terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Utopia

 Acho uma injúria nós passarmos a vida toda lidando com situações sem saber exatamente os dois lados de cada história, e ficar (pra sempre) sem entender algumas atitudes e discursos dos nossos contemporâneos.
 Quero dizer que em todas as vezes nas quais me vi imersa sob uma situação de importância relevante e quis saber o que a outra pessoa estava pensando, fiquei frustrada. Assim como nas vezes em que se conhece uma pessoa nova e surge aquela vontadezinha de saber se ela está sendo falsa ou simpática, mas, de novo, a gente não consegue descobrir.
 Minha mãe – sempre presente pra influenciar minhas teorias – nunca perde a mania de dizer que “coração dos outros é terra em que ninguém pisa”, e eu sempre viajo pensando no tentador “e se”...
 ... É que num mundo tão cercado de tecnologia, filmes sobre histórias sobrenaturais, e livros estereotipados sobre carinhas que lêem a mente das pessoas, fica meio difícil pra mim (uma pessoa de caráter relativamente criativo) não pensar na possibilidade de transportar isso pra realidade.
 Na bagunça dos intervalos que meu cérebro proporciona entre realidade e devaneio, já cogitei vários tipos de realidade fictícia (que nem a desses filmes e livros e séries e blablablá) que envolveriam uma “sobrenaturalidade” a partir da qual as pessoas conseguiriam saber o que as outras  estão pensando, e quando a gente não quisesse que a mesma lesse os nossos pensamentos, bloquearíamos a nossa mente,  num mecanismo parecido com o blok do extinto – e saudoso – MSN.
 Depois eu pensei num esquema anti-gente chata, que aconteceria de maneira que as pessoas legais tivessem uns poderes sobrenaturais da hora e o povo azucrinante ficaria sem poder nenhum.
 Mas lembrei que sou Cristã, e abortei a idéia.
 Mas eis que então eu cheguei à conclusão mais brilhante de toda a minha história como blogueira e (projeto de) escritora::::::: todos deveríamos ganhar, a cada fim de ano ou ciclo, um livro escrito em 3ª pessoa, por um narrador observador onisciente, cujo conteúdo seria todos os episódios fatídicos, memoráveis e/ou emocionalmente marcantes vividos por nós.
 Ou seja, se no momento em que as coisas nos ocorrem não sabemos o que pensar sobre as atitudes e falas das outras pessoas, pelo menos seríamos presenteados com uma explicação e justificativa algum tempo depois. Isso nos proporcionaria um desentendimento momentâneo, e não eterno.
 Acontece que é meio frustrante e chato criar vínculos e relações de interdependência com as pessoas, e se dedicar ao laço, ou à algum projeto, sem que você saiba a opinião e os interesses das pessoas que tem uma influência razoável sobre a coisa. Por isso, neste livro os pensamentos de ambos envolvidos nos diálogos e situações - cotidianas e extraordinárias - estariam identificados e devidamente explicados.
 Muito mais justo.
 Por um mundo com atitudes justificadas, pensamentos explicitados, e redução da confusão nos pensamentos dessa mera mortal que vos fala. 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Devaneio prolífero

  É bem pouco surpreendente que a minha inspiração tenha sumido temporariamente, mas que ela tenha retornado depois que comecei a ler um romance novo, e acho que não tenho muito como me justificar quanto a isso, porque a vida de um leitor desencadeia uma interminável sucessão de paixonites platônicas em nível máximo de intensidade,e além disso é preciso levar em conta que meu namorado é um fofo, daí o motivo pra inspiração voltar sempre.
 Mas o fato é que preciso logo dizer a que vim, e aqui vai: as vezes eu acho que tenho umas manias (bem) estranhas. 
