo prever... "Se ao menos conseguíssemos enxergar a infinita cadeia de conseqüências que resulta das nossas pequenas decisões."... 
  ... Mas não é possível. Algumas vezes não dá pra simplesmente saber se você está agindo de acordo com o efeito que espera receber, porque você não sabe o que resultará dessa ação. Em outras, a gente precisa fazer errado, pra aprender o que essa situação está disposta a nos ensinar. Mas é tão difícil perceber que se perdoar é o que ainda dá pra fazer de bom por nós mesmos. As vezes a gente só precisa perceber que errar também faz parte, e que pode trazer uma aprendizagem positiva, "mas só percebemos tarde demais, quando perceber é inútil.”.

sábado, 8 de março de 2014

Tentativa poética

 Há algum tempo eu tenho vontade de publicar um texto sobre dons. Em algumas vezes pensei no papel direto ou indireto que os dons alheios desempenham na nossa vida, em outras pensei em partilhar os dons que eu mais admiro a fim de que o efeito positivo que eles geraram em mim aconteça também nos outros...
 Mas por fim, o fato é que todos os textos que comecei a escrever sobre isso não vingaram. Eu parava no segundo ou terceiro parágrafo, e ficava esperando meu cérebro funcionar razoavelmente outra vez, mas ele me traia!
 Cansada e frustrada, deixei isso pra lá. Passei a escrever textos sobre outros temas, e desconsiderando minha falta de inspiração nos últimos dias, até que alguns conseguiram passar a mensagem que eu pretendia.
 Contudo, a novidade da vez é que finalmente, digo, FINALMENTE, pensei num jeito eficiente e satisfatório de falar sobre dons. Mostrar-vos-ei.
Quando eu estava na segunda série (sempre vou me referir ao Ensino Fundamental como séries e não anos), minha professora de português escolheu alguns livros pra ciranda de leitura, e um deles era de poesias.  Foi o meu primeiro contato direto com poesia, e eu lembro - com muito amor e orgulho - que morria de rir com um dos poemas, e de tanto ter lido o bendito até hoje sei de cor!
Pensando nisso, reparei que a poesia me conquistou primeiro pelo conteúdo, visto que era um livro de poesias para crianças, e esses autores cheios de talento e maestria na arte de criar versos provavelmente usaram o humor como artifício (eficiente, por sinal) para atrair a atenção de leitores mirins, assim como eu naquela época.
 No entanto, esse foi o único livro de poesias que eu li desde a minha segunda série até o terceiro ano do Ensino Médio.
 A boa notícia, porém, é que desde o início do ano passado, graças ao dom encantador  e singular do meu professor de literatura, tenho me interessado por poesias novamente. Mas dessa vez o que me atrai não é o humor do poeta, e sim sua habilidade de dizer uma coisa escrevendo outra, usando metáforas, e analogias, e rimas, e símbolos, e uma genialidade que me faz morrer de inveja.
 Por isso, esse post, na realidade, se trata da minha tentativa provavelmente frustrada de exercer um dom que não sei se tenho: fazer poesia.  E lá vai:

Surpresa


Primeiro rosas,
E então, cinzas.
Sob a sombra da noite
me sorria tristonha
Minh'alma pisada
sem saber florescer.

Eram sussurros e sonhos,
promessas levadas como
folhas no outono
pelo sopro do desencanto...

Ainda sorria minh'alma
Mas, silenciosa, sepultava souvenires,
surrupiando-me também a paz.

Assim dias e noites,
e assoalhos de giz
Frágeis como os passos
na ponte de cipós que se construiu.

Labirintos inóspitos,
laços desfeitos
Vi o casulo romper
sem a borboleta voar

Mas incansável soprava o vento
a vela do barco que estava a afundar.
Era uma brisa mansa
de olhos cinzas
Um sublime sorriso de refazer
estragos...

E regava as dores,
sanava a aflição...
Graciosa sutileza ao entrar...

E então era dia!
Amorosa surpresa que preenchia
o vazio
Amável e doce como um jardim florido
Me reiterou a alma,
e devolveu o riso.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Notas de conclusão pós férias

 Modestamente falando, uma das minhas maiores qualidades é tomar nota sobre as observações cotidianas e inúteis que eu faço. 
 Felizmente, nas férias tive dias e mais dias para dedicar à arte de anotar cada detalhe esquisito, frustrante e/ou motivador que percebo.
 Mas eis que então minhas férias chegaram ao fim, assim como o meu tempo livre para os registros; e sem querer desperdiçar os meus pensamentos relacionados a coisas que deveriam ser possíveis a fim de proporcionar a mesma sensação de despreocupação e entusiasmo que as férias me proporcionaram, decidi listar (algumas delas) e compartilhar aqui essas ideias revolucionárias que andaram enchendo a minha cabeça. 
 Entrego-vos então, sem qualquer ordem de preferência ou prioridade, uma pequenina lista de sugestões para invenções futuras:
 1) estoque de abraços pra gente usar quando a pessoa cujos abraços provocam saudades estiverem longe;
 2) um ensino médio com duração de 4 ou 5 anos que teria, portanto, uma matéria anual bem reduzida e capaz de ser absorvida inteiramente por nós pré-vestibulandos e vestibulandos desesperados por uma boa pontuação no ENEM;
 3) adesão de cursos como Literatura Inglesa, Crítica de Cinema e Redação Criativa em cidades tipo A MINHA;
 4) uma fábrica de chocolates no quintal a custo (e caloria) zero para incentivar a expansão intelectual da pessoa que vos fala, visto que minha energia pra estudar é baseada na quantidade de chocolate disponível, mas o meu dinheiro não nasce em árvore e desse jeito eu posso acabar desenvolvendo um lance conflituoso com a balança;
 5) uma playlist alto astral que começasse automaticamente quando o mau humor (vulgo tpm) bater à porta; 
 6) um ar condicionado super potente e móvel, capaz de permitir o bom humor reinar mesmo embaixo desse sol emanando 70 graus;
 7) um gênio da lâmpada pra começar o ano bem e com um desejo realizado: aprender a organizar meu tempo.