 Geralmente olho as pessoas passando na rua e crio uma história de vida imaginária pra elas, só por ver o jeito como andam, falam, estão vestidas, pela cor do cabelo... Em outras vezes eu ouço músicas xodó pensando em qual cena elas vão entrar quando meu livro - finalmente pronto e publicado - virar filme, e até enceno com o espelho os diálogos das partes mais fortes da história que tenho na cabeça há anos e nunca passo pro papel (ou pro Word).
 Mas antes que me achem louca, mostro-lhes meu consolo, que é também algo que você provavelmente vai considerar socialmente aceitável: comparo a minha mania de ter manias à incontrariável (sim, essa palavra existe, eu achei no Google) mania de ter manias das pessoas idosas.
 Não tardo em explicar-lhes, por favor lutem contra a vontade de parar de ler, valerá a pena, no fim, creio eu.
 Talvez seja impressão minha, mas quanto mais uma pessoa vive, mais ela parece adquirir manias. Minha avó, por exemplo, tem mania de me mandar comer cenoura porque faz bem pra pele; beber água porque meus rins vão agradecer; e não deixar os fios que caem do meu cabelo no chão, porque talvez apareça um passarinho qualquer, pegue-os e os leve pra fazer seu ninho, e isso seria fatídico, visto que todos os outros frios começariam a cair também.
 Acho que isso é uma coisa boa, essa história de fazer uma aquisição de mania a cada degrau na escada pro céu. Quer dizer que você já teve tantas experiências, que aprendeu com elas e sabe que cenoura faz bem pra pele, água faz bem pros rins, passarinhos podem levar as pessoas à calvície(?) e assim sucessivamente!
 Eu certamente não tenho tanta experiência quanto a minha avó, e vou demorar um tempo pra chegar lá, mas a mania que me traz aqui é sentir saudade de coisas que não voltam.
 Reza a lenda (na minha imaginação) que pensamentos nostálgicos conduzem o rumo dos nossos devaneios a conclusões, e a minha sobre este assunto é: saudade é bom!
 Eu sei que não parece muito agradável, a princípio, toda essa história de nostalgia, persistência da mente em usar qualquer detalhe pra lembrar do que a gente queria ter mas já foi embora, e é menos convidativo ainda toda a sensação de infelicidade e baixa auto-estima que a saudade traz junto com ela uma vez ou outra, mas tudo na vida é uma questão de ponto de vista...
 ...Sentir, em geral, quer dizer que estamos vivos. Mas sentir saudade... Ahh sentir saudade quer dizer que mais do que estar vivo, a gente viveu, a gente sentiu, a gente riu, fizemos história, e vamos contá-la pros nossos netos um dia, sentados na cadeira de balanço.
 E digo mais: quando a saudade se trata do que ainda não veio é melhor ainda, quer dizer que apesar dos pesares ainda há em nós a saudade do queremos, uma espécie de combustível psicológico pra insistir no que (ainda) não deu certo.
 Gosto de pensar que os sentimentos mais nostálgicos, considerados... “menos bons” talvez realmente não tragam motivos pra gargalhadas, mas se tudo na vida tem dois lados, o lado bom da saudade é que ela inspira, admita você ou não.
 Deixo a prova mais válida para tal argumentação: aqui e prossigo com a narrativa rumo aos finalmentes.
 Acredito que a problemática em torno da saudade seja a nossa mania, ao senti-la, de achar que precisa colocar outra coisa no lugar do que já não se tem mais, como se fosse ruim lembrar do que já se teve, e pra sufocar a lembrança, precisássemos ocupar a mente com algo novo.
 Sem querer, enquanto digitava a publicação, lembrei da vez em que minha mãe me disse que ninguém é substituível, mas os nossos papeis na vida dos outros são. Acho que isso resume a teoria: não é preciso tirar das nossas lembranças as coisas que já passamos, nem as pessoas que já passaram por nós, basta que a gente guarde o que já se foi, e entenda que o que há agora é diferente, mas ainda assim precisamos de alguém que cumpra os papeis que ficaram em aberto.